Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
Os comentários

Nunca me deixo de surpreender quando alguém se aproxima de mim na rua, num café, e comenta aquilo que escrevo aqui no Destak.

Há duas semanas, estava a chegar à estação de Gaia quando um taxista me disse: Leio sempre os seus artigos! São pessoas das mais diferentes idades, homens e mulheres, que muitas vezes nada têm em comum senão, ou pelo menos, o lerem o Destak.

Depois existe outra realidade, a do mundo virtual da Net.

Confesso que todas as semanas leio os comentários aos meus textos e aos de outros que aqui escrevem.

E nunca deixo de me divertir. Porque é a única coisa possível de fazer, ao ler desde textos sentidos, até disparates pessoais, tipo "Coitadita, partiu uma unha!"

Sociologicamente estes comentários são interessantes e importantes. Quem os escreve dá-se ao trabalho de perder o seu valioso tempo, muitas vezes para articular um insulto sem nexo. Mas muitas vezes, para partilhar dos sentimentos que transcrevi para o papel.

E é isso que realmente conta. Quando escrevo sobre um estado de alma, que raramente é meu mas de outros, tento colocar por palavras a dor, a alegria, a separação ou aqueles momentos mágicos.

Porque somos todos iguais, aqui bem dentro do coração.

 

in Destak 26.02.08



publicado por Luísa Castel-Branco às 08:21
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008
Onde estás?

A saudade sabe a ti, transporto na minha boca o teu sabor, que se desfaz devagarinho, como se fosse um doce, caramelo que se pegou aos dentes. O teu corpo, esse ficou colado ao meu para sempre. Já desisti de tentar libertar-me dele.

Os meus passos solitários nas escadas, na calçada, esses vivem assombrados pelos teus passos.Acordo todos os dias a dizer que é hoje. Que vou conseguir começar de novo. Mas toda a casa tem ainda o teu perfume, a almofada perdeu a tua forma mas eu vejo-a lá.
Oiço as tuas palavras sussurradas nos meus ouvidos, e não estás aqui, ninguém está aqui a não ser eu e a minha solidão. Ah! Doem-me partes do corpo que eu não sabia ter, a alma fugiu-me e nunca mais a vi. Estou tão nua como a criança acabada de nascer e erro pelos dias, pelas noites, numa enorme confusão entre as memórias do que fomos e o que nunca aconteceu e eu sonhei.

Estou tão cansada, amor, tão prostrada que não tenho alento para as coisas mais simples e pergunto-me como vou continuar viva. Se tu partiste e levaste um pedaço de mim tão grande que me sinto cortada ao meio, metade de mim foi contigo e por isso que faço eu agora aqui?

in Destak 19.02.08



publicado por Luísa Castel-Branco às 21:33
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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008
Partilhar a dor

Fui ao Hospital da Cuf visitar uma amiga que está nos cuidados intensivos. Quando saí e me encaminhei para o elevador, colocou-se a meu lado um senhor, de 70 anos talvez, alto e com um rosto de estrangeiro. Quando entrámos no elevador, perguntou-me se falava inglês. Disse-lhe que sim e por poucos segundos ficámos calados. Logo de seguida, ele diz-me que vive no Algarve e que a mulher estava ali nos cuidados intensivos porque tinha tido um AVC.

«Foi muito forte. Ela tem o cérebro cheio de sangue e os médicos queriam operar mas eu disse que não. Nunca se sabe o que pode acontecer quando se mexe no cérebro de um ser humano». Respondi-lhe que tinha tido um AVC aos 49 anos. «Mas a minha mulher tem 86. Não é justo condená-la a acabar a vida agarrada a uma cama, sem ser ela mesma».

Saímos a porta do elevador. Ele parou, olhou para mim e perguntou: «Não concorda?» Respondi-lhe que sim, que já tinha pedido à minha família que se acaso eu tivesse outro AVC e fosse de consequências tão graves assim, que não tentassem manter-me viva a todo o custo

«Preciso de apanhar ar. Estou muito cansado. As filhas da minha mulher chegam amanhã e vão ajudar-me mas há dias que não saio da beira dela, estou sempre a conversar com ela.» Afinal, tinha bem mais de 70 anos. Os ombros foram descaindo com a conversa e os olhos foram ficando mais vazios. «Foi um prazer falar consigo. Adeus.»

Começou a descer a caminho da rua. Nunca estamos preparados para dizer Adeus. Aquele homem estava só, e precisou de falar. Como se ao pôr as palavras cá fora a dor ficasse mais pequenina.

in Destak 12.02.08



publicado por Luísa Castel-Branco às 11:22
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