Quarta-feira, 26 de Março de 2008
A escova de dentes

Tenho uma dor aqui, tão forte que me corta a respiração.

Tenho a tua falta marcada como ferro em brasa no peito, como uma tatuagem feita às escondidas, que hoje renego, que amaldiçoo e quero esquecer.

Ah! Os dias prolongam-se estupidamente, e as noites, essas, passo-as às voltas na cama porque cada vez que estendo o braço e não te encontro, acordo em desassossego, e meio a dormir, chamo o teu nome e demoro a realizar que partiste.

Faço o mesmo que fazia antes. Quer dizer, levanto-me, vou trabalhar, volto para casa, deito-me.

Faço tudo sem perceber o que se passa, ou sem intenção alguma, porque o meu corpo se assemelha a um autómato que conhece os horários das coisas que é suposto serem feitas.

Mas é como se eu, enquanto o meu corpo sai a porta e vai, eu ficasse aqui, afogada nos lençóis , nas almofadas e no teu perfume, no cheiro do teu suor que ainda aqui está, que ainda aqui o sinto.

Depois chegam os fins de semana e dói mais a solidão quando não me posso esconder no escritório , quando eu e a casa ficamos sós, a rua lá em baixo à minha espera.

Mas ir aonde? Fazer o quê?

Foram muitos anos a viver a dois, a caminhar a dois, a cozinhar para dois, o sofá com a marca de dois corpos. A tua escova de dentes na casa de banho (porque te terás esquecido da escova de dentes ?), o silêncio nas escadas, a porta que não abre e tu a chamaras por mim.

Doi-me aqui dentro. E hoje é sexta-feira e amanhã é dia de ter família .

Hoje a Dona Aurora perguntou-me por ti, lembras-te dela? A senhora da papelaria? Claro que não te recordas porque há muito que estavas surdo e cego para tudo o que era a nossa vida, vidinha miserável e sem interesse, foi isso que disseste antes de sair, não foi?

Estavas ali à porta, com a ultima mala na mão, que já tinhas levado tudo o resto antes de eu chegar do trabalho, disseste isto e depois ficaste calado.

E é essa imagem que me faz doer aqui dentro, mais que tudo o resto.

O teu olhar de desprezo e as ultimas palavras que deixaste no tapete: Como é que ficaste nesse figura?

E eu a olhar para mim e eu a ter vergonha do meu corpo e eu...

Doi-me cá dentro e por isso não consigo chorar.



publicado por Luísa Castel-Branco às 23:57
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6 comentários:
De a 27 de Março de 2008 às 11:58
Cruel realidade! Não é fácil encontrar motivação para o dia-a-dia, o esforço é grande e o sorriso quase sempre forçado. Oxalá cheguem dias luminosos ... :-)


De teixeira.marta@gmail.com a 27 de Março de 2008 às 19:43
Choro a escrever este comentário , pelo sentimento idêntico que sinto na sua descrição.
Tem dias em que não consigo chorar mas a dor essa parece que não me quer largar...
Bem sei que dizem que o tempo cura tudo, mas as feridas essas mantêm-se...até quando ?não sei!
Resta-me pensar que a vida têm significado e sempre terá mesmo que sem uma escova de dentes por perto...




De isabel a 28 de Março de 2008 às 01:29
A partida é sempre dolorosa; mas, é mais uma provação pela qual temos de passar e conseguimos vencer.
Corrói-nos, bem sei; mas, o tempo ajudará a sarar.

Bjnh


De Manelito Caracol a 30 de Março de 2008 às 02:54
Luísa,
Nem sei o que dizer, o que comentar, mas sinto que devo dizer qualquer coisa...
Pelo menos dizer-lhe que li o que escreveu e que também me emocionei. Talvez por me identificar, talvez por me doer também o peito.
Chorei por mim e por si. Por todos aqueles que sentem a falta, sentem a solidão, sentem o medo dos dias vazios.

Um beijo muito grande, de alguém que partilha de uma dor idêntica à sua...

Deixo-lhe aqui um post escrito por mim há algum tempo.

http://manelitocaracol.blogspot.com/2006/05/tudo-de-novo-fuga-de-15-minutos.html
...

Outro beijo,
Manel


De ritz_on_the_rocks a 31 de Março de 2008 às 13:11
Olá Luísa
Martha Medeiros é uma brasileira que escreve coisas maravilhosas, fácil de encontrar na net. Escreve coisas expontâneas como as suas.
Dificil destacar uma em particular. deixo-lhe aqui um trecho.
Hoje é este o meu comentário ao seu texto.
Abraço
Rita V

A Alegria na Tristeza

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.
Martha Medeiros


De FATIMA LOPES a 1 de Abril de 2008 às 20:27
Luísa, confesso que estou baralhada!
Serei loura talvez, mas pergunto é mesmo da sua dor que está a falar?
A solidão dói mas dói a valer, quantas vezes estamos acompanhados e sós, é uma frase feita, bem sei, mas uma realidade.
Encare com a força que nos transmite ter.
Beijinho


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