Terça-feira, 6 de Novembro de 2007
Morrer sem ter um colo

Nunca ninguém me pegou ao colo, me embalou, tomou conta de mim e me levou até aos céus. É assim que vou morrer, sem saber o sabor da acalmia da mente, da alma, como uma praia infinita de areia branca e águas transparentes, uma floresta de múltiplos verdes em que o vento deposita uma dança maravilhosa, numa melodia impossível de descrever.

Vou morrer virgem de tantas coisas, de tantos sentimentos e sensações que nunca provei, que não sei como são. Se o destino existe, e se ele se prende com reencarnações sucessivas, a essa outra que virá um dia eu desejo a paz de espírito, sem assombros de fantasmas da infância, sem o peso de todos as responsabilidades e principalmente sem esta lucidez que, como um espelho gigante e multifacetado, mostra-me clara e nitidamente os meus erros, omissões e faltas. Tenho saudades do que não conheço, mas que revejo na vida dos outros.

Tenho pena desta minha existência, desta passagem pela vida, tão imperfeita, tão pouco tantas coisas e tantas outras. O irónico é que, desde que me lembro de ser gente, sonhei com esse colo, esse abraço protector, esse escudo contra o medo, as tempestades, os desgostos ridículos e as amarguras de lágrimas de raiva e sangue. Sonhei-o, a esse meu cavaleiro andante. Nada de especial, nada de fantástico. Apenas alguém suficientemente bom, inteligente e capaz de me amar como sou, de me conhecer para além do óbvio e de me cuidar, como se fosse um pedaço de jardim, um livro antigo ou uma peça sem outro valor senão o da saudade.

in Destak 6.11.07


publicado por Luísa Castel-Branco às 10:45
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13 comentários:
De Luar_Amigo a 6 de Novembro de 2007 às 12:02
Menina Luisa. Nunca é tarde para voltar a amar, quem sabe, alguém que lhe dará esse colo que tanto quer, não estará à espreita na próxima esquina da vida??! É que às vezes está tão perto que nós não lhe prestamos a devida atenção. Basta estar mais atenta a quem a rodeia, e... "qui ça"?!!! O Amor Acontece.

Bjnhs


De Patrícia a 6 de Novembro de 2007 às 21:16
Mais uma vez identifico-me com este seu texto... Simplesmente encantador.
Sinceramente eu acho que vai ter esse colo e nessa altura vai sentir-se muito protegida e feliz, é o que lhe desejo.
Beijinhs


De Susana a 6 de Novembro de 2007 às 23:42
Querida Luisa Castelo Branco,
esta sua crónica tocou-me mt e nao posso deixar de lhe dizer que eu conheço quem lhe pode dar td o que aqui diz precisar e tanto sonha. Quando diz que "é assim que vou morrer", eu lhe digo que só morrerá assim se quiser e não precisa de uma reencarnação (coisa que não existe) para encontrar paz de espírito ... basta abrir o seu coração para Jesus Cristo. O colo com que tanto sonha, o abraço protector, o escudo contra o medo, as tempestades, os desgostos, etc somente pode encontrar em Jesus Cristo. Também é Ele o único capaz de a amar como você é e de a "conhecer para além do óbvio" e de cuidar de si.
Não queira morrer sem conhecer o Senhor Jesus Cristo, o único que deu a vida por si e que a ama tal como você é ....e Ele diz (João 14:6)"Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida" e diz tb em Mateus 11:28 "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei"
Não recuse o convite do Único que poderá mudar a sua história e que a ama mt....
Que Deus a abençoe


De X a 7 de Novembro de 2007 às 00:14
Luísa, admiro muito a sua frontalidade, o seu profissionalismo e adorei o seu texto. Parabéns!


De paula_tavares a 7 de Novembro de 2007 às 13:36
Luísa:
ao longo da vida temos tanta necessidade de colo! Sei do que fala! Porque me faltaram todos os colos que em principio deveria ter! O colo da uma mãe, de um pai, de uma avó, quem sabe de um irmão mais velho, o colo dos tios e um colo de um marido que acabou por partir com o tempo através de um divórcio!
Tive colo de uma madrinha, de uma avó emprestada e o do marido enquanto o foi!
Somos adultos e necessitados como crianças! Carentes de afectos até á medula! E transportamos essa carência ao longo dos anos das nossas vidas e de gerações! A minha avó também não teve colo, nem a minha mãe! Os meus filhos, recompensei-os até os meus braços doerem e o coração aguentar! Mas e eu? Voltarei ao menos ter um colo que me conforte, me acarinhe, um colo de um cavaleiro mas que não seja andante! Que permaneça junto das minhas nostalgias, das tardes invernosas junto à lareira e me adoce a alma e fertilize o corpo!? Será?


De João Cordeiro a 7 de Novembro de 2007 às 14:31
Cara Luisa,
Ao ler ontem os seus “instantes”, fiquei nostálgico e pensativo.
Aliás tem o dom de nos fazer pensar e isso é muito bom.
Morrer sem ter um colo! Eu diria antes que a maioria vive sem ter um colo. Mais grave ainda, não vivem.
Por vezes revejo a minha vida e penso que deveria ter feito como os outros e encontrar-me, aos quarenta, pai de família, funcionário público, cansado e contando os dias para a reforma. Mas, eu próprio desafiei o destino. Atirei-me a uma destruição metódica. Tentei sempre ir mais além… mais além no amor, mais além da raiva, mais além deste mundo visível. Inclusive por todos os meios que dispunha, álcool, drogas, a mística ou a loucura.
A verdadeira vida devia estar algures…
Toda a minha vida experimentando, falhando, recomeçando, para sair, por fim, da minha triste condição.
A família, o amor, o trabalho, as férias, o passeio ao sol, não passam de máscaras de carnaval oferecidas às pessoas, enquanto se espera que elas ordeiramente tomem o seu lugar no cemitério.
A grande maioria morre intacta. Ou seja, pouco diferentes do que nasceram, como pedaços de carvão, não consumido, a apodrecer nas profundezas de uma velha mina abandonada à sua sorte.
Esses não consumiram a vida. E, por vezes às portas da morte, revoltam-se por terem sido enganados, por sentirem, bem nesse instante que não viveram, ou que não os deixaram viver.
Pelo menos, eu tentei sempre afastar as máscaras do degredo psíquico. Mesmo agora, gasto, esfarrapado e grogue.

Espero com toda a sinceridade que encontre o seu colo assim como eu me encontre a mim próprio.

Até sempre
JC


De josgar a 9 de Novembro de 2007 às 17:05
Descubro, agora, por conseguinte, que a esperança não pode ser evitada para sempre e que pode assaltar até aqueles que supunham estar livres dela. É o interesse que encontro nos textos que leio da LUÍSA até ao momento. Eu poderia, pelo menos no campo da criação, enumerar algumas textos verdadeiramente absurdos. Até este coração que é o meu continuará sendo sempre, para mim, indefinível. Entre a certeza que tenho da minha existência e o conteúdo que tento dar a essa segurança, o fosso jamais será preenchido. Serei para sempre um estranho diante de mim mesmo.
Admirador Ribatejano do Canal Noticias de Lisboa


De Carlos Oliveira a 10 de Novembro de 2007 às 20:10
Olá Luísa,
Ao ler a sua crónica apeteceu-me apresentar-lhe Jesus - não religião. Ele é o colo de que todos precisamos, quando todos os outros colos nos faltam.
Ele pode perfeitamente tomar dar-lhe colo, conta de si, embalá-la, levá-la ao céu. Sim, Ele é tão fantástico e único, que pode, na morte estar consigo e dar-lhe o sabor da acalmia da mente, da alma, na praia infinita deslumbrante que a eternidade lhe pode reservar e ofertar.
Se O conhecer deveras, não morrerá virgem dessas tantas coisas, desses tantos sentimentos e sensações que nunca provou, que não sabe como são, e que a querem deleitar.
Só Ele lhe pode dar a paz de espírito que persegue e perdoar-lhe e apagar os seus erros, omissões e faltas. Ele levá-la-á a conhecer o inimaginável e a desfrutar do abençoável que viu e que nunca viu na vida de ninguém. Só Ele lhe poderá dar sentido à existência e propósito à sua passagem por esta vida. Como entendo essa sua saudade desde criança! O ser humano tem um vazio na forma de Deus. Nada mais, a não ser Ele o pode preencher satisfatória , plenamente.
A voz de Jesus ainda se ouve hoje, dizendo: "Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei ...". Permita-Lhe que Ele lhe dê esse colo único, desejado e apetecível, e lhe faculte a protecção e o escudo que a tornará imune a medos, tempestades, desgostos e amarguras. Ele é o Cavaleiro descrito como o que cavalga sobre os céus para a sua ajuda. Ele amá-la-á como é e valorizá-la-á como nunca foi nem sonhou. A saudade dará lugar à eterna felicidade.
Que Deus a abençoe.
Carlos Oliveira


De Carlos Oliveira a 11 de Novembro de 2007 às 02:40
Desculpe a repetição, mas notei que uma frase tinha palavras trocadas, pelo que repito aqui, mas com a devida correcção:

Olá Luísa,

Ao ler a sua crónica apeteceu-me apresentar-lhe Jesus - não religião.

Ele é o colo de que todos precisamos, quando todos os outros colos nos faltam.

Ele pode perfeitamente dar-lhe colo, tomar conta de si, embalá-la, levá-la ao céu. Sim, Ele é tão fantástico e único, que pode, na morte estar consigo e dar-lhe o sabor da acalmia da mente, da alma, na praia infinita deslumbrante que a eternidade lhe pode reservar e ofertar.

Se O conhecer deveras, não morrerá virgem dessas tantas coisas, desses tantos sentimentos e sensações que nunca provou, que não sabe como são, e que a querem deleitar.

Só Ele lhe pode dar a paz de espírito que persegue e perdoar-lhe e apagar os seus erros, omissões e faltas. Ele levá-la-á a conhecer o inimaginável e a desfrutar do abençoável que viu e que nunca viu na vida de ninguém. Só Ele lhe poderá dar sentido à existência e propósito à sua passagem por esta vida. Como entendo essa sua saudade desde criança! O ser humano tem um vazio na forma de Deus. Nada mais, a não ser Ele o pode preencher satisfatória, plenamente.

A voz de Jesus ainda se ouve hoje, dizendo: "Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei ...". Permita-Lhe que Ele lhe dê esse colo único, desejado e apetecível, e lhe faculte a protecção e o escudo que a tornará imune a medos, tempestades, desgostos e amarguras. Ele é o Cavaleiro descrito como o que cavalga sobre os céus para a sua ajuda. Ele amá-la-á como é e valorizá-la-á como nunca foi nem sonhou. A saudade dará lugar à eterna felicidade.

Que Deus a abençoe.

Carlos Oliveira





De Azoriana a 11 de Novembro de 2007 às 22:04
Cara Luísa Castel-Branco

Gosto imenso do seu blog. Gostei de a ver na televisão no programa da Júlia Pinheiro. Peço-lhe um favor: se souber o e-mail da Júlia Pinheiro, agradeço muito que me escreva porque queria sugerir-lhe um assunto.

Um grande abraço do tamanho da ilha Terceira. A Luísa está muito bem.


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