Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007
A VIDA
A VIDAAndo à procura das palavras para vos agradecer todos os comentários que fizeram ao meu renascido Blog.
Pelos vistos, não sou só eu que estou presa em Lisboa, que estou presa na vida, neste dia a dia que em nada se assemelha aquilo que um dia sonhei.
É engraçado, que ao longo da minha vida a imagem que os outros têm de mim esteja sempre tão longe da realidade.
Comecei a fazer televisão aos 46 anos, e foi unicamente uma ampliação, ainda que gigante desta discrepância entre o que sou realmente e a imagem que transmito.
O irónico, é que nunca houve em mim intenção de ludibriar os outros, de levar ao engano, fazendo-me passar por alguém forte, seguro, sem medos, sem dúvidas.
Mas agora que perdi o riso solto, a resposta na ponta da língua, o mergulhar de cabeça em tudo como se eu pudesse mudar a vida de alguém, agora quando olho para aquela que fui apercebo-me de que era fácil ficar com essa impressão digital de mim enquanto ser humano.
Talvez, não, seguramente, de tanto tentar esconder o buraco que sempre viveu na minha alma, eu tenha sido ruidosa, intrometida nos assuntos de quem conhecia bem ou mal, opinativa, enfim, uma enorme lista de características que sei que tive.
E arrogante.
Muitas vezes mo disseram e eu, que tinha um coração demasiado grande e uma ausência total de bom senso, não me reconhecia arrogante, pelo contrário, acreditava genuinamente que havia sempre algo que podia fazer por alguém.
Tenho saudades dessa jovem que fui, dessa mulher que fui.
Olho-a hoje com um distanciamento que me permite perceber que ela estava destina a bater com a cabeça nas paredes da vida, e que a sua personalidade era de tal forma infantil que ficou presa num mundo imaginário, no que a vida podia ser até ao limite.
Depois cheguei eu.
Por acaso, ou não, depois do AVC sofri profundas alterações de personalidade. Nada de extraordinário. Acontece quase sempre mas os médicos preocupam-se mais com as consequências físicas do que com as da alma.
E a minha alma mudou. Tornei-me silenciosa. Perdi toda e qualquer vontade de tentar explicar seja o que for aos outros.
Tenho saudades daquela que fui.
Era um pouco imbecil, era naif, era tanta coisa mas era um ser humano pronto a embarcar em qualquer luta, em qualquer sonho.
Hoje sou uma mulher madura e com bom senso.
Sempre me horrorizou esta expressão: Bom Senso!
Mas afinal o que é a maturidade senão o deixar cair os braços e perder a coragem de sonhar, aceitar a vida como ela é e apenas isso?
É na escrita que encontro o meu nirvana. A evasão desta que eu sou e às vezes, poucas, consigo mesmo tocar a outra que fui.
Para aqueles com quem convivo no dia-a-dia, sou uma pessoa muito mais fácil e cordata.
Para os poucos que me amam e me conhecem de verdade, som um “work in progress” porque sinto que aguardam que a outra que fui volte a qualquer momento.
Mas se algo se manteve, foi sem dúvida esta incapacidade de ser feliz daquela forma natural em tantos.
Acredito que existem momentos felizes, mas que é impossível ser feliz em permanência.
Assim um pouco como a paixão. Quando acontece e enquanto dura devora-nos as entranhas e torna-nos cegos e surdos.
E depois esmorece porque por definição não é um estado normal, e a manter-se pode destruir-nos.
Ao longo da minha vida tenho conhecido pessoas capazes de ser felizes com muito pouco, com vidas difíceis.
Digo para mim mesma que talvez alguns de nós estejamos programados para ter essa capacidade e outros não.
 
É bom estar aqui convosco nesta amena cavaqueira.
Porque o silêncio pesa. Porque, não sei se vos acontece, mas cada dia me parece mais difícil encontrar alguém conversar.
Não falar sobre os outros, não aquela conversa do diz-se diz-se, mas sim o prazer de trocar ideias, trocar sentimentos, procurar em cada um de nós o quanto somos diferentes, e contudo, como somos iguais.
 
Afinal, veio-me agora à memória, a nossa conversa anterior, os vossos comentários e estas minhas palavras são tão velhas como o mundo.
 
“De onde vimos. O que somos. Para onde vamos”
 
Gaugin conseguiu dizer tudo na sua tela e nós por cá continuamos presos no mesmo limbo.
 
 
  


publicado por Luísa Castel-Branco às 09:13
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35 comentários:
De Anabela a 8 de Agosto de 2007 às 09:43
Como a compreendo


De meldevespas a 8 de Agosto de 2007 às 10:37
....é efectivamente cada vez mais dificil encontrar alguém com quem conversar...
mas isso é também uma consequência das nossas próprias exigências, e a exigência é uma esquina implacavél que se dobra a cada ano que passa com mais força.
Se calhar é de mim..., mas é o que eu sinto. E apesar de não ter até agora passado por nenhum problema de saúde, como o que lhe aconteceu a si, a verdade é que do alto dos meus 40 anos, começo também a ter saudades da outra que eu era, é inevitável, duro, mas inevitável.


De Orientalgirl a 8 de Agosto de 2007 às 11:04
No turbilhão da nossa "vidinha" quotidiana nem nos apercebemos que a nossa "alma" pede socorro e nós...nada, não ouvimos ou fingimos não ouvir, então ela num acto de desespero "ataca" como pode.
O seu AVC foi o grito de socorro com que ela se fez ouvir. Agora é só tentar ouvi-la e perceber onde está o caminho que deverá seguir. Com calma chega lá e vá lá ... não tenha receio de perguntar-lhe, se souber ouvir o que a sua "alma" lhe tem para dizer...vai chegar lá. Acredite!
Seja feliz!
Um beijo cordial




De Ana Fragoso a 8 de Agosto de 2007 às 11:30
Em primeiro lugar, gostaria de lhe dizer que tenho admiração por si e que me identifico consigo em alguns aspectos, embora seja mais nova.
Posso dizer que "tropecei" no seu blog e tornei-me fã do mesmo desde já, pois precisamos de mulheres como a senhora, os chamados exemplos de vida.
Como compreendo o que descreve neste texto!
Os meus Parabéns e continue.

Ana


De joselessa a 8 de Agosto de 2007 às 11:36
Bom dia Luisa.
Gostei da outra, mas tambem gosto desta Luisa.
Mais madura?
Menos naif?
Gosto de si de qualquer maneira.
Nem sempre foi assim, nem sempre gostei da Luisa.
Porquê?
Não sei responder.
Aprendi a gostar da Luisa rebelde, por vezes "espalha brasas" é verdade,mas frontal e sincera, coisas que se estão a perder no ser humano.
Sou Aquariano e revejo-me em muito da sua personalidade, mesmo na fase da sua vida actual.
Somos como somos e ou as pessoas se abituam a nós com o passar do tempo ou então "temos o caldo entornado", esta forma de viver tem os seus inconvenientes mas prefiro que digam que tenho mau feitio do que me chamem "pau mandado".
Um beijinho para si e votos de que tudo melhore e principalmente voltar a vela no grande ecram.
Se quiser passe pelo meu blogue no sapo, joselessa@sapo.pt


De viciodeti a 8 de Agosto de 2007 às 12:00
É a primeira vez que passo pelo seu blog e vai passar a ser paragem obrigatória. Julgo compreende-la, sobretudo quando se refere à escrita como refúgio...tento ter na caneta a contínuidade da alma e no papel o meu confidente...infelizmente não com a frequência que gostava que fosse...pegando nas suas palavas e, transcrevendo-a "Acredito que existem momentos felizes, mas que é impossível ser feliz em permanência"...acho que deveriamos pegar nesses momentos felizes para os sobrepor aos menos felizes...gostei muito do que li...resta dar-lhe toda a força doUniverso...um bem haja Luísa


De Zé Ninguém a 8 de Agosto de 2007 às 13:27
Então tenha uma vida porreira!



De salaviva a 8 de Agosto de 2007 às 15:24
Luísa:
Das poucas vezes que a vi na TV, não simpatizei nem deixei de simpatizar consigo. Por um lado, parecia-me uma pessoa arrogante, muito segura e com ar de quem domina tudo; por outro dava a ideia de ser uma mulher sensível e com um coração do tamanho do mundo.
Curiosamente, entrei há poucos dias neste seu espaço, e rendo-me à sua escrita. Gostei, particularmente do que escreveu hoje.

Um abraço
Travessa


De omundodascores a 8 de Agosto de 2007 às 15:43
"Porque o silêncio pesa. Porque, não sei se vos acontece, mas cada dia me parece mais difícil encontrar alguém conversar.
Não falar sobre os outros, não aquela conversa do diz-se diz-se, mas sim o prazer de trocar ideias, trocar sentimentos, procurar em cada um de nós o quanto somos diferentes, e contudo, como somos iguais." Esta parte tocou-me particularmente. Como a comprendo, nem imagina. Vivemos a nossa vida cada vez mais absorvidos pelas futilidades que enchem os ecrãs e acabamos por nos esquecer do essencial. Em sermos felizes com as coisas mais simples e espontaneas. Cabe a nós com pequenos passos mudar esta filosofia que comanda a sociedade.

Um beijinho


De Social mas Light a 8 de Agosto de 2007 às 16:25
Olá Luísa ,
Folgo em voltar a ler o seu blog e do aspecto do mesmo, se bem que um bocadito escuro. Será reflexo de alguma tristeza?
Para quem deseja "uma boa vida" está um pouco soturno .
Quanto ao post acho que a mudança é natural, como é natural olharmos para trás e vermos que mudamos.
Isto não quer dizer que estamos melhores ou piores, estamos diferentes! Em cada fase da vida há sempre acontecimentos bons e felizes.
Tenha uma boa semana.



De Casada Erótica a 9 de Agosto de 2007 às 03:39
Ainda bem que voltou, Luísa.
Vou voltar a ter o prazer de a ler.

Beijinhos


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