Terça-feira, 8 de Julho de 2008
Como custa ser diferente
 
 

Há pessoas que nascem assim, como se tivessem um buraco na alma, uma peça que falta no seu corpo.

Algo que não se vê e só se sente, e caminham uma vida inteira assim, diferente dos outros sem que se perceba.
É uma tristeza, uma não pertença a lado nenhum, como se estivéssemos a viver a vida errada, ou a olhar para nós mesmos sem nos reconhecermos. É um mal-estar que dói e nos aperta o peito. É sentir-se impotente por não conseguir explicar a ninguém exactamente o que é que está errado connosco.

Alguns amarguram-se por dentro. Sentem-se enganados pelo destino, menosprezados pela vida e culpam todos e tudo o que lhes acontece, encontrando na má sorte a resposta para este mal.

Outros inventam-se para poderem sobreviver no mundo dos vivos.

Comportam-se da mesma forma, sorriem quando é suposto, enfim, emitam as pessoas ditas normais, com medo da solidão, com medo do medo.

Ser diferente é difícil. É viver condenado a estar só mesmo quando acompanhado. E depois há a culpa, esse peso terrível que nunca nos abandona porque há sempre alguém que está pior, porque não conseguimos explicar a quem está a nosso lado porque de repente, sem razão alguma, as lágrimas nos assomam aos olhos e as memórias do que foi ou nunca aconteceu, toldam o mais lindo pôr do Sol, o beijo mais doce.

Deveria haver forma, maneira de conseguir fugir deste destino.

Mas nem o passar dos anos alivia a carga, apenas nos permite encontrar num silêncio profundo que os outros tomam por bom senso, maturidade, um reduto onde nos esconder de tudo, de todos e principalmente de nós.

 in Destak08 | 07 | 2008  



publicado por Luísa Castel-Branco às 12:05
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7 comentários:
De a 8 de Julho de 2008 às 12:48
Muitas vezes carregamos em nós, o peso do mundo...do nosso mundo, e que pesado é.....


De Joana Carneiro a 8 de Julho de 2008 às 15:17
Boa tarde

Vou ser-lhe muito sincera, apesar de (praticamente) ler o "Destak" todos os dias nunca tinha lido uma crónica sua. A razao ? Sinceramente não sei... Porque não tenho por hábito ler as crónica, porque por falta de tempo a leitura e sempre rápida ou porque o título não me chamou a atenção... Pelas mais diversas razões ando a perder uma crónica de (vejo agora) alguém que sabe o que diz!

Dou-lhe os parabéns por este texto... Hoje tive mais tempo livre e 'aventurei-me' a lê-lo... Nem a meio ia e já sentia esse tal aperto no peito que ás vezes vem misturado com alguma felicidade por alguém ter descrito um pouco aquilo que muitas vezes eu tento descrever e não consigo...

Não é o querer ser diferente. É o tentar falar com alguém e perceber que essa pessoa nao nos compreende, é o estar triste e tentar explicar o porquê e nao conseguir dizer... É o sofrer interiormente porque o pavor que temos a ficar sozinhos é muito maior do que a vontade de explicar o porquê daquela lágrima...

Identifiquei-me bastante e 'descobri' uma boa escritora que até hoje me tinha passado ao lado...

Resta-me felicitá-la pelo seu trabalho e dizer-lhe que a partir de hoje 'ganhou' mais uma leitora!

Mais uma vez parabéns por esta crónica!
Com os melhores cumprimentos,
Joana Carneiro


De nanda a 8 de Julho de 2008 às 23:04
Cara Luísa, ser diferente é algo com que todos devemos e podemos conviver. Que mundo seria este se todos fossem iguais nos pensamentos, ambições, formas de estar na vida? Inquietante é quando existe intolerância perante as diferenças, quando só aceitamos e vemos o que connosco mais se coaduna. Considero que esses são os verdadeiramente infelizes, criam um mundo que só engloba os acomodados, um mundo feito de pedra, inultrapassável. Pensam que estão certos e não vêem o quanto são infelizes!
A diferença pode trazer sofrimento e descrença mas creio ser uma mais valia para amadurecermos, para nos valorizarmos, para cada vez, mais e melhor, fazermos as nossas escolhas e para adquirirmos o direito de dizer NÃO, BASTA!
Considero-me, com muito orgulho, diferente, no sentido que sempre aprendi com os meus erros, que entendi quando era necessário mudar, que deixei de considerar, algumas vezes, como certas opiniões que havia assumido como inquestionáveis. A vida, muitas vezes madrasta, não foi capaz de me arrastar nos "joguinhos" sujos que encena para nos pôr à prova.
Tive conhecimento, hoje, de algo que me chocou: uma determinada operadora de telemóveis, para a qual faço estudos de opinião, não quer brasileiros como entrevistadores... Falo de pessoas com formação superior e a fazer Mestrado em Cultura e Língua portuguesa! É impossível compreender tal absurdo em pleno século XXI, ou, melhor dizendo, é um a mais nesta sociedade de absurdos!
A todos, que de qualquer maneira são vítimas de intolerância, deixo aqui expressa a minha solidariedade.
Nanda


De Carla Neves a 9 de Julho de 2008 às 00:00
Olá!
Nunca, ninguém foi capaz de descrever tudo o que sinto, muito menos eu.
Ao ler no diário gratuito a sua crónica, fiquei sem palavras e o meu coração bateu a mil a hora. Tirou-me as palavras da boca que eu nunca consegui explicar nem a mim mesma e que o meu companheiro não percebe.
A verdade é que eu vivo assim há muitos anos e desespero com esta situação pois não encontro saida nem explicação, já tentei psicologia e psiquiatria e nada. Só administram fármacos pra depressões.
Não encontro um motivo para este estado de espirito ou "buraco na alma", sim tenho traumas do passado da convivência com um pai toxicodependente mas nunca senti tanto vazio como agora na fase adulta, um não saber o que quero, o que fazer, o que sentir, parece até que só estou bem na tristeza e nas lágrimas.É um não saber de coisa nenhuma. Que tanto estou bem e alegre como sou capaz de chorar baba e ranho com tamanho desespero que nem as vezes sei o porque de estar a chorar.
As suas palavras foram e são as mais acertadas para mim, que nenhum médico foi capaz de ser tão certo num "diagnóstico" da alma e do estado de espirtito.
Obrigada.
(Também gostava de encontrar um "remédio" para curar e aliviar)


De Pecador a 9 de Julho de 2008 às 00:51
"Alguns amarguram-se por dentro. Sentem-se enganados pelo destino, menosprezados pela vida e culpam todos e tudo o que lhes acontece, encontrando na má sorte a resposta para este mal."

O bom senso é culpado de tanto desamor, desencontro e desespero. Bnoite Luiza



De Mário Ferreira a 29 de Agosto de 2008 às 01:19
Quando li este texto fiquei deveras estupefacto com a cumplicidade que tenho com tais sentimentos. Palavras que nunca consegui descrever pois tento várias exprimir-me como me sinto. Através do seu texto é possivel explicar como me sinto. O meu muito obrigado. Sugiro também uma leitura, seria uma grande honra, e uma opinião se assim pretender do meu texto relacionado com o assunto que fiz no meu blog:
http://historiasvidasemnexo.blogspot.com/2008/07/solido.html


De cristina a 12 de Agosto de 2009 às 00:59
Olá Luísa,

Foi uma brisa de entendimento ler o seu texto. Na realidade sempre pensei em mim mesma como sendo "esquisita", afinal sou só diferente.... Não sei se me alivia a dor, mas dá-me com certeza a paz de não estar sozinha nos meus dias atormentados. E curioso dizer que o tempo não alivia.. realmente para mim tem agravado, sinto-me cada vez mais sozinha e incapaz, sinto-me "minimizada" à espera que por qualquer milagre me revelem.
Já lutei tanto, já arrisquei tanto, já me destrui e refiz tantas vezes.... o resultado é sempre o mesmo, acabo reduzida à mínima expressão de mim mesma, do que sonhei... agora vivo assim.... não decido, não me queixo, tento não chorar, não sentir...
Grito dentro da minha cabeça, de resto é tudo um imenso e único silencio...
Obrigado por permitir que eu tenha conseguido exprimir algo mais que um sorriso patético e um comentário circunstancial. Obrigado por me ajudar a entender.
Cristina


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