Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010
Segredos de noites e dias assombrados

 

 

Só me sinto verdadeiramente livre quando escrevo. São os momentos mais próximos da felicidade, da entrega total e simultaneamente deixo de ter corpo, peso, circunstancia. Quando as vozes chegam e me segredam ao ouvido, me enchem a alma de mensagens e o coração de urgência em fugir qualquer lado onde possa estar só e dar corpo às palavras que flutuam dentro de mim como nuvens de açúcar, é nesses momentos que eu sou eu, o então que a outra que eu não fui encarna em mim.

Não estudei a forma certa de escrever um romance, mas li muitos livros com ensinamentos e não segui nenhum.

Por isso a minha eterna gratidão à Rosinha Lobato Faria porque me ensinou a aceitar estes fantasmas vestidos de palavras e dar-lhes voz, ou melhor deixá-los escrever por mim, porque na verdade as minhas mãos dançam no teclado do computador musicas que desconheço, melodias que nunca ouvi.

E quando escrevo, não falo sobre mim, ou quiçá, as vozes vestem-me com a cor do meu próprio nevoeiro.

Não sei explicar nada. Não procuro mais explicações e apenas espero com ansiedade que elas cheguem de mansinho ou num rompante que me ergue da cama pela madrugada adentro.

 



publicado por Luísa Castel-Branco às 17:17
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...

 

    

 

Eh pá! Então? Fume uma passa que isso passa ( a sua filha há-de conhecer um coleguinha mais malandreco ). Bem, até pode piorar mas se não piorar melhora com certeza . Nesse caso, bote um jazzinho ou música brasileira das antigas ou Cesária Évora ou qualquer coisa swingada , uma touca a tapar os rolos e mude a casa toda. Pode bebericar uns uísquezinhos pra pontuar intervalos nas arrumações. Seja "une vielle dame indigne" por uma tarde. Importante - as tarefas domésticas devem ser efectuadas como quem dança.
 
Publico todos os comentários que recebo, mesmo que sejam criticas ao meu trabalho ou mesmo a mim.
Mas não quero deixar de dar destaque a este comentário.
A razão é simples. Não me admirei nem me surpreendi com estas palavras  que não chegam a ser maldosas ,direi antes que são um sinonimo de inveja.
Inveja de quê é o que pergunto a mim mesma. Mas tenho que admirar alguém que se deu ao trabalho, ainda que a coberto do anonimato, de escrever este texto.
Entristece-me a malidicência. Considero-a uma forma indigna de viver. Mas por cada um dos comentários que aqui publico de parabéns pelo meu trabalho, e que são sempre uma afago para o meu coração, sei que anda por ai muito boa gente a pensar o que a pessoa que escreveu este texto também pensa.
Tenho pena e nada mais.
 




publicado por Luísa Castel-Branco às 16:50
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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
As horas que não passam

 

As horas passam como gotas de chuva a escorrem na vidraça da janela.

Eu sentada a olhar para o vazio, que há muito que perdi a rua, os carros e tudo.

A noite apareceu de repente e eu não dei por isso. Só a luz amarela dos candeeiros da rua: um, dois, três, derramada sobre o sofá, a carpete e a escorrer pelo chão de madeira.

O silêncio comeu tudo. Este silêncio pesado que abraçou a minha vida como se do fantasma da morte se tratasse. Entrou devagarinho, sorrateiramente pela calada da noite e depois foi-se deixando estar, cada dia um pouco mais até ocupar toda a casa, até ocupar todo o meu corpo.

Não quero olhar para as fotografias que teimosamente ainda não consegui retirar da sala e me mostram outra que já não sou a rir, de braços abertos para a vida, coração leve e desbragado.

Não quero mexer-me. Sei que se esperar mais um pouco vou deixar também de respirar. Sem esforço. Sem que me doa sequer.

O telefone que não toca. A campainha da porta que não se ouve e a luz amarela dos candeeiros que parece brincar com os desenhos do tapete.

Havia um gato preto, gordo, que aparecia na minha minúscula varanda. Ainda lhe dei de comer, tentei afagá-lo mas eriçou o pêlo e esquivou-se. Um dia deixou de aparecer. Tenho a certeza de que o silêncio lhe pesou tanto quanto me pesava a mim no início, quando o meu corpo ainda teimava em mexer-se.

Agora, o verdadeiramente difícil é mover um só músculo. Verter uma última lágrima.

Se ficar aqui até ao fim, quem sentirá a minha falta?

Não tu, seguramente, não tu


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publicado por Luísa Castel-Branco às 13:00
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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
Rosinha

Eu e a Rosa, como viemos a descobrir, tínhamos muitas coisas em comum.

A enorme diferença entre mim e esta querida amiga que hoje faleceu, é contudo gigante.

Rosa Lobato Faria era uma escritora de renome, uma letrista de renome, uma actriz reconhecida. Estou longe de ter as suas qualificações.

Mas, quando a conheci pessoalmente e conforme o tempo foi passando, descobri as nossas semelhanças.

Tal como eu, a Rosa era tida como arrogante. E tal como eu era sempre vista como alguém que vivia e tinha vivido sempre muito bem na vida, com um olhar conservador sobre o mundo.

E nada podia estar mais errado do que pensar isto desta “mulher coragem”!

A Rosa que disse claramente em entrevistas que andou a vender enciclopédias de porta em porta para ganhar dinheiro para poder sustentar os filhos. A querida Rosinha que era dos seres humanos mais revoltados contra a injustiça e mais intervenientes que alguma vez conheci.

A imagem que passava dela, a imagem que o publico recebia como verdadeira não era forçada, nem desejada.

E a Rosinha nunca se coibiu de dizer isso mesmo. De ser o mais politicamente incorrecta que se pode imaginar e abraçava a vida com uma energia que nunca consegui compreender onde a ia buscar.

Revi-me nela porque a imagem que muita gente tem de mim é em tudo igual, e em tudo igualmente errada.

A Rosinha ia apresentar o meu próximo livro, aquele que ainda estou no inicio. Porque a admirava do fundo do coração e a respeitava da mesma forma, mas principalmente porque ela tivera a amabilidade de gostar da minha escrita.

Que estupidez que acabei de escrever! A Rosa Lobato Faria era pessoa para se calar com alguma delicadeza, embora o seu rosto denunciasse o que lhe ia na alma, mas não era pessoa para ser amável na apreciação de um livro!

Ah! Que enormes saudades que vou ter desta grande mulher! E como me parece tão natural que ela tenha partido tão pouco tempo, não sei quanto mas talvez menos de um ano, após a partida do marido, o seu grande amor e um dos homens mais fascinantes que alguma vez conheci!

A Rosinha foi amada tão profundamente! Mas era essa a forma que também ela tinha de amar.

Até amanhã minha amiga.

 



publicado por Luísa Castel-Branco às 17:59
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Uma nação adormecida

 


Existem verdadeiros heróis por esse Portugal fora. Silenciosamente, tentam sobreviver a uma realidade que os apanhou desprevenidos. Famílias inteiras no desemprego. Uma boa parte da classe média que ao longo da história foi a espinha dorsal da nossa sociedade desapareceu pura e simplesmente.

Dizia-me um casal de alemães, turistas de passagem por Lisboa e Cascais, o quanto estavam surpreendidos pelos automóveis que viam, de grande qualidade e preço elevado.

Por cá esse espanto é partilhado por muita gente. Mas cada dia a capacidade em nos surpreendermos desaparece um pouco mais. Tal como a capacidade de indignação, perante um país que se assemelha a um edifício a ruir, totalmente degradado.

E os políticos, os comentadores que na televisão ou na rádio falam sobre o orçamento do estado, ou o estado da justiça, ou seja o que for, parecem não perceber que o cidadão comum não os entende nem lhe interessa para nada o que dizem.

Os ditos heróis silenciosos preocupam-se sim onde irão buscar dinheiro para as prestações, para as despesas com os filhos, onde encontrar emprego.

E mesmo quem nunca gostou de fado, começa a duvidar se o nosso fado/destino enquanto nação não é apenas isto. Sem expectativas ou direito a sonhar.

Espectadores cansados do futuro TGV, do senhor ministro das finanças que por acaso se enganou, enfim, tudo é possível.

in Destak 02 | 02 | 2010 

 


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publicado por Luísa Castel-Branco às 17:41
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