Terça-feira, 22 de Abril de 2008
Recordar coisas simples

Gosto do rasgo branco nos céus, quando os aviões deixam pegadas, como se fossem sinais de luz branca.

Gosto do vento, mesmo quando tenho medo, quando uiva de tal forma que parece que o demo desceu à terra.

Gosto da chuva. Do cheiro da chuva. Do sabor da chuva. Do perfume a terra molhada, a roupa a secar. E do aroma da madeira a estalar na lareira, azevinho a perfumar a casa.

Gosto da luz da cidade, quando o dia nasce e se reflecte nos telhados, ou quando o sol se põe e uma estranha cor, meio rosa, meio cinza, aflui vinda não se sabe de onde e abraça os telhados, a calçada e desagua no rio.

O que vou recordar, no momento em que me despedir desta vida? Isto tudo? Ah! Tenho por certo que não.
Seguramente que partirei a sentir o odor dos meus filhos quando nasceram, do primeiro ao último sorriso. Do primeiro ao último beijo. Aqui sentada a olhar o céu que escurece, uma mistura de sons, perfumes e paladares marcam-me como dedadas.

A vida é pouco mais que isto. Quedar-me imóvel como se pertencesse à paisagem, e o amanhã não fosse importante porque não existe. Só o aqui e o agora.

Com os anos, a visão que temos do mundo vai-se transformando, primeiro num alvoroço e depois, quando a idade começa a pesar, de forma lenta mas enexorável.

Os pensamentos entrelaçam-se numa languidez que nos entorpece o corpo, com as memórias de outros tempos, recordações que ficaram. Dou comigo muitas vezes a imaginar como será essa última etapa da minha vida. E espero conservar esse bem inestimável, a memória dos dias felizes, dos risos e do perfume do meu lar.

É quanto basta.

in Destak 22.04



publicado por Luísa Castel-Branco às 21:36
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2 comentários:
De Maria de Lourdes a 27 de Abril de 2008 às 22:17


Olá Luísa
Boa noite é isso tudo como nós mudamos a nossa visão sobre a vida sobre o mundo e ficamos a pensar
como nós corria-mos por tudo e nada.
Um dia apanhamos com uma surpresa da vida e atrás vem outra e mais outras e então pensamos porquê as corridas, mas como fazer de outra maneira
os eram para criar pois eles tal como nós não pediram para nascer e também eram o melhor que tinha-mos.
Na minha maneira de pensar não são só as doenças que nos fazem acalmar, mas a ideia de que já podemos mais em nós, mas lá vem um mas nem sempre é assim e vamos vivendo conforme podemos
pois há sempre quem reclame pelas nossas obrigações sem se lembrarem dos nossos direitos ou até não se esquecem, e por hoje aqui fico: um beijinho
Maria de Lourdes


De Falco a 28 de Abril de 2008 às 21:59
Na realidade, como já dizia Osho, o amanhã não existe, é pura ficção. Não nos deve ocupar o espírito conjecturas sobre a última etapa.
A vida é aqui e agora. Este é o momento em que devemos ser felizes. Recordar os tempos felizes do passado não é viver, é ter vivido.
Desde que nascemos, que a nossa vida é uma sucessão de ultimas etapas... Como dizia o poeta Pedro Salinas: Serás tu, amor, um longo adeus que não acaba?... e porque a alma, cegamente sente, que o mais certo é o adeus.
Esse é o destino das pessoas e sensações que nos tocam. Não vale a pena falar do fim. Fale-se do entretanto. Despeço-me à TMN: até já.


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