Sábado, 23 de Agosto de 2008
Um dia mato-te!

Ouvia os passos dele nas escadas e começa a tremer, as pernas pareciam de gelatina, o coração disparava como um louco.

Rapidamente olhava em redor para ver se estava tudo arrumado, tudo no local certo.

Não que valesse a pena, ela sabia isso muito bem. Se ele decidisse implicar não necessitava de razão alguma, mas mesmo assim, o seu instinto de sobrevivência era mais forte que tudo e por isso mesmo, policiava a casa, a sua roupa, e quantos aos filhos, esses, já tinham fugido para o quarto sem necessitarem de aviso.

Era assim dia a pós dia. Nessa noite tudo correu bem, ele não reclamou do jantar, nem dos miúdos, também coitados nem levantavam os olhos em silêncio profundo mas seja como for até correu bem, e quando ele saiu a porta para ir até ao café, um enorme suspiro sem som cobriu a casa.

Nem sempre fora assim, pensava ela enquanto se apressava a lavar a louça, a deixar tudo num brinquinho.

Nem sempre fora assim. No inicio até que ele era um homem agradável, não era dado a grandes conversas ou carinhos mas ela sentia-se protegida por ele, o que deveria ser o mesmo que ser amada, não o sabia mas devia ser.

Depois, ainda ela estava grávida do primeiro filho, começaram as tareias, os insultos.

Vindos do nada, que mantinha a primeira vez que tal acontecera bem clara em todos os pormenores e sabia que não houvera razão alguma.

Mas não era preciso.

Os anos foram passando e ele foi aumentando em violência, e todos os pequenos nadas do afecto tinham desaparecido.

Os filhos tinham crescido naquele ambiente de medo e eram pequenos demais para saberem que havia outras formas de viver.

Um dia enchera-se de coragem e foi fazer queixa dele à GNR lá da terra.

Foi coisa estúpida sem duvida mas o que havia ela de fazer se não tinha ninguém a quem pedir ajuda?

Os amigos do marido, do jogo das damas e da pinga no café, olharam-na com desprezo e mandaram-na embora com a advertência de se comportar melhor para não apanhar o que merecia.

Nesse dia, tinha um lado do rosto todo negro, e um golpe no lábio que deveria ter levado pontos mas que não se atreveu depois disto a ir ao posto.

No dia seguinte, o marido entrou pela casa dentro em furia maior do que o habitual. Algum dos amigos lhe tinha contado do ocorrido e ...basta dizer que nunca mais lhe veio à ideia pedir ajuda à autoridade.

O senhor Padre já tinha ido falar com ele e o resultado fora o mesmo:

-Um dia mato-te!

Por isto tudo, a única coisa que ela sabia fazer era inventar formas de ser invisível, assegurar-se de que tudo estava onde devia e como devia e mentir na fábrica todos os santos dias sobre as nódoas negras e os cortes.

Quando no Verão passado tinham ido visitar a Mãe dela à terra, desabafara em lágrimas contando a sua vida.

A velhota chorou com ela. Mas quando lhe disse para pegar nos catraios e voltar para casa ela apenas respondeu com as palavras dele:
-Um dia mato-te!

 

"Violência doméstica já matou mais este ano

Observatório regista 31 homicídios conjugais em 2008 e 23 em 2007 "

in DN 22.08.08

 

 



publicado por Luísa Castel-Branco às 09:10
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5 comentários:
De Yaleo a 27 de Agosto de 2008 às 23:38
Grande post:)


De paula_tavares a 29 de Agosto de 2008 às 14:21
Ler este texto fez-me recordar a violência que o meu pai exercia na minha mãe. Não era preciso haver motivo, bastava um monossilabo dela e pouco mais. Na altura, anos 60 a miséria em que viviam era grande, o trabalho precário onde a fome abundava, Ingénuamente a minha mãe pensou que a vinda de um filho lhe apaziguaria a cólera, a fúria, aquele instinto violento, maquiavélico, mas nem a minha vinda isso modificou e com o decorrer do tempo, eram sistemáticas. Eu tinha 3 anos, ainda me recordo de andar pelos cólos das vizinhas que vinham ver aqueles cenários degradantes e apartá-los. Por vezes a minha mãe ficava caída pelo chão quse inanimada, outras ficava cheia de negras pelo corpo...o motivo era sempre por causa de mulheres...foi sempre muito "bom vivant" apesar da miséria em que viviamos, uma sala de pouco mais que 20 m2 onde todas as divisões de uma casa normal se misturavam.
Aos três anos e meio, a minha mãe fugiu de casa e levou-me com ela. Ficamos algum tempo em casa da patroa dela que acabaram por serem os meus padrinhos de batismo e segundos pais. Ali, era outro mundo, cujos olhitos infantis e amedrontados nunca tinham visto. Depois do inferno dos primeiros anos de infância, passei a viver no céu embora privada da minha mãe, que apesar de nunca me ter abandonado, vivia longe de mim.
Hoje tenho 46 anos e ainda tenho medo do meu pai, dó o voltei a ver quatro vezes na minha vida e inspira-me sempre medo e revolta. Tornei-me adversa à mentira, a homens casados que buscam outras mulheres, a omissões, desconfio de palavras galantes, tudo por que isso é uma representação do que o meu pai é.


De Philip a 29 de Agosto de 2008 às 20:49
É simplesmente deprimente o facto de os número aumentarem cada vez mais.


De nanda a 30 de Agosto de 2008 às 21:33
Já vivi, de forma mais moderada, esse drama. Hoje, aos 45 anos, depois de concluir a minha licenciatura, tenho mais força, menos medo. Em minha casa ainda há conflitos que, por vezes, raiam a violência, de cada vez que há um destes episódios saio mais fortalecida, mais dura, com olhar mais frio. Tenho medo de perder as emoções, de ficar tal pedra da calçada, é esta a minha defesa, o meu escudo. Precisava de ter tido coragem para saír de uma relação conturbada, hoje, 25 anos passados, pergunto-me se alguma vez terei paz. Fui traída, soube-o há pouco, mesmo assim fiquei... Tenho dois filhos adultos, amorosos, que em tudo me apoiam. Não sei que "força é esta amigo que me põe de bem com outros e de mal comigo" Um grande abraço a todas as vítimas de violência doméstica.
Não sigam o meu exemplo, fujam enquanto é tempo, vale a pena...


De Luís Abalroado a 2 de Setembro de 2008 às 09:35
Cara Luísa,

Gostaria de a felicitar por mais um excelente artigo, da sua autoria, publicado no Destak . O artigo a que me refiro tem o título "A vida" e é, utilizando a sua própria linguagem, de uma limpidez impressionante. Com efeito o "retrato" traçado toca-nos, com certeza, a todos e realço a sua maravilhosa capacidade de traduzir por palavras as pequenas, porque não chamar-lhes grandes, coisas da vida.
Bem haja


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