Terça-feira, 8 de Abril de 2008
"A saudade é fechar a porta do quarto do filho que morreu"

Arrancaram metade de ti, amputaram metade de ti e tu para aqui ficaste, a fingir que vives, a fingir que estás cá mas é mentira.

Encolhes-te quando alguém fala com medo que digam o nome dele, com medo do sacrilégio de alguém seja quem for, até o teu marido, mencionar o nome dele, que ninguém tem esse direito, ninguém.

Morreste no momento em que o teu filho morreu, e não estavas lá, não pudeste pegar-lhe na mão e ampara-lo uma ultima vez.

E amaldiçoas esse momento, esses segundos que o Universo te roubou, porque já perdeste as forças para encontrar respostas para o que aconteceu, e então, revoltas-te contra a tua ausência perto do teu menino naquele momento em que subiu aos céus.

Não que encontres consolo ou acalmia na certeza de que ele lá está lá em cima, perto de Deus, desse Deus com quem cortaste relações para sempre, porque te roubo o maior bem da tua vida, a tua razão de existir.

Os dias correm e sabes pelos outros que os anos passam, que tu não tens a noção, ficaste presa naquele dia, naquele momento, naqueles segundos.

Os outros, acreditam realmente que o tempo tudo cura.
Mas os outros não tiveram o teu menino no ventre, não o pariram, não o embalaram nem lhe limparam as lágrimas.
Para ti, todos os dias são iguais. E passas à porta do quarto dele, onde não autorizas-te ninguém a mudar um simples papel: "Mariana, está na altura" e tu que te fingis surda.

Todas as noites abres a porta de mansinho, entras no quarto dele, e sentas-te na borda da cama.

E choras, choras mesmo quando já não tens lágrimas, em silêncio.

Que interessa o mundo fora daquele quarto?

in Destak 8.04.08



publicado por Luísa Castel-Branco às 09:35
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3 comentários:
De Ricardo a 11 de Abril de 2008 às 18:53
Sou pai de duas meninas, uma de cinco anos e outra de 10 meses.

Levei a minha filha à piscina e, no tempo de espera para a levar de volta para casa, folheei o jornal que julgo ter sido o "Destaque" e à páginas tantas depareime com o seu texto - este que agora comento - que, sinceramente, me fez ter arrepios não só pela forma clara como o escreveu mas, principalmente, pelo seu conteúdo... maravilhosamente emotivo.

A morte de um filho é de tal forma aterrorizante que nem me atrevo a imaginar a dor que deve ser.

Já há algum tempo que consulto, leio e aprecio o que se vai escrevendo por esta Internet fora, esta é a primeira vez que achei que valia a pena deixar um comentário num blog. Parabéns pelo texto que está magnificamente escrito.


De Patrícia a 12 de Abril de 2008 às 10:08
Estava no comboio a ler este seu texto quando dei por mim estava com lágrimas nos olhos e envergonhada por estar assim à frente de estranhos, que partilhavam comigo o mesmo comboio ,e por ser devido à leitura. Até que a Sra que estava à minha frente diz " É por causa da Luísa não é?! Ela provoca-nos destas coisas..."
Sorri e queria partilhar consigo isto. É muito interessante como alguém como a Luísa consegue provocar este tipo de sentimentos através da sua escrita e "unir" as pessoas.


De jose de bareu a 9 de Maio de 2010 às 01:02
boa noite minha amiga ;
eu nunca imaginava que um dia iria acontecer comigo,
foi a um mes atras agora desse ano perdi meu unico filho de 16 anos de idade , assasinado com dez tiros , eu hoje nao tenho nem mais vontade de viver , meus sonhos se acabaram , porque vivemos para nossos filhos , e me pergunto pra quer viver , a joia mais rara que eu tinha na vida eu perdi .


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