Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008
Partilhar a dor

Fui ao Hospital da Cuf visitar uma amiga que está nos cuidados intensivos. Quando saí e me encaminhei para o elevador, colocou-se a meu lado um senhor, de 70 anos talvez, alto e com um rosto de estrangeiro. Quando entrámos no elevador, perguntou-me se falava inglês. Disse-lhe que sim e por poucos segundos ficámos calados. Logo de seguida, ele diz-me que vive no Algarve e que a mulher estava ali nos cuidados intensivos porque tinha tido um AVC.

«Foi muito forte. Ela tem o cérebro cheio de sangue e os médicos queriam operar mas eu disse que não. Nunca se sabe o que pode acontecer quando se mexe no cérebro de um ser humano». Respondi-lhe que tinha tido um AVC aos 49 anos. «Mas a minha mulher tem 86. Não é justo condená-la a acabar a vida agarrada a uma cama, sem ser ela mesma».

Saímos a porta do elevador. Ele parou, olhou para mim e perguntou: «Não concorda?» Respondi-lhe que sim, que já tinha pedido à minha família que se acaso eu tivesse outro AVC e fosse de consequências tão graves assim, que não tentassem manter-me viva a todo o custo

«Preciso de apanhar ar. Estou muito cansado. As filhas da minha mulher chegam amanhã e vão ajudar-me mas há dias que não saio da beira dela, estou sempre a conversar com ela.» Afinal, tinha bem mais de 70 anos. Os ombros foram descaindo com a conversa e os olhos foram ficando mais vazios. «Foi um prazer falar consigo. Adeus.»

Começou a descer a caminho da rua. Nunca estamos preparados para dizer Adeus. Aquele homem estava só, e precisou de falar. Como se ao pôr as palavras cá fora a dor ficasse mais pequenina.

in Destak 12.02.08



publicado por Luísa Castel-Branco às 11:22
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9 comentários:
De Fátima a 12 de Fevereiro de 2008 às 23:00
Luísa,

Esse Senhor teve a sorte de a encontrar e a Luísa lhe responder.

Quantas vezes perdidos com os nossos problemas, não reparamos nos olhares suplicantes das pessoas que muitas vezes só precisam de um pouco de atenção.

Quantas vezes imploramos com os olhos, uma palavra, um gesto, algo que nos ajude a prosseguir e não encontramos resposta.

As pessoas parecem que não nos vêem sofrer.
Bem-haja pelo apoio que lhe deu.


De João Cordeiro a 14 de Fevereiro de 2008 às 12:39
Embora seja um sonhador, por vezes também eu acordo.
Piso a realidade e cara Luísa eu sei o que é um AVC x2.
Sou filho único e estou perante 2 casos que me afectam bastante.
Os meus pais, foram ambos vitimas de AVC... e eu como deve calcular, continuo a sofrer com esta nefasta realidade.
Por esse e outro motivos sonho que o mundo ainda pode ser um pouco melhor.


JC


De a 14 de Fevereiro de 2008 às 14:43
Não tenho dúvida que esse pequeno diálogo, aliviou um pouco (pelo menos naquele) momento o coração desse homem. Sou da sua opinião. Antes morrer logo, que ir morrendo.


De Su a 20 de Fevereiro de 2008 às 16:22
Considero-a uma mulher de coragem, e admiro a sua frontalidade e maneira de encarar a vida.
Por vezes nós mortais andamos tão ocupados que nos esquecemos das coisas mais significativas e importantes da vida.
Parece-me a mim que as suas palavras, o seu silencio, foram uma mais valia para aquele senhor que teve a sorte de encontrá-la.
No meio da angústia e da tristeza é bom ter alguém para nos ouvir, ou esboçar um sorriso de esperança e consolo.
Não é fácil perder quem se ama...


De Patrícia a 23 de Fevereiro de 2008 às 20:37
Aterrador... Um bom texto que nos faz reflectir


De Maria de Lourdes a 26 de Fevereiro de 2008 às 21:44
Olá Luisa
Como as nossas experiencias nos ajudam a compreender as situações até daqueles que nunca tinhanha-mos visto e é sempre tão reconfortante quando estamos do lado pior.
Há 17anos o meu filho mais velho esteve muito mal com broncopneumonia dupla e pleuresia com derrame
foi de TOrres Novas para o H.Pulido Valente,quando lá chegámos depois de ser visto, vieram ter comigo para me que lhe tinham picado o pulmão 4 vezes, mas não tinham encontrado liquido mas sim uma(massa) que me fosse enbora e ligasse para la ás nove horas,não disse a ninguem.


De belzen a 4 de Março de 2008 às 18:50
cara luisa, ainda hoje ao finzinho da tade me deliciei com a sua conversa no portugal do coraçao, dedicado "às mulheres de armas" eu sou uma delas , só que sou anónima, temos idades muito próximas, mas historias de vidas opostas, ou que se podem tocar em alguns pontos, sou eu , sempre atenta e informada, as vezes, no fundo, mais vezes no fundo,.. mas basta lembrar os rostos dos meus filhos de 25 anos, gemeos monozigóticos, engenheiros civis de profissao, para vir a tona, e ver que seres humanos maravihosos que eu sozinha formei, beijinhos


De LAG a 17 de Março de 2008 às 00:02
O coração quer falar... mas as palavras teimam em não querer sair... Mesmo assim, quero aqui deixar uma marca. Li o texto. Senti-o. E lembrei-me de que nunca sabemos o que nos pde acontecer. Mas tenhamos fé! A fé, a única coisa palpável a que nos podemos agarrar!...


De Maria de Lourdes a 14 de Abril de 2008 às 00:06
Luísa quando do comentário que fiz tive de parar por não me estar a sentir e porque chegou um dos meus filhos, depois andei um pouco desviada do computador
porque pois o meu marido precisou dele, ora eu tinha ficado no dia que o meu filho tinha ficado no Pulido Valente Foi a pior noite que tive ate hoje, no dia seguinte liguei para lá e disseram-me que já estava na enfermaria e que há hora da visita já o podia ir ver. Os dias que se seguiram foram de angustia de medo mas também de esperança.
Agarrei-me a tudo o que nos podemos agarrar ia daqui do Entroncamento de Comboio até Lisboa ia à visita depois seguia para casa de uma tia que vive nos Olivais no dia seguinte fazia a volta no sentido inverso pois tinha que vir tratar do que era preciso para o pai e os irmãos e da casa.
Tive muitas vezes por companhias de viagem pessoas
que também tinham problemas e falar-mos cada qual dos seus era como se transmitisse-os força umas ás outras. No dia em que eu ia daqui mais desanimada vi a médica que o tinha mandado para Lisboa, foi espectacular a conversa que teve comigo que me deu uma força enorme.
O meu filho ao contrário do que se previu curou-se está bem tem 2 filhos lindos e tenho esperança que os veja criados se Deus quiser.

Maria de Lourdes






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