Terça-feira, 24 de Março de 2009
Recordar a Páscoa
 

Sempre que a Primavera chegava, sentia como se os campos da sua meninice surgissem por todo o lado, tomando de assalto a cidade, calcetando as ruas e cobrindo as paredes dos prédios altos.

E Lisboa virava a sua aldeia. Os mesmos perfumes, um vento doce matizado do açúcar das flores, da terra húmida e prenhe.

Na Primavera era mais fácil trabalhar na cidade e fazer o longo percurso de volta a casa, num subúrbio onde os prédios se tocavam uns nos outros, os estendais da roupa tão chegados que as camisas se abraçavam umas nas outras como se de gente se tratasse.

Gente havia muita na correria de prédios, mas era gente que não falava, nunca dava um cumprimento e parecia partir de manhã a correr, tal como ela, e chegar à noite com pressa de trancar a porta da rua.

A ela fazia-lhe falta a soleira da porta da sua terra, naquelas noites de início da quentura, quando o mulherio se sentava à porta a dar dois dedos de conversa. Os homens iam à tasca e vinham cantarolando, os gaiatos corriam para baixo e para cima a jogar à bola, às escondidas, à "mamã dá licença".

Sentia-se a chegada da Páscoa, das bolas como ovos cozidos, da bênção do senhor padre a cada casa. E eles todos vestidos com o que de melhor tinham, roupa de Domingo Santo, roupa de "ver a Deus".

Enquanto a camioneta percorria com lentidão o trajecto de todos os dias, hoje para ela eram outros tempos e por uma vez sentiu-se novamente menina e moça com o futuro inteiro na palma da mão.

 

in Destak 24 | 03 | 2009 


publicado por Luísa Castel-Branco às 09:21
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1 comentário:
De Carla Matilde a 9 de Abril de 2009 às 15:19
Boa tarde! É a primeira vez que visito o seu blog e permita-me felicitá-la pelo conteúdo do mesmo! Textos interessantes, linguagem agradável, palavras bonitas... Neste pequeno texto sobre a Páscoa, festa de que gosto particularmente, não posso deixar de rever um pouco as Páscoas que passei na minha aldeia, em miúda. E note-se que tenho apenas 25 anos! Era época de alegria, pois as férias escolares serviam para fazer a escapadinha para o campo, para as brincadeiras com os primos e para a preparação dos festejos pascais. Toda a semana que antecedia o Domingo de Páscoa eram dias de festa. Celebrações eucarísticas, o arrumar da casa ("temos que assear a casa para a visita do senhor padre, filha", já dizia a avó), entre outros costumes.
Aproveito também para lhe dizer que li recentemente "Alma e os mistérios da vida" e adorei. Fiquei surpreendida, pela positiva, pois não conhecia a sua faceta de escritora e o livro está simplesmente fantástico! Devo dizer que foi uma leitura agradável e deliciosa. Fico à espera de outro romance :)
Termino por aqui e espero não ter tomado muito do seu tempo. Quanto ao blog, esse vai ficar gravado nos favoritos para de vez em quando visitar!
Um abraço
Carla Matilde


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