Terça-feira, 2 de Setembro de 2008
A vida
 

Há pequenas mágoas que nunca se esquecem. Coisas ridículas, seguramente, porque basta ver as notícias, pensar em tanta gente que bem perto de nós está pior.

Mas a injustiça, a palavra que não foi dita, o gesto que não chegou, enfim, há uma imensidão de pequenas mágoas que se instalam dentro de nós e aí ficam, assentam arraiais e não desaparecem.

Talvez seja mais fácil esquecer uma discussão, uma troca acalorada de palavras em que deitamos cá para fora o que nos dói. Mas quanto a estas pequenas feridas, não encontramos palavras para as escorraçar e por isso minam-nos como feridas que não se vêem.

A injustiça é uma das armas mais poderosas nesta coisa a que chamamos a nossa vida, os nossos dias. Apanha-nos de surpresa, porque a verdadeira dor só é provocada por quem amamos, ou alguém a quem respeitamos, mas sempre com uma surpresa que nos tolhe, nos impede de agir.

E depois, se traduzirmos por palavras o que sentimos, e confidenciarmos a alguém este espinho instalado dentro do coração, ninguém o compreende exactamente porque é coisa pequena, sem importância. Para os outros.

Quantos de nós transportamos uma vida inteira a memória dessa mágoa, que nos aparece nos momentos mais disparatados, como uma voz escondida algures e que por maldade se presenteia em nos avivar a memória?

O bom senso da meia-idade, de que tanto se fala, essa fase da vida em que aprendemos a escolher criteriosamente o que nos incomoda, e por conseguinte vivemos em paz com o mundo, não é mais do que o momento da vida em que deixamos pura e simplesmente de ter expectativas sobre os outros.

Desistimos dos sonhos e olhamos tudo com limpidez terrível. Baixamos os ombros e continuamos em frente. Porque, afinal, apenas a juventude é abençoada com a inocência e a ideia fantástica de que tudo é possível.


 in Destak 02 | 09 | 2008



publicado por Luísa Castel-Branco às 15:07
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7 comentários:
De Filomena Silva a 2 de Setembro de 2008 às 19:00
Uma descrição simplesmente espectacular...

Gostaria de lhe dar conhecimento do blog onde o meu filho "despeja" os seus sentimentos e que não ficam muito longe dos seus...

Obrigada por escrever, continue a fazê-lo... sabe bem ler as suas crónicas.

Felicidades
F Silva


De Patrícia a 2 de Setembro de 2008 às 21:39
Mais uma vez adorei o seu texto.


De Ana Paula Almeida a 3 de Setembro de 2008 às 09:33
Querida Luísa,
Ouvi falar da "Alma" numa manhã em que, adoentada, fiquei em casa e vi televisão. Penso que, pela primeira vez, me sinto grata por não ter estado tão bem de saúde como é costume e (por isso mesmo) ter ficado a recuperar - na companhia do Manuel Luís Goucha e da própria Luísa (que foi nessa manhã ao programa). Uma simples gripe, nada mais. O lado positivo? Conheci "Alma".
Ainda nesse dia, com algum esforço mas muita convicção, fui em busca dessa menina e trouxe-a para casa. Está comigo até e hoje e garanto que "veio para ficar"... . Peço desculpa se é um pouco abusivo da minha parte roubar à Luísa um pouco de "Alma", mas parece-me inevitável.
Obrigada, muito obrigada pelas magníficas horas de leitura e emoções. "Alma" vive num tempo que não é o meu, mas do qual sou fruto... e por isso gosto sempre muito de conhecer, mesmo que seja para (em algumas ocasiões) me angustiar e perceber muitos "porquês" da geração que me deu origem.
Mais uma vez obrigada Luísa.
Um grande beijinho e continue sempre com essa "boa vida"!...


De Paulo Rodrigues a 3 de Setembro de 2008 às 13:51
Cara Luísa,
A idade não nos pode fazer ver a vida como um livro acabado e já lido em que nos resta apenas desfolhar e reler os capítulos felizes e chorar-mos com os tristes.
A idade dá-nos a oportunidade de poder alterar o rumo da história nos momentos finais. O perdão, o encontro, o abraço, o arrependimento ...

O seu comentário final resume, magnificamente, a mentalidade da maioria dos jovens.
Os tempos mudam e com eles a idade da inocência confunde-se com a idade da irresponsabilidade. Tudo tem um equilíbrio e o que possa ser dado como uma bênção também pode ser tanta outra coisa...

A idade, ao contrário da juventude cega com a ideia fantástica de que tudo é possível, é o que nos faz ver que à beira do precipício, ir em frente é dar um passo atrás e mudar de caminho.

Um abraço,

Paulo Rodrigues


De DULCE MELO a 3 de Setembro de 2008 às 17:27
OBRIGADO LUÍSA

DESCOBRI AS SUAS CRÓNICAS NO JORNAL DESTACK E FIQUEI " PRESA" .SÃO UMA BÊNÇÃO PARA ALMA LOGO PELA MANHA.

FIQUEI SUA FÃ
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OBRIGADO LUÍSA <BR><BR>DESCOBRI AS SUAS CRÓNICAS NO JORNAL DESTACK E FIQUEI " PRESA" .SÃO UMA BÊNÇÃO PARA ALMA LOGO PELA MANHA. <BR><BR>FIQUEI SUA FÃ <BR><BR class=incorrect <a name="incorrect">BJO</A> </A><BR>DULCE MELO


De Ana Mascarenhas a 8 de Setembro de 2008 às 11:13
E porque será que a vida me ensinou a ser egoisticamente solitária??????

Será a minha defesa, abrigo e/ou protecção?

Ana Mascarenhas


De folhaaovento a 12 de Setembro de 2008 às 23:25
Boa noite Luisa, como é bom ver outro açguém escrever um pouco daquilo que nos vai cá dentro, da dor que e cola a nós e que por mais que a tentemos sacudir fica ali no mais fundo de nós, sim o que mais magoa,é a a injustiça de uma explicação que ficou por dar, a não resposta ao nosso pedido de uns breves instantes de compreensão, e carinho daqueles a quem temos dado tudo, e num piscar de olhos vão sem uma simples conversa de 5 minutos para, mulheres maduras como nós acho que ainda doi mais,acreditamos e depois lá temos que dar a volta de 180 º e seguir em frente, mas a mágoa essa é dificil de suportar.
um beijo grande e que o novo livro tenha o mesmo caminho que Alma.
Obrigado por poder partilhar um poco da minha dor,


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