Domingo, 15 de Março de 2009
Não foi hoje, foi ontem

 

 
 
 
Não há espaço para mim.
Não tenho medida nem proveito.
Estou a mais onde quer que esteja, como algo incómodo, não doloroso mas incomodo.
Nem se pode dizer que estou perdida porque para tal teria que ter sido diferente em algum tempo, em qualquer momento do caminho.
E nunca foi.
Deve haver uma equação matemática para tal realidade.
Como se o centro implodisse, engolisse tudo o que estava ao seu redor e afinal, tudo não passou de uma ilusão óptica, criada não por milénios e milénios nem a velocidade superior à luz. Não. Apenas aqui nesta vidinha, neste percurso tão pequeno que é a existência de um ser humano.
Mesmo quando eu acreditava (ou os outros) ser o centro das atenções, dos confrontos, das opiniões contraditórias, afinal e sem o saber, representava apenas o papel que me tinha sido distribuído pelo encenador antes mesmo de eu chegar a esta encarnação.
Com o passar dos anos, o meu papel esfumou-se ou então fui eu que como na história do Pinóquio, ganhei uma consciência que não era suposto ter.
Talvez. Não sei.
Sei que hoje mais três tulipas se abriram e mostraram as suas cores maravilhosas. Duas são misto de rosa e lilás e outra é negra e misteriosa.
Sei que a arvore lá em baixo da qual eu não conheço o nome, se encheu de flores minúsculas de um carmim misturado com branco. E do outro lado, a trepadeira deu hoje mais alguns cachos de cor lilás, como se fossem vinhas de flores.
Disto eu sei.
Mas nada mais. E desconheço-lhes a história, como se chamam e como trata-las, por isso limito-me a passear junto delas, quedar-me por instantes e falar-lhes de mansinho, como uma mãe apaixonada pela sua cria.
Há um perfume a doce no ar, tão doce como uma cozinha com a mesa do meio coberta de bolos quentes que saem do forno e o odor da massa quente envolve tudo e todos, a saliva a crescer nas bocas e os olhos a rirem-se de expectativas.
Estou a mais onde quer que esteja.
Estou a mais dentro do meu corpo, ou então o meu corpo não sabe o que fazer comigo e por isso mesmo se revolta constante, diariamente. E dia após dia, ano após ano, sem momentos de descanso ou tréguas, ele padece de algum mal diferente, uma sintomatologia diferente e ali vamos nós, os dois de braço dado, eu e o meu corpo para um novo hospital, um novo médico, novos exames.
Estou a mais na vida daqueles que amo. Mesmo com o esforço enorme que faço para não ser um peso, não, tento ser uma nuvem na chávena de café do pequeno-almoço, uma boa lembrança quando eles abrem as portadas para um novo dia, sei lá, qualquer coisa permanente e ao mesmo tempo tão leve como uma teia de aranha.
Mas sinto que falho os meus objectivos e uma vez mais, deveria eu ser transparente para todo o sempre, que é como quem diz, acordar amanhã e olhar à volta e ver tudo, sentir tudo de forma diferente, audaz, feroz, sem consentimento de ninguém e muito menos necessidade de seja quem for.
Quem me amou de verdade nunca conseguiu dizê-lo por palavras, por gestos, de alguma forma que pudesse ficar na memória da minha pele ou do meu coração.
Não, não falo de homens e paixão e sexo e paixão porque tudo isso tem a importância da minha tulipa antes de as folhas caírem uma a uma, num prazo tão pequeno que não é possível guardar tanta beleza.
Não.
Falo de amor com letra grande. Daquele que partilha o mesmo sangue nas veias e a mesma historia de vida por mais dispares que tenham sido cada uma das vidas de tanta gente que houve antes.
Só sei que estou a mais e hoje, não ontem, que perdi alguém que amava, que respeitava e admirava, sentado no sofá da sala, (como estariam os seus olhos azuis bebé?) a morte levou-o com todo o respeito, e por isso lhe agradeço, eu para aqui estou sozinha a falar para a pagina branca do computador,
Como há muitos anos atrás.
Ah! Nada disto interessa!
Acredito que ele me está a ver neste momento, de forma tão nítida como se estivesse aqui.
A seu lado, meu pai e seu irmão olha para mim com estranheza. Ele nunca gostou de pessoas fracas e é isso que me sinto, desculpem lá os dois!
A solidão pesa como um casaco molhado.
E o casaco não sem nunca de cima dos ombros, mesmo com o calor que hoje anda por aqui a lamber as plantas e as arvores.
Desculpem-me mas estou cansada.
Doente e cansada.
Triste e cansada.
Só e cansada.
Deveríamos ter unido todas as nossas solidões e talvez, quiçá, voltássemos a ser uma família feliz como em tempos fomos, naqueles tempos em que éramos tão virgens de tudo que tudo nos parecia alguma coisa.
Vou ter saudades daqueles olhos azuis, daquela educação exímia, à antiga, daquela cultura sem fim porque ele sabia o nome de todas as coisas, as historias por detrás de todas as histórias e com ele partiu um pedaço tão grande de quem eu sou, que não sei quem ficou por cá.
Mas sei que estou a mais.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


publicado por Luísa Castel-Branco às 10:32
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