Quinta-feira, 16 de Abril de 2009
Eu hoje

 

 
Acredito que tudo na vida acontece por alguma razão.
Muito provavelmente é apenas a minha tentativa de colocar ordem no universo das coisas e dos dias, nas desilusões e nos espantos que os anos nos trazem.
Mas sim, acredito cada vez mais que tudo acontece por alguma razão e que devemos prestar atenção aos sinais, estar atento aos revezes e às pequenas coisas que perfazem as nossas vinte e quatro horas.
Quando somos jovens, tudo parece ser possível.
Depois, há um longo tempo na nossa vida em que corremos e corremos numa luta para sobreviver.
Quando já vivemos mais, muito mais do que metade da nossa vida, à certas palavras que ouvimos em tempos que começam a tomar sentido.
Quanto mais andamos para a frente, mais percebemos que não sabemos nada.
Que não temos respostas e só perguntas, dúvidas e o medo, esse medo de tanta coisa que se instala dentro de nós.
A meia-idade afinal nada é mais que desistir de acreditar que todos os seres humanos são intrinsecamente bons, que existe justiça e que na batalha entre os bons e os maus, estes são sempre penalizados.
Creio que foi Camus que um dia escreveu: “O inferno são os outros”.
Eu creio que o inferno, somos nós mesmos e os nossos arrependimentos quer do que fizemos, quer do que não fizemos ou dissemos.
Voltando ao início, não acreditando que nos rodeia um vazio, mas sim algo que não sei dizer ou explicar o que é, tento todos os dias estar mais atenta ao que me acontece, ao que falho, ao que digo, àquilo que os outros me dizem.
Contudo, perdi aquela inocência que dava um travo tão especial à vida e uma dose de loucura saudável, de audácia, da vida com um sorriso nos lábios.
Hoje quando vinha de carro para casa, o céu estava azul cinza e lá ao longe um negro, nuvens carregadas como que pintadas, desenhos numa tela.
Dei comigo a pensar que é bom estar viva para olhar a natureza.
Para esperar que amanhã um outro azul lamba a estrada.
 
 


publicado por Luísa Castel-Branco às 21:22
link do post | comentar

10 comentários:
De Sofia Marques a 18 de Abril de 2009 às 01:18
Concordo com quase tudo que a Luísa escreveu. Mas há muitos jovens que já deixaram de acreditar, apelidados geração rasca, não são pensamentos exclusivos de mulher de meia-idade , mas sim muito actuais, é o que temos hoje, o que a sociedade nos oferece.
Afinal ainda tem inocência, olhar o céu e ver a sua beleza, apreciar o negrume das nuvens, é lindo! É isso que me mantém viva à muitos anos. A natureza com toda a sua força Divina e os meus, que me amam.
Tenho 33 anos mas a idade real é a da nossa cabeça, a Luísa é uma jovem!

Sofia Marques


De Solange a 20 de Abril de 2009 às 14:56
Só para alertar para um pequeno erro, certamente de teclagem. Onde se lê "...da nossa vida, à certas palavras que...", falta um "h" no "à". Deixe-me, de resto, felicitá-la por esse dom que tem, que é o de conseguir exprimir tão bem, através da escrita, aquilo que sente...É uma delícia lê-la. Obrigada.


De Fernanda Azougado a 21 de Abril de 2009 às 21:31
Gosto muito de ler as palavras da Luisa. Concordo no alerta que nos "aparece" com a idade. Estar atenta aos sinais. Transformar as coisas menos boas (se estamos alerta) para melhor. Mas contiunuar a acreditar no sorriso. Se assim não for a vida fica mesmo triste. Tenho 48 anos e continuo a encarar cada dia com optimismo...apesar de tudo! Um beijinho Luisa


De deolinda a 25 de Abril de 2009 às 11:34
É de Sartre a frase "O inferno são os outros".


De HelderHP a 28 de Abril de 2009 às 19:03
Acho que devo começar, se me é permitido, por lhe falar da minha admiração por si, já há algum tempo que tenho o seu blog nos meus favoritos, mas não passo por aqui com muita frequência, confesso, embora ache que a partir de hoje, isso vai mudar e venho cá mais vezes, falava-lhe da minha admiração por si, é verdade, acho-a uma mulher muito bonita, embora nem sempre goste dos seus comentários em relação aos Homens, mas continuo a admirá-la e se me é permitido, também gostaria de lhe dizer que tem uma filha lindíssima, sei que estará a pensar "pois é", mas nós somos suspeitos, eu também sou Pai de duas cranças e também são lindíssimas, por isso nada como uma opinião isenta hehehehe
Voltando agora ao "tema" e não me alongando demasiado, ou mais do que já o fiz, só dizer-lhe o seguinte, a dada altura da minha vida apaixonei-me por uma pessoa que adorava a vida e tudo o que ela lhe dava e foi essa pessoa que me ensinou a adorar a vida que me rodeava e que eu mais parecia nunca ter visto.
Se viamos um pôr do Sol, daqueles que espelham todo o oceano, ela delirava a ver aquilo e conseguia extrair dessa imagem toda a sua beleza e agradecia tal dádiva, ao lado dela aprendi a ver e a adorar todas as flores, todas as paisagens que me acompanhavam desde minha casa até onde quer que fosse e pelas quais andei, durante anos, a passar sem ver a sua beleza.
Acho que conseguimos ser pessimistas demais, quando é tão fácil ser-se mais feliz e mais positivo.
Um amigo meu disse-me uma vez, quando passávamos ferias na casa dele, junto ao rio e a propósito da guerra do Golfo e do petróleo, ele dizia olhando aquele imenso lago de agua onde os nossos filhos brincavam "e os outros é que são os ricos? por terem o petróleo?".
Vamos olhar mais á nossa volta e veremos que conseguimos ser mais felizes e para isso a idade não importa.


De Maria a 1 de Maio de 2009 às 14:02
Olá Luísa, já não comento há muito tempo, e faço-o hoje, um pouco por desespero e procura de respostas, sei que os comentários são moderados, por isso vou escrever o que me vai na alma, suicidou-se o filho de uma grande amiga, trinta e poucos anos, dois filhos pequenos, mulher psicóloga, corro a net em busca de explicações que pudessem consular o coração dos pais, das irmãs, dos avós, não encontro nada, lembro-me do Miguel, jornalista, o tempo já se encarregou de o tirar da net, talvez este fosse um caso semelhante, talvez!
Dou-me com a "M" desde que os nossos filhos andavam na creche, têm fotos juntos nas festas de Natal, trabalhámos juntas muitos anos, juntámos-nos algumas vezes para partilhar os medos quando eles eram adolescentes, continuámos sempre a contar com o apoio incondicional e recíproco, a sua família é simples, muito amiga e solidária, não conheço outra assim.
Um dia convidou-me para o casamento do filho, tinha conhecido uma rapariga mais velha, psicologa, estava grávida, ele não tinha namorado antes, pelo caminho temos vindo a conversar sobre eles, ela era complicada, tinha ciúmes, principalmente da mãe, filhos! Diziamos nós! As mães, aceitam com alguma naturalidade as coisas que, embora estranhas, fazem parte da vida dos filhos, querem sobretudo que os filhos estejam bem, e quando eles falam a primeira vez da possibilidade de divórcio, fazemos uma cena, falamos no reflexo nas crianças, e não conseguimos ver mais fundo, o tempo corre depressa, o sofrimento corroi e tira-nos a lucidez, deve ter sido o que se passou com ele, não podia ir a casa dos pais, onde outrora se juntava feliz, irreverente, com a família e amigos que se juntavam lá para uma boa sardinhada, não havia tristezas perto dele, trabalhava agora na fábrica do pai mas trazia almoço de casa para não ir almoçar perto da mãe, um dia, ao falar da mãe enganou-se e disse a minha mulher, ela ripostou: “Eu bem sabia que se passava algo mais entre ti a tua mãe”, A última vez que a mae o o viu foi num supemercado, ele recomendou: Olha que nós não nos vimos!, moram a poucos Km, o filho mais novo a fazer 1 Ano só o viram umas 3 ou 4 vezes.

Suicidou-se com uma arma do sogro, numa tarde de Domingo, fez um mês, os meus amigos perderam o filho e os netos, a remoção do corpo do local não demorou mais de duas horas, não foi feita autopsia porque a procurador assim o entendeu, tudo muito estranho, o computador dito pela viva foi apagado por ele, a arma era do sogro, estava acessível, ele não gostava de armas.

Os pais foram ao tribunal colocar as suas dúvidas, resposta da procuradora, a senhora se quer saber o que se passou faça as pazes com a sua nora e pergunte-lhe, foi estúpida e desrespeitosa para uma mãe que perdeu um filho.

Chegou ontem a decisão do tribunal, o processo foi arquivado.
De si, só espero que me diga se conhece casos identicos, e como se pode ajudar esta família a entender tudo isto
Um beijo Luísa,


De Manu a 1 de Maio de 2009 às 19:31
Boa tarde, é sempre com muito agrado que leio os seus textos, sempre com muita força de viver e por vezes me ajudam a enfrentar a vida.
Mas hoje ao ler o texto senti na Luisa uma certa amargura e um pousar de braços que
não é normal em si.
Claro que todos temos os nossos dias em que nos sentimos mais abatidos, por vezes é o trabalho, outras vezes os filhos, e muitas vezes sonhos perdidos.
Temho 51 anos, passei por uma experiência dura no ano passado, tenho tentado acreditar que a vida merece ser vivida, mas por vezes a dor dos desgostos sofridos não nos deixa olhar em frente.
Neste momento vivo um dia de cada vez, aprendi a conhecer-me, estou aprendendo a gostar de mim, tarefa difícil.
Gostava de acordar sempre com um sorriso nos lábios, mas as noites mal dormidas do ùltimo ano, não deixam que sempre isso aconteça.
É bom estar viva, olhar á nossa volta e achar que os nossos filhos e netos poderão ter um mundo melhor, mas principalmente é bom ser amada.
Um grande beijinho e obrigado pela sua escrita sempre maravilhosa.
Manu


De Maria da Graça a 7 de Maio de 2009 às 20:17
Olá Luísa, no seguimento do meu comentário sobre o suicídio do filho da minha amiga, venho solicitar-lhe a divulgação do blogue que estou a fazer para tentar conseguir um debate sobre os Direitos dos Avós.

http://osdireitosdosavos.blogspot.com/

Obrigada.


De Carla Matilde a 7 de Maio de 2009 às 23:01
Cara Luísa, concordo consigo quando diz que tudo na vida acontece por alguma razão! Lá diz o povo "Deus escreve direito por linhas tortas", não é? Na verdade, não sei se acredito nisto na tentativa de pôr alguma ordem no que na vida acontece, mas acredito que a vida nos dá coisas, pessoas, momentos e nem tudo depende de nós; por isso, creio que determinados acontecimentos, pessoas com as quais nos cruzamos, circunstâncias menos boas até, acontecem por alguma razão que a razão desconhece! Quem sabe, não será para nos trazer alguma aprendizagem? Ou talvez, para nos fazer reflectir nos nossos actos? Quem sabe?! Sou uma pessoa qua aprecia as coisas simples e belas da vida (como uma manhã de sol num dia de Inverno) e que em tudo o que acontece tento sempre tirar algum sentido e algo de bom! Assim, acredito que neste universo que nos rodeia e engloba, tudo acontece por agum motivo. Tal como diz a Luísa, basta estar atenta aos sinais (por vezes, muito ténues, muito sublimes) e tentar sugar a vida até ao tutano em tudo aquilo que ela nos oferece!

Um abraço

Carla Matilde


De zinha mag a 16 de Maio de 2009 às 13:17
Olá Luisa!
Costumo ler todos os seus blogs, alguns sei.os de cor ...vc é uma lutadora, uma pessoa excepcional e tenho mta inveja de não ser assim... desculpe... sabe, perdi o meu marido ha 9 meses, era um grande amor, daqueles dos romances... sinto que a minha vida não tem nem terá mais significado...que me resta viver cada dia olhando as estrelas e pensar que um dia fui mto feliz! bjs


Comentar post

.links
.pesquisar neste blog
 
.mais sobre mim
.tags

. todas as tags

.arquivos

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Setembro 2012

. Maio 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Fevereiro 2007

. Dezembro 2006

. Setembro 2006

blogs SAPO
.subscrever feeds