Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008
A natureza humana

 

Porque é que as pessoas não ficam felizes com a felicidade dos outros?
Durante anos, ela tinha sido feliz.
Estupidamente feliz, daquela forma que não tem história, e é feita de coisas sem importância.
Eram apenas um casal feliz, com dois filhos saudáveis, sem dinheiro para grandes coisas mas o indispensável não faltava e os dias corriam tão suaves, tão doces.
E ao longo desses mais de dez anos, as amigas sempre a tinham avisado dos terríveis fantasmas que assolavam os casais, do destino que a todas estava reservado.
E era como se ela de alguma forma as irritasse, por não ter lágrimas para partilhar nem segredos.
Agora, sentada sozinha no escuro da sala, com a chuva de Verão a cair ritmada, pensava que tudo o que elas tão caridosamente tinham previsto acontecera.
O marido um dia, sem qualquer aviso, ou ela não os tinha visto, pura e simplesmente, entrou em casa, pousou a pasta no chão e disse: “Preciso de espaço”.
E antes que ela conseguisse reagir, deu um beijo rápido nas crianças e voltou a sair.
Afinal, ele precisava de muito mais do que espaço.
Precisava daquela nova mulher com quem vivia, daquela nova vida, dos novos amigos, enfim, tinha passado uma esponja sobre a doce vida que tinham partilhado.
As amigas, que souberam ela não podia dizer como porque não fora capaz de coordenar ideias quanto mais pedir ajuda, vieram todas, aos montes, como carpideiras, chorosas e prontas a contarem-lhe detalhes que ela não queria ouvir, que lhe doíam como facadas.
Depois, desapareceram de mansinho, e pouco a pouco ela deixou de ser convidada para jantares e festas até ficar reduzida ao seu pequeno apartamento, aos dois filhos e às recordações.
Quando a encontravam, olhavam-na com comiseração estampada no rosto, a coitadita dela, como é que ia a vida, enfim, conversas de nada, vazias, desumanas.
Ali sentada, a contar as horas até os filhos voltarem para casa, não lhe saia da cabeça o mesmo pensamento.
Ninguém gosta de gente feliz, mas ninguém quer estar ao lado de gente infeliz.
 
 


publicado por Luísa Castel-Branco às 11:27
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8 comentários:
De a 4 de Setembro de 2008 às 13:04
A inveja, esse letal pecado...ver os outros felizes é doloroso quando na alma nada mais há que maldade.


De nisca01 a 5 de Setembro de 2008 às 21:04
Olá Luisa queria dizer lhe que adorei o seu livro pois está muito bem construido. Devo dizer que fartei me de chorar no fim mas mesmo assim adorei e espero pelo segundo...
Gosto muito da forma como escreve da maneira como aborda o assunto e "toca" as pessoas. Gostava muito que fosse a minha primeira amiga no meu blog, ja que eu sou nova nestas andanças e não sei bem como é que isto funciona.
Continue...nunca desista!!
beijinhos.


De nisca01 a 5 de Setembro de 2008 às 21:26
A inveja por mais que se diga que é saudável será sempre inveja. Para fazer frente a ela apenas há a indiferença. Para se agir com indiferença ha que ter força e tirar proveito da famosa frase :
"Orgulhosamente sós"!!
beijinhos à Luísa.


De Ana Mascarenhas a 8 de Setembro de 2008 às 12:54
Cara Luísa,

Peço desculpa estar a repetir-me, mas deparei-me com alguns erros ortográficos que por vezes o teclado nos atraiçoa.
Assim volto a escrever, contudo agora sem erros. Mais uma vez o meu obrigada.

A natureza humana é demasiado pequena quando o sofrimento bate à porta.
Esquecemo-nos que esse sofrimento por ser de característica intrínseca nos pode surpreender também um dia numa qualquer estação do ano que não esperávamos e nos faz acordar e pensar...

Eu sou algo atípica por gostar da solidão como minha companhia, conselheira e cúmplice, será o meu egoísmo a meditar alto?

Ana Mascarenhas


De zedaluz a 9 de Setembro de 2008 às 11:26
Exma Senhora
Dª Luisa Castel Branco

Li o seu comentário de hoje, dia 09SET08, no Destak e fiquei muito revoltado com o que li. É preciso muita lata e sobretudo muita baixeza para fazer comentários tão sórdidos, nojentos e sobretudo tão mal educados como o que abre a crónica.
Por isso apresento-lhe a minha solidariedade e o melhor que tem a fazer é dar o desprezo, porque gente(?) desse calibre não faz falta nenhuma à sociedade.
Aceite por favor os meus respeitosos cumprimentos.
Atenciosamente,

José Luz


De nossocaminho a 10 de Setembro de 2008 às 14:35
Pois é... A felicidade vs Infelicidade...
Para quem transparece felicidade há sempre um sorriso, mas quando a infelicidade nos bate à porta dessa maneira, o sorrido de todos desaparace...
Foi a mim também que um dia, o homem que me fazia feliz entrou porta a dentro e disse que precisava de espaço, destruindo desta maneira uma familia com 2 filhos pequenas... Dei-lhe o espaço, não fisico porque esse ele não o quiz, mas o espaço psicologico, mas sempre na tentativa de tentar perceber.lo... Dois meses passados a tentar perceber a minha alma encheu-se de coragem e fui procurar respostas por minha conta e risco e acabei por ver aquilo que tinha passado 2 meses a evitar ver. Descobrir e-mails, sms, palavras e mais palavras... tudo aquilo que eu receava... "Afinal havia mesma outra".
Quantas e quantas vezes que dizia nos mesmos desabafas que precisava dele, que estava sozinha e carente, ele me respondia... que também ele assim estava mas que assim queria continuar.... MENTIRAS...
A minha vida acabou aqui... estou neste momento a tentar garantir a segurança e bem estar dos meus filhos para poder desaparacer e desperar que Deus me dê a paz que preciso.
Tenho medo de estar sozinha, também eu nao gosto da solidão como companhia, por isso preciso não estar sozinha em acompanhada...
Este homem, este ser humano que destrui a minha vida merece apenas viver com o peso e a culpa da minha desistencia em continuar a viver...
Para todas aquelas a quem um dia algo do genero aconteceu, deixo a esperança de que tenham força, amor proprio e coragem sufeciente... coisas que eu nao tenho e não sei ter.
Despeço-me....


De Fátima Mendes a 11 de Setembro de 2008 às 00:13
Antes de tudo agradeço a maneira simples como tratou um caso tão delicado como a partida do amor, pior que isso só a partida para sempre, involuntária a morte, mas não foi para falar de coisas tristes que estou aqui, pelo contrário, muito obrigado pelas crónicas, pela coragem pela dança das palavras e pela mulher linda que é. Aproveito para pedir desculpa por alguns que zangados com a vida disparam veneno em todas as direcções, desculpe e não desista, por mim e todos que a admiram e respeitam tal como eu, um bjo

ofereço-lhe este poema
com todo o meu carinho
e que todo o problema
se afaste do seu caminho. Boa noite



De Sarocas a 12 de Setembro de 2008 às 12:55
Gostei bastante de ler o seu blog. Acho que a Luísa (e desculpa tratá-la desta forma tão directa), tem uma forma de escrever e de falar que movimenta um pensamento. Sou uma admiradora sua e queria dizê-lo há algum tempo já. Ao abrir o "Alma e os mistérios da vida" (que embora ainda não tenha lido todo estou a gostar muito) vi lá o link do seu blog e fiquei contentíssima e queria vir então, por este meio, mostrar o meu apreço, digamos. Estava habituada a vê-la mais na televisão e confesso que nunca chamou muito a minha atenção. No entanto, nas Jornadas da EPCI fiquei admirada com o seu coração aberto e com a forma como se expressava, fiquei emocionada com o seu discurso e adorei a sua presença e do seu filho (quando acabou de falar, eu fui dar-lhe um lenço para secar as lágrimas ). Desejo-lhe tudo de bom. Um beijinho grande


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