Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
Os cidadãos e a política
 
  

É compreensível a razão pela qual os portugueses cada vez se afastam mais da política. Se assistirmos a um dos muitos noticiários, na rádio ou na TV, ficamos convencidos de que o Mundo vai acabar senão hoje, talvez amanhã.

Somos bombardeados por notícias sobre a crise em Portugal, a crise no estrangeiro, a febre suína, enfim um manancial de problemas sobre os quais nós, enquanto cidadãos, gostaríamos de ter algumas explicações.

Mas cada vez que um membro do governo ou de um partido da oposição fala, é como se falasse para os outros políticos e não para os restantes portugueses. Linguagem hermética, ataques permanentes, mais parece uma arena ou o relato de um jogo de futebol.

Se acreditarmos no que os políticos dizem uns dos outros, então temos que aceitar aquela frase que anda na boca de tantos, há tanto tempo: São todos iguais! Não será seguramente possível concordar com todas as medidas de ambas as partes, mas que raios, porque não têm um pouco de decoro e deixam de se insultar como comadres zangadas?

E que tal explicarem de forma acessível a todos, os porquês e as consequências. Já alguém percebeu os avais do Estado à Banca enquanto um mero cidadão não consegue acesso ao crédito?

Fala-se do despedimento. Números e mais números mas não são verdadeiros porque por detrás de cada um existe um ser humano que em trabalho perde tudo, inclusive a dignidade e o respeito.

Temos um país a envelhecer e segundo os dados, apenas as comunidades emigrantes têm filhos. Mas, ao mesmo tempo, os homens e mulheres com mais de quarenta anos são já considerados velhos. Basta reparar nos anúncios dos jornais

 

in Destak 28 | 04 | 2009



publicado por Luísa Castel-Branco às 10:42
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Quinta-feira, 16 de Abril de 2009
Eu hoje

 

 
Acredito que tudo na vida acontece por alguma razão.
Muito provavelmente é apenas a minha tentativa de colocar ordem no universo das coisas e dos dias, nas desilusões e nos espantos que os anos nos trazem.
Mas sim, acredito cada vez mais que tudo acontece por alguma razão e que devemos prestar atenção aos sinais, estar atento aos revezes e às pequenas coisas que perfazem as nossas vinte e quatro horas.
Quando somos jovens, tudo parece ser possível.
Depois, há um longo tempo na nossa vida em que corremos e corremos numa luta para sobreviver.
Quando já vivemos mais, muito mais do que metade da nossa vida, à certas palavras que ouvimos em tempos que começam a tomar sentido.
Quanto mais andamos para a frente, mais percebemos que não sabemos nada.
Que não temos respostas e só perguntas, dúvidas e o medo, esse medo de tanta coisa que se instala dentro de nós.
A meia-idade afinal nada é mais que desistir de acreditar que todos os seres humanos são intrinsecamente bons, que existe justiça e que na batalha entre os bons e os maus, estes são sempre penalizados.
Creio que foi Camus que um dia escreveu: “O inferno são os outros”.
Eu creio que o inferno, somos nós mesmos e os nossos arrependimentos quer do que fizemos, quer do que não fizemos ou dissemos.
Voltando ao início, não acreditando que nos rodeia um vazio, mas sim algo que não sei dizer ou explicar o que é, tento todos os dias estar mais atenta ao que me acontece, ao que falho, ao que digo, àquilo que os outros me dizem.
Contudo, perdi aquela inocência que dava um travo tão especial à vida e uma dose de loucura saudável, de audácia, da vida com um sorriso nos lábios.
Hoje quando vinha de carro para casa, o céu estava azul cinza e lá ao longe um negro, nuvens carregadas como que pintadas, desenhos numa tela.
Dei comigo a pensar que é bom estar viva para olhar a natureza.
Para esperar que amanhã um outro azul lamba a estrada.
 
 


publicado por Luísa Castel-Branco às 21:22
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Tantos anos, tantas memórias!
 
  

Podia ainda sentir a pele dela na sua pele. Como se o seu corpo tivesse guardado as memórias de todas as sensações, cheiros, dos afagos e também dos momentos amargos, porque tinham existido.

E contudo, quando relembrava os longos anos dormidos na mesma cama, a rotina dos dias quase sem alvoroço, o que lhe vinha à memória era a doçura do amor que tinham partilhado.

Agora que estava só, era como se visse a cidade pela primeira vez. Os prédios de Lisboa tinham perdido a cor. O céu que lambia o rio ali espalhado na sua varanda, já não tinha aquela cor mágica, do rosa-claro na madrugada, o azul transparente durante as horas do dia e por fim, o longo mergulho do ocaso, como se o rio e o céu se abraçassem e engolissem a cidade. Tudo isso desaparecera.

A solidão comera-lhe os sentidos, a saudade dela levara para o outro lado do outro mundo que seguramente existia, levara-lhe tudo e deixara-o ali, vivo mas sem sangue a correr-lhe nas veias. Quase quarenta anos, e a mão dela tão pequena, que cabia perfeita no aconchego da sua mão.

Os filhos, coitados, bem que o tentavam animar. Mas quando estava com eles, rodeado pela família, era ainda mais forte a dor no peito, a ausência dela era tão grande, tão forte que era como uma sombra negra que mais ninguém via.

Não falava sobre o que sentia com ninguém. Nem com o grupo de amigos, velhos reformados e que se sentiam tão inúteis como ele, e que se juntavam ali no jardim para um jogo de cartas. A morte era tema proibido entre eles. A morte, sentiam-na ali à esquina, ao dobrar da rua. Era uma nuvem que os seguia pelas ruas e pelas casas.

Mas não era a morte que temia, mas sim a vida, a vida sem a sua mulher era uma ausência de tudo.


in Destak 14 | 04 | 2009



publicado por Luísa Castel-Branco às 10:57
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Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Dia do doente com AVC
 
  

Hoje comemora-se o Dia do Doente AVC, ou seja, daqueles que sofreram um Acidente Vascular Cerebral.

Esta é a primeira causa de morte em Portugal e enganam-se os que pensam que apenas ataca as pessoas mais idosas. Cada vez mais cedo, muitas vezes fulminante, outras deixando sequelas graves, é uma doença que obriga a uma mudança radical na vida do doente e da família.

Após ter sofrido um AVC aos 49 anos, e quando o pude fisicamente fazer, interessei-me a fundo sobre o assunto.

Apercebi-me do quanto era importante existir uma associação que apoiasse as pessoas que, de um momento para o outro, sentem no corpo e no espírito profundas mutações. Quanto aos familiares, o esforço exigido é enorme e a resposta para tantas e tantas perguntas seria muito bem-vinda. Somos o único país na Europa que não tem uma Associação deste tipo.

Tentei fundar uma como um grupo de pessoas, está registada com o nome de ADFE, mas nunca conseguimos pô-la a funcionar. Porquê? Porque para tal era necessário o suporte financeiro que não disponho.

Foi antes da crise. E a crise, essa, já está a fulminar mais pessoas com AVC porque está provado que uma das principais causas é o stress.

Quando há cinco anos numa cama do hospital percebi que não conseguia ler nem escrever, o meu mundo ruiu.

Ultrapassei essas sequelas mas fiquei com outras das quais não falo nunca. Para quê? O pior passou para mim. Mas o medo fica!

 

in Destak31 | 03 | 2009


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publicado por Luísa Castel-Branco às 13:25
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