Terça-feira, 20 de Julho de 2010
Adeus

 

  

Despedi-me de ti para sempre, ainda que vá estar contigo esta semana, e na próxima, e nas que se seguirem.

Despedi-me de ti sem uma palavra, pelo contrário, trocámos conversa de circunstância, ou melhor, tu deste o tom, como sempre fazes, a comandar tudo e todos.

Despedi-me de ti e, de repente, foi como se a teu lado estivesse a outra que um dia fui, coisa pequena com onze anos, aquela a quem roubaste a infância, a juventude e tudo o mais.

Não estiveste sozinha na tarefa, é bem verdade. E nada teria acontecido se eu tivesse tido a inteligência, a força, o que queiras chamar, de não ter passado toda a minha vida tentando que me amasses, tu e os outros. Que me aceitasses, tentando descortinar nos teus olhos o amor que me era devido.

Enganei-me a mim estes anos todos, e agora que te digo adeus rezo para que o peso da tristeza, este buraco cravado no meu coração, desapareça de vez.
Já vivi mais de metade da minha vida em busca do que não existia, como uma cadela sem dono, só com três pernas, e que ninguém quer.

Digo em silêncio que tudo vai correr bem, tudo vai passar. Mas a dor é igual à que sempre foi e nunca me habituarei à desilusão, à constatação que, afinal, existem coisas que não são sagradas, a vida pode, pura e simplesmente, ser-nos cruel sem razão.

Talvez um dia eu te consiga desculpar, ou melhor, compreender. Mas por essa altura já deverei ter perdido a noção do real, porque, quando chegar ao fim da vida, a percepção do que realmente aconteceu e do que sonhei deverá ser tão difusa como as lágrimas que agora choro, pelos cantos da casa, pelos quantos da vida.

in Destak 19 | 07 | 2010  



publicado por Luísa Castel-Branco às 17:02
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Terça-feira, 6 de Julho de 2010
Um outro amor de mãe

Queria tanto abraçá-la, aninhá-la no seu colo como quando era criança e lamber-lhe o rosto com beijos molhados, beijos que escondiam lágrimas, que fingiam que a tristeza não estava ali.

Ou então, bastava-lhe que ela se sentasse e conversasse uns minutos apenas, o suficiente para sentir que fazia parte da sua vida, daquela menina que continuava a ser para o seu coração de mãe. Os filhos nunca crescem. Nunca são adultos suficientes que não necessitem do amor incondicional de uma mãe.
Mas não sabia que fazer perante aquele silêncio, um silêncio que nascera com ela e que ela mantinha como se de um muro se tratasse, um muro alto e impenetrável.

Claro que sabia o quanto ela a amava. Mas não era suficiente, não era nada do que sonhara, quando nascera tivera finalmente uma rapariga e vira a vida toda na sua frente. As duas de mãos dadas, as duas a discordarem em muito mas sempre as duas como se fossem só uma.

A realidade, como sempre, trouxera outras vidas à vida. Sentia-se tão isolada da vida daquela que era uma parte do seu corpo, como se fosse uma estrangeira em demanda de algo que não sabe sequer o que é.

Mas ela sabia exactamente o que procurava. Um pouco de intimidade, um pedaço de partilha de esperanças e tristezas, o seu ombro vazio porque ela não o escolhia para se encostar, na felicidade como na tristeza.

O amor de mãe também é isto. Anularmo-nos, desaparecermos como uma névoa e só falarmos quando for indispensável. Com cuidado.
Ninguém disse que ia ser fácil.

in Destak 05 | 07 | 2010 

 



publicado por Luísa Castel-Branco às 14:09
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