Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Em silêncio
  

Não me toques! Esta cama tem o tamanho de um oceano e ainda assim não é grande suficiente para nós os dois! Não fales comigo! As tuas palavras perderam o sentido, perderam direito a ecoarem nesta casa e na verdade, não as ouço, só vejo a tua boca mover-se, nada mais. Não olhes para mim! Faz aquilo que fazias antes, entrando e saindo sem dares conta que eu existia, e eu tão parva, preocupada contigo, que problemas terias, que não os partilhavas com a tua família, coitado!

Simplesmente limita-te a estar aqui sem que eu te sinta por perto. Se não queres partir, e eu não tenho para onde ir, então respeita pelo menos o meu esforço diário perante os nossos filhos, esta representação de vida a que sou obrigada. Como tudo muda de repente! Nunca achei possível que ao invés de te esperar com preocupação até sentir os teus passos, a chave na porta: «Então, amor, como foi o teu dia? E tu a falares das chatices do trabalho e eu a aquecer o jantar», eu rezasse para que dormisses mais uma noite fora. É como se o tamanho imenso do meu amor fosse proporcional ao ódio que te tenho. Sei que comentas com os amigos que isto passa, que são ciúmes que tudo vai voltar a ser igual. Não podes estar mais errado!

Mesmo que me saiba sozinha nesta cidade que não é minha, e no fundo do meu coração sei que se ainda estivéssemos na nossa terra as únicas palavras que ouviria eram conselhos de silêncio e obediência, que os homens são assim, nunca mais serei quem fui. Tu mataste-me o coração, arrancaste-me a alma, rasgaste o meu corpo e as memórias boas esvaíram-se.

Agora, nesta casa que um dia foi lar, há dois desconhecidos e duas crianças que olham para nós. E só este olhar me segura!

in Destak 14 | 07 | 2009



publicado por Luísa Castel-Branco às 11:22
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7 comentários:
De elia a 15 de Julho de 2009 às 22:49
Autentico.
Nunca li algo, que tão bem retratasse uma das maiores realidades. A minha realidade.


De C. a 16 de Julho de 2009 às 18:19
Conseguiu pôr em palavras aquilo que me vai na alma!

Um grande bem haja!


C.


De Raul a 19 de Julho de 2009 às 18:01
Estranho sentir que encarno e no qual me revejo.
Sementes que nos prendem no deserto da vida, esperando as chuvas sazonais para que cresçam e floresçam. Caminhamos na aridez da vida entre catos e welvitchias esperando o milagre da monção.
Abraço solidário sentido.


De nuno ramos a 20 de Julho de 2009 às 16:21
Para quem gosta de recordar o nosso clube em imagens, recordando as nossas vitórias e glórias, visite o Armazém Leonino. Julgo que passará alguns momentos nostalgicos. Peço desculpa pela intromissão!

http://armazemleonino.blogspot.com

para apaixonados por cromos,jornais antigos, relatos de futebol, revistas antigas, etc... visite!



De maria pires reis a 27 de Julho de 2009 às 21:34
Que bom ter lido este artigo! Por vezes pensamos que o nosso sofrimento é único e afinal temos tantos parceiros...infelizmente.
Tudo o que escreve eu subscrevo.
GOsto muito das suas opiniões, da forma liberta como as transmite.
Obrigada por partilhar connosco.
Um abraço solidário,
maria


De manuela a 28 de Julho de 2009 às 11:55
O texto retrata muitas situações vividas actualmente em muitos lares.
Apesar disso acho que o melhor é sempre começar de novo.
O medo do desconhecido limita-nos as forças de seguir em frente, mas nada como começar uma nova vida, é sempre melhor para todos.
Porque a necessidade de crianças pequenas, sofrerem assim, sim porque eles percebem e entendem que entre os pais já nada mais existe.
Apesar de tudo entendo os sentimentos.
Manuela


De lena a 12 de Agosto de 2009 às 10:24
como a vida é tão parecida em tantos de nós....como conseguimos ler algo escrito por alguem que nao conhecemos e parecer ter saido da nossa propria vida???!!!!!
um beijinho


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