Terça-feira, 13 de Maio de 2008
Os Domingos

O pior de tudo era mesmo os domingos. Não sabia explicar porquê, mas ao sábado ainda conseguia passar o dia ocupada, eram as compras da semana, um filme na televisão, enfim, não custava tanto.

Mas os domingos eram terríveis. A solidão doía mais. Ia ao café e por todo o lado famílias, crianças a correrem, namorados de mão dada. E ela tentava preencher o dia. Tentava limpar a casa já limpa, sentar-se em frente ao televisor, ler um livro, mas nada resultava. Da rua chegavam até à sua janela risos e conversas. Portas que abriam e fechavam, um corrupio que só acalmava com a noite, menos no Verão, que as gentes ficavam por ali, na cavaqueira, sem pressas. Acordava à mesma hora de todos os dias, como se fosse trabalhar.

Mas não. Não havia trabalho, o telefone não tocava nunca e o dia escorria mais devagar que o pingar de uma torneira. Lembrava-se então de outros domingos. Quando ela e o marido saíam para passear, ele a ler o jornal na esplanada e ela uma revista. Ela a cozinhar para ele, ele sempre tinha gostado da sua comida: «Tens dedo para a cozinha, Manuela, sim senhor!» Ele que gostava pouco de conversar, ainda menos de saídas nocturnas e sentia-se bem em casa, naquele lar confortável.

E hoje, que era domingo, o sol aquecera a cidade de repente e na rua os carros enchiam-se de famílias a debandarem para as praias, a ela só lhe vinha à cabeça o quanto ele detestava o calor, a praia e as enchentes e ela, em mais de vinte anos não se recordava de ter pisado a areia uma vez. E agora, que havia sempre gente boa com informações frescas para lhe depositar no colo, agora ele gostava de praia, e até de sair à noite.

E, mesmo tendo já passado dois anos desde o dia em que ela chegara a casa e antes de despir o casaco ele dissera com uma voz tão normal: «Manuela eu vou-me embora» e ela com o casaco meio a cair e ele já porta fora, ela continuava sem perceber. Apenas tinha uma certeza: Os domingos eram o pior.

 

in Destak 13.05



publicado por Luísa Castel-Branco às 10:08
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3 comentários:
De a 13 de Maio de 2008 às 11:59
É sempre nos momentos de maior solidão, que as más recordações vêm todas à memória... e que sabor amargo que trazem...


De Analu a 16 de Maio de 2008 às 09:57
É incrivel como este texto traduz a realidade de muitas pessoas hoje em dia. Eu estou separada há 1 ano e confesso que os domingos tornaram-se atrozes de suportar. Tão triste pensar que de repente, a felicidade dos outros passou a incomodar-nos.
Bem haja minha querida Luísa e parabéns pelo blog que é excepcional!


De paula_tavares a 16 de Maio de 2008 às 11:05
Como me identifico com a personagem!... Só com a diferença de que, quem saíu fui eu...
E o que nos parecia rotina e falta de amor, hoje parece-nos algo totalmente diferente, por isso aconselho a que antes de "sair", veja os contra... eu só vi os prós e hoje sinto falta da companhia, do aconchego, da ternura, da própria rotina...tb já lá vão dois anos...


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