Domingo, 20 de Setembro de 2009
Dizem que é o progresso.

 

As noites ficam cada vez mais frias e húmidas e o sol, mesmo quando surge quente por momentos, é já uma quentura envergonhada, como um adeus de alguém que acena no cais com vergonha da saudade estampada no rosto.
A natureza é a mãe de todos os ensinamentos. Tudo o que é realmente essencial, primordial à nossa vida está espalhado pela terra, nos seus frutos e principalmente nas forças que comandam o universo.
Quando os homens se afastaram da terra, imergindo solitários e perdidos no cimento dos prédios, rodeados por baldios e carros e estradas, foi nesse momento que perdeu essa ligação milenária, plena de magia, de sapiência e respostas para aquilo que nos atormenta até ao último dia.
Nesta corrida sem pausas ou prazeres, horas perdidas em transportes, fechados escritórios em trabalhos que na maior parte das vezes apenas são uma fonte de rendimento, e apenas isso, sem satisfação ou gratificação, hoje recolhemos a casa, onde quer que ela seja, cansados, exaustos e privados de sonhos.
E porque nos afastamos da mãe-terra, perdemos a ligação fundamental ao que é real, imutável e simultaneamente tão imprevisível.
Com a chegada do Outono, a terra recebe e dá, numa constância que nos assegura que o amanhã existe.
Mesmo os grandes desastres naturais são para as gentes do campo, e sempre foram, cousas que podem acontecer sem aviso ou explicação.
Rodeados por cimento, asfalto e relógios de ponto, quem tem tempo ou intento para abraçar um por do sol, para cheirar a terra húmida nas primeiras horas da madrugada, para observar o fascínio da mudança de cada estação?
Um dia, um dia chegara em que concluiremos como é absurdo o nosso viver diário, esta dependência tamanha de tantos objectos inventados para nos facilitar a vida, e que mais não fazem que nos prenderem, amarrarem, condicionarem.
Um dia destes, ali à beira rio vi, várias pessoas correrem ao som da música de minúsculos aparelhos que lhes gritavam ao ouvido.
Estavam felizes. Trauteavam canções e caminhavam em passos mais ou menos rápidos.
Felizes.
Já ninguém quer ouvir as palavras do rio que bate ali nas pedras, da dança das arvores ou dos risos que chegam de longe.
Inventamos outras realidades e deixamos para trás o que deveria ser a primeira de todas as lições.
 
 
 


publicado por Luísa Castel-Branco às 01:41
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3 comentários:
De Rute C. a 22 de Setembro de 2009 às 02:44
Lembro-me de há poucos anos atrás sentir essa mesma ligação com a natureza. Vivia então nos arredores da cidade. Era uma mistura de cinzento de um lado, onde se encontrava a rua e várias casas já a serem substituídas por prédios, e nas traseiras de minha casa, um jardim, e um campo enorme, onde arvores, flores e animais coabitavam em harmonia.

Sentia-me feliz quando as andorinhas chegavam na primavera, e sobrevoavam durante semanas a minha casa, fazendo lá ninhos e caçando alimentos para os recém-nascidos. E à noite, com a janela aberta, contava as estrelas, deixando a minha imaginação voar bem alto, naquele oceano azul-escuro, coberto de luzes longínquas…

Viver num apartamento roubou-me alguns pequenos prazeres, que só hoje vejo que de pequenos não tinham nada e tudo isso fez-me desejar, que no futuro, quando tiver os meus filhos, que eles tenham a oportunidade de abraçar a natureza, tanto ou ainda mais do que eu, pois acredito que só com esse ligação, ao respeitarmos o que nos rodeia, é que vamos finalmente e verdadeiramente aprender a respeitarmo-nos uns aos outros…

É sempre um prazer ler as suas palavras. Para mim é alimentar a minha mente de novas perspectivas, ou então um tónico para a memória, relembrando-me do que não posso esquecer. Muito obrigada por isso ;)


De Orquidea a 22 de Setembro de 2009 às 16:14
Se todos nós pensássemos nas pequenas coisas como você mencionou: "as palavras do rio que bate ali nas pedras, da dança das arvores ou dos risos que chegam de longe" talvez encarássemos a vida com mais alegria e felicidade : )


De Carla Matilde a 29 de Setembro de 2009 às 21:08
Cara Luísa,
De facto, o Homem tem-se distanciado daquilo que é natural, das suas origens, da mãe-terra... É triste observar o tão fantástico progresso, nomeadamente, o tecnológico que nada mais faz do que inventar aparelhos que criam necessidades nos humanos, fazendo-os esquecer das coisas realmente simples e belas que alimentam a alma!
Felizmente, ainda sou de uma geração em que a infância era passada entre brincadeiras de rua, com mãos sujas e mudas de roupa frequentes, com banhos no tanque e de mangueira, com joelhos esfolados e fisgas, bonecas, correria ao ar livre... Hoje entristece-me ver os miúdos rodeados de jogos e aparelhos portáteis de entretenimento; parece que se esqueceram de brincar, de gozar as pequenas coisas que só a infância nos dá!
Vivo na cidade, trabalho na cidade, mas sempre que posso dou uma escapadela à minha aldeia para esse reencontro com a natureza ou, então, mesmo na cidade (Porto) aproveito para visitar os seus espaços verdes e ouvir o sussurrar da folhagem, ver o ocaso sobre o rio, ouvir a passarada! É quase um retemperar de energias! E agora com o Outono, é de uma beleza indiscritível ver as cores das folhas! E senti-las a estalar debaixo dos pés? Dá vontade de ser criança outra vez...
Um abraço
Carla Matilde Cardoso


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