Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
O QUE EU NÃO SEI

 

 

 

 

 

 
Vivo rodeada por espelhos mágicos, como aqueles que existiam na Feira Popular quando eu era miúda, e cada um mostrava a nossa imagem de formas distorcidas e todas diferentes.
Espelhos e portas.
Portas que aparecem de repente, no meio da sala de reunião onde estou, onde devo estar atenta às palavras dos outros.
Contudo, elas surgem do nada. Uma porta, sem parede alguma, seguida de outra e outra.
Por vezes transformam-se num labirinto, um dos meus medos mais profundos.
Medo tão grande e estúpido que em tempos trabalhei com um membro do governo que tinha na sua sala, bem por detrás da secretaria e respectiva cadeira, um enorme quadro com o desenho de um labirinto.
Nunca consegui arranjar forças para explicar ao senhor porque não conseguia olha-lo nos olhos.
Nos meus pesadelos os labirintos são algo de constante e antes mesmo de me perder e desistir de encontra a saída, sufoco em pânico.
Que estupidez!
Como as portas e os espelhos que me surgem em todo o lado e durante o sono.
E por vezes, não resisto mais e atravesso-as. E do outro lado estão as personagens que aguardam que eu lhes dê voz, numa fila longa até perder de vista.
Estendem-me as mãos e eu digo que sim, prometo que um dia, mas recuo e volto a sair.
Há uma porta que sei não poder transpor.
É como se tivesse a certeza que por detrás dela está a desistência total da vida, o baixar os braços para sempre e nunca mais sonhar.
Sei exactamente qual é essa porta e conto os passos que irei dar até lá chegar.
É contra esse momento que luto todos os dias, numa tentativa tão forte de que a realidade não me destrua.
Nada em mim é normal. Vivo só e contudo movo-me acompanhada por dezenas de vozes sem rosto que exigem tudo de mim.

 


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publicado por Luísa Castel-Branco às 13:48
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Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Tão só
17 | 11 | 09
 
Vestia a solidão que a rodeava com panos imaginários. Vaporosos, translúcidos ou floridos como a memória que retinha da chita da sua infância.

Era uma forma como outra qualquer de se refugiar da vida, de percorrer os dias cumprindo todos os rituais que os outros esperavam.

Havia nela um sorriso triste que lhe moldava o rosto em permanência, como se fosse a maquilhagem que não usava.

Os tecidos envolviam-na e as suas diferentes texturas davam-lhe que pensar, tacteando-os sem se mexer, fixando-se em cada pormenor que não existia.

Muitas vezes, quando os colegas de trabalho falavam com ela, e ela respondia correctamente a todas as questões, mal sabiam eles que os via e ouvia através de cornucópias, flores miudinhas ou simples riscas que bordejavam os panos como se fossem fiapos.

Ninguém quer verdadeiramente saber o que nos vai na alma, quando todo o nosso corpo grita por ajuda. Não. As pessoas queriam conversas de circunstância, era compreensível, todos tinham os seus problemas.

E após tantos anos sozinha, a vida toda que não se cumprira, os sonhos que nunca passaram disso mesmo, ela inventara os tecidos que envolviam o seu dia-a-dia, em vez de encher a casa de gatos abandonados ou recolher-se nas igrejas, como aquelas mulheres vergadas que ali limpavam os corações e a maldade.

Quando soube que ia ser reformada, ao abrigo de uma qualquer lei, nem isso a surpreendeu.

Afinal, se tudo era apenas um compasso de espera, entre uma solidão acompanhada e o meter a chave na porta de casa e encontrar-se só, de que adiantava?

Foi então que passou a vestir as ruas da sua pequena cidade com os mesmos panos com que cobria a sua solidão.

 

 

in Destak 17 | 11 | 09


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publicado por Luísa Castel-Branco às 13:02
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