Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
A Fé que eu não tenho

 

Não deixar à morte a última palavra, crónica do Frei Bento Domingues publicada no Público  

 
 
 
1.«Tentemos viver de tal modo que, quando morrermos, até o homem da agência funerária lamente a nossa morte». Esta proposta de Mark Twain é um grande programa. A suposição de que ele raramente é cumprido, separou a festa de Todos os Santos da celebração dos Fiéis Defuntos. Há pessoas que, nem no céu, gostaríamos de encontrar como a morte as encontrou. Só uma boa purificação (um purgatório) as poderia tornar companhia apetecível. Quando se pensa em todos aqueles que foram um inferno para os outros, só o inferno parece o seu destino adequado.
Este aparente bom senso – a que se poderiam acrescentar as tristes “reencarnações” – não vai além da transposição para o “outro mundo” do sistema de prémios e castigos que nem para este vale grande coisa. Tem o inconveniente de não respeitar o imenso mistério da vida e da morte e faz de Deus um miserável justiceiro.
Temos testemunhos de que, há muitos milhares de anos, os seres da nossa espécie se despediam dos falecidos com diversos rituais, segundo as diferentes culturas e religiões. Confessavam, sabendo ou não de forma reflexa, que o funeral não era o fim de tudo, a última palavra sobre as pessoas que amavam. Se assim não fosse, todas aquelas flores e ritos poderiam celebrar uma memória, mas seriam dirigidos a ninguém.
Quando morre uma personalidade célebre, faz-se o elogio da sua obra, mas o autor parece que já não conta. Só há futuro para o património. Destaca-se a obra e as pessoas são reduzidas à categoria de cinzas, de estrume.
Nos cemitérios, as lápides e os jazigos podem evocar um itinerário, mas a obra mais digna de nota, de cada ser humano, é ele próprio. Ser verdadeiramente bom vale mais do que todas as realizações científicas, técnicas, filosóficas e artísticas. O santo, o verdadeiro santo, configurado pelo amor de compaixão, vale mais do que todo o mundo material, embora tudo isso possa e deva contribuir para o bem e a beleza da humanidade. Como se costuma dizer, quando morremos, deixamos tudo o que possuímos e só levamos o que somos.
Aqui, são possíveis as atitudes mais diversas, mas não é muito cristão desqualificar as posições de ateus, agnósticos ou dos membros de outras religiões. Perante a morte, não importa procurar saber quem está certo ou errado. Estamos todos sem defesa. O próprio Jesus, no Jardim das Oliveiras e na Cruz, mergulhou no medo e na angústia. O cristão deve, no entanto, estar pronto a dar razão da sua esperança.
2. Conta-se que Jesus enviou setenta e dois discípulos a anunciar o seu Evangelho. Regressaram como adolescentes de um campo de férias. Jesus ouviu tudo e confirmou que tinha sido realmente espantoso. Depois, acrescentou: não vos alegreis pelo facto de nada deste ou de outro mundo ter resistido à vossa palavra; alegrai-vos, sobretudo, porque os vossos nomes estão escritos nos Céus. A expressão “nos céus” é o equivalente a Deus transcendente que está acima de todo o nome, isto é, alegrai-vos porque a vossa vida está para sempre inscrita no coração de Deus e ninguém vos poderá arrancar desse amor.
Ao dizer isto, o próprio Cristo ficou espantado: «Nesse mesmo instante, Jesus exultou de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos (…) Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. Porque - digo-vos - muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!» (Lc 10, 17-24).
3. A vida humana é uma evolução contínua. Se a morte fosse a última palavra, a pessoa humana estaria a evoluir para o nada. A fé consiste em acreditar que a personalidade de cada um de nós está inscrita no eterno amor de Deus que nenhuma morte poderá vencer.
Para mim, é este o coração da revelação cristã. Não adianta preocupar-se em saber como será a vida depois da vida que conhecemos. Não temos nem a geografia nem o calendário nem a configuração do céu. Todas as evocações ou descrições são, apenas, tentativas de preencher a nossa ignorância, transpondo, para o Além, o que há de melhor (o céu) e o que há de pior (o inferno) neste mundo. É certo que há música e pintura que procuram evocar o estado daqueles que já se encontram na alegria de Deus. No entanto, as evocações de todas as artes, mesmo as mais sublimes, serão sempre a miséria que se pode arranjar para não ficarmos mudos e cegos.
Para quem acredita que “os defuntos” estão, misteriosamente, com Cristo e connosco, neste dia dos Fiéis Defuntos deveria alterar as suas representações: não se reza por eles, reza-se com eles e eles connosco. Deus é Deus dos vivos. Não fez a morte nem à morte deixou a última palavra (Sb 1, 13-15). Não conhecemos, no entanto, nenhuma possibilidade de representar aquilo que Paulo chama “ressurreição” (1Cor 15, 53ss). Podemos, porém, rezar Àquele que tem compaixão de todos: «porque todos são teus, ó Senhor, que amas a vida!» (Sb 11, 23. 26).

 

A minha Fé é pobre, fraca, cobarde.

Tenho pena porque gostaria de acredtiar. Li este texto e deparei-me com tantas questões para ponderar.

Olhar para dentro de mim, sim, porque estas palavas obrigam-nos a ser verdadeiros com a nossa alma.

Aqui fica para todos.


tags: ,

publicado por Luísa Castel-Branco às 13:15
link do post | comentar

.links
.pesquisar neste blog
 
.mais sobre mim
.tags

. todas as tags

.arquivos

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Setembro 2012

. Maio 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Fevereiro 2007

. Dezembro 2006

. Setembro 2006

blogs SAPO
.subscrever feeds