Quinta-feira, 5 de Junho de 2008
Pai, que saudades!

Ontem meti férias. Sentia-me exausta e ao mesmo tempo leve, de uma forma que não conhecia há muito.

"Alma e os Mistérios da Vida" . Na noite anterior, por incrível que possa parecer, após tanto tempo à beira de um ataque de nervos, senti-me estranhamente calma no lançado do meu livro.

Mas, sabia estar rodeada de pessoa de quem gosto, a quem respeito. Pessoas que convidei exactamente por estas razões e por mais nenhumas.

Quando a apresentação terminou, ALMA voou e partiu. Senti-o tão nitidamente como se ela tivesse uma presença física e não apenas personagem de um romance.

Ontem, quando dei um dia de férias a mim mesma, o pensamento soltou-se e vagueou, numa espécie de sonolência bendita.

E, de repente dei comigo, vi-me tão claramente como se estivesse a acontecer ou fosse um filme a rodar na frente dos meus olhos.

A manhã tinha acordado há poucas horas. Estou no Seminário de Alfragide e velei o corpo do meu pai a noite toda, sem conseguir aproximar-me do caixão, fiquei cá fora, sentada na ante sala, como uma ladra que foi apanhada e aguarda julgamento.

Sei que sai a porta e estava sozinha cá fora, a imensidão do espaço a perder de vista. Alfragide ainda é quase província, não a dos meus treze anos, mas não há hiper-mercado, nem habitações até perder de vista.

Estou sozinha. Não há vento e o calor anuncia um dia de canícula. O azul do céu é estupidamente limpo, claro.

De repente, vinda de lado nenhum uma ave passa rasando o meu corpo. Coisa pequena, levanta voo e sobe, sobe até eu a perder de vista, engolida pelo azul do céu e um lugar infinito que eu já não abranjo.

-A Alma do meu pai levantou voou e partiu.

Foi isso que senti e ali, naquele momento despedi-me dele para sempre, não que eu não soubesse já que ele viveria comigo dia após dia, como uma sombra ou um nó na garganta que não desaparece.

E ontem, quando estava a olhar o azul e a usufruir do silêncio, voltei aquele local, aquele preciso momento.

E chorei de saudade.Chorei de pena que ele aqui não estivesse para pegar no meu primeiro romance e olhar para mim, com aqueles olhos frios e ao mesmo tempo tímidos, seco de gestos e palavras.Como eu o queria aqui!

O meu pai morreu com 51 anos, O que é de todo imperdoável. Nunca lhe disse o quanto o amava, porque eu era uma mulher casada e mãe de três filhos mas tão estúpida, tão incrivelmente imatura!

Por causa do que nunca lhe disse, por esse sentimento que nunca me abandonou, o resto da vida eu tomei como obrigação minha não guardar para amanhã o que tenho que dizer a quem amo.

Porque pior que errar é a ausência das palavras, é o remorso do que se não se disse e não se fez.

Ah! Estou a escrever e choro novamente.

O amor não morre e a saudade também não.

Para ti meu Pai, onde quer que estejas, eu te envio a minha "Alma e os Mistérios da Vida".

Com eterna saudade e eterno amor.



publicado por Luísa Castel-Branco às 08:38
link do post | comentar

25 comentários:
De Madalena Munõz a 5 de Junho de 2008 às 15:09
querida mestra, como sabe nem sempre tenho tempo para ler tudo o que aqui deposita; hoje li este, para saber do seu estado de espírito e achei graça à coincidênciA: A alma do meu pai partiu exactamante do mesmo lugar, em Fevereiro passado. Um beijinho da Rita


De Luísa Castel-Branco a 9 de Junho de 2008 às 10:09
Não sei quem me pode chamar Mestra, que tal não sou.
Mas espero que encontre dentro de si a força para aceitar a saudade e aprender a viver com ela. Coisa mesmo muito difícil minha amiga.


De a 5 de Junho de 2008 às 16:29
Não tenho palavras...o meu pai, também faleceu em Junho...


De Luísa Castel-Branco a 9 de Junho de 2008 às 10:11
Fá,
Tal com escrevi no comentário anterior, a vida ensinou-me que a saudade de quem amamos e parte desta vida, se mantém dentro de nós como se fosse uma parte do nosso corpo.
Espero que a sua saudade seja doce, que a viva em paz!


De fernanda a 5 de Junho de 2008 às 18:12
Como entendo o que sente em relação à saudade que tem do seu pai, e o arrependimento de não ter dito na hora certa as palavras mágicas. Ninguém devia morrer aos 51 anos, ou aos 53 como o meu pai, mas também eu não soube dizer as palavras mágicas e ainda hoje, 27 anos depois, me doi o facto de o não ter feito,e, se o tempo pudesse voltar atrás, dir-lhas-ia vezes sem conta, até à exaustão.
Assisti hoje á sua presença nas "Tardes da Julia" e assim que me for oportuno vou comprar o seu livro, uma vez que sou viciada em leitura.
Parabéns e que este seja o primeiro de muitos outros livros.


De Luísa Castel-Branco a 9 de Junho de 2008 às 10:18
Fernanda,
Sei exactamente o que sente, sobre o que não dissemos enquanto tínhamos tempo. A minha Fé é fraca mas acredito que existe algo superior a nós, algo que criou as pequenas e grandes maravilhas do universo. E muitas vezes, ao longo dos anos, senti a presença do meu pai, ele sim um profissional da escrita. Pode parecer estúpido , mas não me importo. A verdade é que quando me sento ao computador, e há muitos anos atrás á maquina de escrever, sentia-o a respirar no meu ombro. Ele, que nunca chegou a ler uma palavra publicada por mim. Quanto ao meu livro, por favor dê-me a sua opinião. É bom saber que nos lêem e saber o que cada pessoa sente, porque cada um absorve de forma diferente a história.


De Fernanda a 9 de Junho de 2008 às 16:10
Obrigada pela rua resposta, mas por incrível que pareça, embora noutra área das artes, o meu pai que cantava lindamente, desde os cantares alentejanos, até ao fado, nunca me ouviu cantar em público, uma vez que quando eu resolvi perder o medo e decidi começar a cantar fado, o pai já tinha partido, e ele que entre outros hobbies , fazia teatro, quando lhe pedi para me deixar entrar para o grupo de teatro amador a que pertencia disse-me que teatro não era para a filha dele.
Quanto ao seu livro, tenha a certeza que assim que o ler, lhe deixo a minha opinião.


De mariana a 5 de Junho de 2008 às 22:04
Adorei as suas palavras e fez-me repensar muita coisa, nas palavras não ditas que todos os dias receamos dizer por qualquer motivo, vergonha ou simplesmente porque achamos que não é necessário, por pensarmos que a pessoa sabe o que pensamos ou que sentimos por ela, mas é ralmente um erro e não nos devemos de cansar de quando amamos alguém, seja pai, mãe, filho, amiga, enfim, esbanjarmos os nossos sentimentos é um dever e concerteza nos sentiremos melhor por o ter feito e assim nunca nos arrependermos do que não dissemos....Os meus pais ainda são vivos e ler as suas palavras, fizeram-me pegar no telefone e dizer-lhes o quanto os amava e senti-me bem por fazê-lo, beijos com a mizade e admiração.
PS-Tou desejosa de ler o seu romance, prometo lê-lo e vir aqui dizer o que achei....


De Paulo Freixinho a 6 de Junho de 2008 às 01:12
Boa noite!
Chamo-me Paulo Freixinho, sou autor de Palavras Cruzadas e vinha aqui desafiá-la para um projecto que tenho em mente.
No entanto fiquei comovido com este post...
Sou pai de duas filhas e penso muitas vezes como seria triste para elas se eu partisse demasiado cedo... pensamento estranho este, mas penso...

Felicidades para si e sucesso para o seu livro!

Voltarei aqui noutra altura para lançar-lhe o tal desafio.

Cumprimentos,
Paulo Freixinho


De M.Luísa Adães a 8 de Junho de 2008 às 18:37
Pai; alma e os mistérios da vida

Nostálgica e branda a sua saudade; nada posso dizer, pois a senhora disse tudo - o seu lado e o meu!
Mas não passa e as cenas repetem-se aos nossos olhos, apesar de os anos passarem correndo, voando... continuamos a ver "os da nossa imensa saudade"! E eles não voltam... Nós voltamos para eles... Um Dia!

Com amizade,

Maria Luísa Adães

Blogs: prosa-poetica.blogs.sapo.pt


De Luísa Castel-Branco a 9 de Junho de 2008 às 10:40
Na verdade, nós voltamos a eles ciclicamente. Ás vezes são pequenas coisas que nos levam no tempo, nos arrastam até aos que amámos e partiram: um perfume, o toque num tecido, sei lá, coisas sem importância mas que nos devolvem momentos preciosos.
Não é por acaso que inventámos a palavra Saudade. Fado, destino, não sei, mas nenhum povo criou uma palavra para este sentimento de falta mas ao mesmo tempo, de presença constante de quem partiu.


De M.Luísa Adães a 9 de Junho de 2008 às 13:19
Não sei defenir como voltamos para eles, talvez seja complexo falar no assunto...Mas voltamos! Isso eu sinto e também sei, dentro das minhas certezas - só minhas!
Cada um sabe a seu modo! E esse saber, dá a aceitação para a ausência... E a espera!
Este sentir de falta e de presença não tem nome; vem da sensibilidade de cada um e das suas próprias certezas! Não é transmissível!

Com saudade,

Maria Luísa


De Ana Vinagre a 13 de Junho de 2008 às 12:25
Cara Luísa,

sou uma jovem com 26 anos e escrevo-lhe, como quem partilha as suas palavras com uma amiga, que não se conhece, mas com quem se identifica. Costumo dizer que sou uma menina-mulher, com tudo de bom e de mau que esse conceito encerra, uma menina-mulher que sente demasiado e se deixa encantar pelas pequenas coisas da vida.
Antigamente, quando a via na televisão, pensava "que mulher é esta? Parece tão arrogante... Mas os olhos dela mostram que não o é... " Mas nunca tive oportunidade de a ver num registo diferente, onde fosse exactamente como creio hoje que é. Acabei de a ver no programa "você na tv", e chorei. Chorei por vê-la chorar, chorei porque vi nos seus olhos um pedaço do que também eu tenho nos meus. Uma combinação muito bonita de emoções, uma mistura de "vontade de viver" e de "alma". É uma pessoa bonita, Luísa (permita-me que a trate assim).
Ainda não li o seu livro, mas irei lê-lo em breve. E tenho absoluta certeza de que o irei ler rapidamente, porque estou ansiosa por fazê-lo, porque sei que vou chorar e rir ao mesmo tempo, como estou a fazer agora. Porque sei que as suas palavras também serão as minhas, no instante em que as estiver a ler, porque sei que ao lê-las vou pensar que também eu as poderia ter escrito, de tão profundamente que as sinto.
Ao ler o comentário que colocou aqui no blog, relembrei-me das minhas histórias, das inúmeras vezes que digo às pessoas que as amo, tenho essa necessidade. Às vezes, as pessoas agradecem-me por dizê-lo... Eu respondo que não devem agradecer-me, porque eu tenho, mais do que vontade, a necessidade de o fazer, para ser feliz. E essa necessidade, apesar de sempre ter morado em mim, tornou-se mais presente depois de ter perdido dois grandes pilares na minha vida, os meus avós. Permita-me que lhe conte uma das histórias, de forma resumida.
Vivi com os meus avós, desde tenra idade, devido à intensa vida profissional dos meus pais. O meu avô, perdi-o quando tinha apenas oito anos, de forma súbita, depois de me ter levado à escola. Relembro os seus sorrisos, os rebuçados de fruta que me trazia escondidos no casaco, para me oferecer, a paciência de me ouvir, depois de chegar tarde e cansado a casa, os inúmeros ensinamentos que me deu... Com oito anos, relembro-me de permanecer ao lado do seu caixão, a olhá-lo e a ouvir as pessoas dizer "é novinha, não tem noção do que isto significa, vai passar-lhe rápido...". E eu pensava no quanto se enganavam (já nessa altura possuía uma lucidez invulgar em alguém daquela idade). Sabia que aquele momento iria marcar-me para toda a vida. Descobri o meu avô, mais tarde, através dos livros que leu, das cartas que escreveu, dos muitos amigos que teve. O meu avô, doce Luísa, era um homem do campo, que deixou de estudar, depois de completar a quarta classe, para ajudar os pais, mas tinha tanta sede de conhecimento, que devorava livros, aprendia com eles e com as pessoas que o rodeavam, de tal forma que, toda a gente o admirava. Diziam-me que ele era daqueles homens carismáticos, sábios, que sabem falar sobre tudo, sempre com grande paixão, envolvimento e sabedoria. O meu avô iluminava as pessoas com o seu sorriso e só não dava o que não podia. Descobri, através de tudo o que ele deixou, que tenho muito dele, apesar de nunca ter tido o prazer de falar com ele sobre esses temas, apesar de nunca ter ido ao teatro, ao cinema, com ele. Descobri que ele era a pessoa perfeita para partilhar todos esses momentos... E descobri que, de facto, ele me deu tanto naqueles oito anos, e que somos tão parecidos... Contudo, não tive "tempo" para me despedir dele, nem dizer-lhe que o amava. Apesar disso, faço questão de o manter vivo, falando sobre ele, a quem esteja disposto a ler-me ou ouvir-me. A admiração e amor que sinto por ele, manifesta-se nas lágrimas que me rolam pela face neste momento, e na vontade que tive de o partilhar consigo. Esses e outros sentimentos, estão marcados na minha alma. Tenho muitos outros, que poderei partilhar consigo, caso me dê essa oportunidade, caso tenha também vontade de me ler.
O seu livro, depois de o ler, irei guardá-lo no coração... Agradeço-lhe pelo tempo que lhe roubei e pela sua "alma".

Um beijinho, de uma menina-mulher do Alentejo.

ps- Irei escrever-lhe novamente, depois de ler o livro.


De josgar a 13 de Junho de 2008 às 15:22
A saudade de alguém que partiu e deixou a saudade em seu lugar...
Dor é quando o nosso amor acaba ,ou por infelicidade da vida parte.
As palavras da Luísa, deixam por vezes um sabor amargo, talvez porque ainda acredito nos sentimentos mais valiosos e verdadeiros do ser humano.
Obrigado pela tua determinação.
Um ribatejano admirador do canal de noticias de Lisboa.


De Telma Proênça a 13 de Junho de 2008 às 20:03
Luìsa Castel Branco, Permita-me que a trate assim, pois é como se a conhecesse há imenso tempo. Depois de a ver na tvi a dar-nos a conhecer o seu livro Alma fiquei curiosa. Curiosa com o tìtulo, curiosa em ler o mesmo. Estou ansiosa em ler o mesmo, pois gosto muito de ler e principalmente de ler o que se escreve com Alma e penso que será o seu caso. Curiosa "espreitei" o seu blog e eis-me aqui. Li a sua divagação pelo passado e fiquei feliz por ter desde sempre aberto a minha Alma para os meus e ainda mais por saber que a minha filha me segue o exemplo e também ela abrir a sua Alma para os pais e dizer-nos com o Coração o que lhe vai na Alma. Ensinei sempre à minha filha que devemos olhar as pessoas nos olhos e dizer o que pensamos com sentimento, com Alma. E com todo o Amor que eu criei a minha filha ela diz-me quase todos os dias Mamy , eu amo-te muito", isto olhos nos olhos. Para mim é o retorno de todo o Amor que eu lhe dei/dou ao longo dos anos e também eu lhe retribuo esse mesmo Amor. "Eu também te amo muito pintinha". Penso que se todos nós abrirmos o Coração e dizermos o que nos vai na Alma, seremos muito mais felizes. Ainda que a outra pessoa não retribua de imediato esse Amor, esse Carinho, há que Amar sem esperar algo em troca. Amar os outros é Amar-nos a nós mesmos. Termino com um beijo de parabéns por ser quem é e como é. Parabéns Luìsa


De isabel millet a 13 de Junho de 2008 às 21:24
Querida Luísa, acabei de ler o seu texto e mais uma vez senti uma enorme afinidade consigo. Digo mais uma vez, porque hoje mesmo assisti à sua entrevista no programa do Manuel Luís Goucha e fiquei impressionada com o que disse, fiquei emocionada, porque também escrevo e sinto a escrita exactamente assim, à medida que a Luísa falava eu ia-me revendo naquilo que dizia. Eu também escrevo por instinto. Simplesmente começo a escrever. Não faço um plano prévio, nunca aprendi regras. Simplesmente um dia, repentinamente, comecei a escrever. As personagens estavam dentro de mim, e obrigavam-me, imperiosamente, a libertá-las no papel. Eu nem sequer sabia o que ia acontecer-lhes a seguir, eram elas que me comandavam e não o contrário. E era uma obsessão, uma paixão enorme que chegava a torturar-me. Também desistia muitas vezes. Da primeira vez, durante muito tempo. Foi ao arrumar a gaveta que voltei a encontrar o texto e recomecei a escrevê-lo. Havia sempre em mim uma enorme insegurança e perguntava-me: será que isto é uma valente porcaria, será que é assim que se escreve, será que estou a perder horas e horas preciosas do meu tempo de vida a fazer uma coisa que não vale nada? E era uma angústia terrível. Mesmo assim não dei os meus escritos a ler a ninguém, porque o que eu escrevia era qualquer coisa de muito íntimo. Escrever para mim é como um abismo, é como se estivesse a aproximar-me cada vez mais de um abismo, e soubesse disso, e mesmo assim não conseguisse parar de caminhar. Mas acho que tem de ser assim, senão não vale a pena. E acho, agora, que aquilo que escrevemos por uma necessidade imperiosa, quando está ali a nossa paixão e o nosso sangue, só pode ser valioso, e é por isso, com certeza, que as pessoas não conseguem parar de ler o seu livro. É a sua paixão que as agarra, penso eu. E digo isto porque ainda não o li, mas vou lê-lo já, rapidamente, e depois volto para lhe dizer o que senti.Também lhe queria dizer que já publiquei um outro romance, que se chama "O Cão na Casa Verde", e se passa na casa onde nasci, que pertenceu à grande violoncelista Guilhermina Suggia , que foi professora e grande amiga da minha mãe. A partir daí o romance é uma efabulação, mas baseia-se em personagens que existiram e fizeram parte da minha infância. Alguns episódios são verdadeiros, mas surgem num contexto diferente, ou deformados. Só a casa permanece perfeitamente intacta na história.
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Querida Luísa, acabei de ler o seu texto e mais uma vez senti uma enorme afinidade consigo. Digo mais uma vez, porque hoje mesmo assisti à sua entrevista no programa do Manuel Luís Goucha e fiquei impressionada com o que disse, fiquei emocionada, porque também escrevo e sinto a escrita exactamente assim, à medida que a Luísa falava eu ia-me revendo naquilo que dizia. Eu também escrevo por instinto. Simplesmente começo a escrever. Não faço um plano prévio, nunca aprendi regras. Simplesmente um dia, repentinamente, comecei a escrever. As personagens estavam dentro de mim, e obrigavam-me, imperiosamente, a libertá-las no papel. Eu nem sequer sabia o que ia acontecer-lhes a seguir, eram elas que me comandavam e não o contrário. E era uma obsessão, uma paixão enorme que chegava a torturar-me. Também desistia muitas vezes. Da primeira vez, durante muito tempo. Foi ao arrumar a gaveta que voltei a encontrar o texto e recomecei a escrevê-lo. Havia sempre em mim uma enorme insegurança e perguntava-me: será que isto é uma valente porcaria, será que é assim que se escreve, será que estou a perder horas e horas preciosas do meu tempo de vida a fazer uma coisa que não vale nada? E era uma angústia terrível. Mesmo assim não dei os meus escritos a ler a ninguém, porque o que eu escrevia era qualquer coisa de muito íntimo. Escrever para mim é como um abismo, é como se estivesse a aproximar-me cada vez mais de um abismo, e soubesse disso, e mesmo assim não conseguisse parar de caminhar. Mas acho que tem de ser assim, senão não vale a pena. E acho, agora, que aquilo que escrevemos por uma necessidade imperiosa, quando está ali a nossa paixão e o nosso sangue, só pode ser valioso, e é por isso, com certeza, que as pessoas não conseguem parar de ler o seu livro. É a sua paixão que as agarra, penso eu. E digo isto porque ainda não o li, mas vou lê-lo já, rapidamente, e depois volto para lhe dizer o que senti.Também lhe queria dizer que já publiquei um outro romance, que se chama "O Cão na Casa Verde", e se passa na casa onde nasci, que pertenceu à grande violoncelista Guilhermina Suggia , que foi professora e grande amiga da minha mãe. A partir daí o romance é uma efabulação, mas baseia-se em personagens que existiram e fizeram parte da minha infância. Alguns episódios são verdadeiros, mas surgem num contexto diferente, ou deformados. Só a casa permanece perfeitamente intacta na história. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Tmbém</A> falo do ponto de vista das "criadas". As "Marias" como dizia a Luísa no programa, essas figuras transparentes que eram abusadas de todas as formas. Aliás tudo o que se passa é visto através dos olhos de uma criança, transparente, a filha da cozinheira. <BR>Gostaria muito de lhe oferecer o meu livro, porque pressinto que o vai entender tão bem. Só que não sei para onde o enviar. Talvez para a TVI? Queria muito que lhe chegasse às mãos. Também chorei quando li o seu texto. Sinto assim em relação às minhas tias que morreram há pouco tempo. Fica tanta coisa por dizer. Porque é que nos fechamos e não dizemos realmente o que sentimos? Acho que é por pudor, um pudor ridículo de mostrarmos o nosso amor. <BR>
Aqui vai uma coisa que escrevi para a minha tia quando vinha para Lisboa no comboio, nunca mostrei isto a ninguém, não passam de rabiscos num envelope velho: <BR>
"Ainda agora me sentava àquela mesa, e ela na minha frente, e eu lia-lhe o que escrevia, ao fim de semana lia-lhe o que tinha escrito durante a semana e ela gostava; comprazia-se naquela leitura, admirava os meus escritos, e exaltava-os, e o meu ego exaltava-se, e ia lá só para lhe ler os meus escritos. Não para a ver, mas para lhe ler os meus escritos. <BR>E agora a casa está vazia, cheia de poeira, de silêncios, de fantasmas, e as coisas que se amontoam nas salas enormes, agrupando-se como montanhas, vão-se escoando, subdividindo, sumindo-se entre as mãos de quem por ali anda, concorrendo com as almas penadas. <BR>No quarto ficou um odor de perfumes velhos e pó de arroz estragado. <BR>Já não tenho a quem ler os meus livros. <BR>Mas venho vê-la, agora que se esfumou com as coisas, e desapareço com as coisas desaparecidas." <BR>Esqueci-me de dizer que tenho 55 anos e me chamo Isabel Millet.


Comentar post

.links
.pesquisar neste blog
 
.mais sobre mim
.tags

. todas as tags

.arquivos

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Setembro 2012

. Maio 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Fevereiro 2007

. Dezembro 2006

. Setembro 2006

blogs SAPO
.subscrever feeds