Quinta-feira, 16 de Abril de 2009
Tantos anos, tantas memórias!
 
  

Podia ainda sentir a pele dela na sua pele. Como se o seu corpo tivesse guardado as memórias de todas as sensações, cheiros, dos afagos e também dos momentos amargos, porque tinham existido.

E contudo, quando relembrava os longos anos dormidos na mesma cama, a rotina dos dias quase sem alvoroço, o que lhe vinha à memória era a doçura do amor que tinham partilhado.

Agora que estava só, era como se visse a cidade pela primeira vez. Os prédios de Lisboa tinham perdido a cor. O céu que lambia o rio ali espalhado na sua varanda, já não tinha aquela cor mágica, do rosa-claro na madrugada, o azul transparente durante as horas do dia e por fim, o longo mergulho do ocaso, como se o rio e o céu se abraçassem e engolissem a cidade. Tudo isso desaparecera.

A solidão comera-lhe os sentidos, a saudade dela levara para o outro lado do outro mundo que seguramente existia, levara-lhe tudo e deixara-o ali, vivo mas sem sangue a correr-lhe nas veias. Quase quarenta anos, e a mão dela tão pequena, que cabia perfeita no aconchego da sua mão.

Os filhos, coitados, bem que o tentavam animar. Mas quando estava com eles, rodeado pela família, era ainda mais forte a dor no peito, a ausência dela era tão grande, tão forte que era como uma sombra negra que mais ninguém via.

Não falava sobre o que sentia com ninguém. Nem com o grupo de amigos, velhos reformados e que se sentiam tão inúteis como ele, e que se juntavam ali no jardim para um jogo de cartas. A morte era tema proibido entre eles. A morte, sentiam-na ali à esquina, ao dobrar da rua. Era uma nuvem que os seguia pelas ruas e pelas casas.

Mas não era a morte que temia, mas sim a vida, a vida sem a sua mulher era uma ausência de tudo.


in Destak 14 | 04 | 2009



publicado por Luísa Castel-Branco às 10:57
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