Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
A verdadeira Alice

 

Entrou na igreja e saboreou o silêncio profundo. Ninguém apenas as figuras dos santos, também elas absortas na sua própria vida.
Descansou o corpo no banco duro de madeira. E para ali ficou sem se mexer. Por alguns momentos, não muito, que a vida a esperava, do lado de lá da pesada porta de madeira, podia ser ela mesma. O seu rosto foi desfazendo a mascara que transportava, como se estivesse coberto por várias camadas de cera, e o sorriso, o seu sorriso desapareceu por completo. "Que simpática que é a Alice! Sempre bem-disposta!"

A verdadeira Alice estava ali sentada, o rosto opaco, as rugas marcadas e a tristeza que lhe comia os olhos deixando apenas dois buracos e nada mais. Possuía tantos sorrisos, como se fossem uma colecção de caixinhas minúsculas, ou daqueles dedais tão finos, de porcelana pintada. Um sorriso para os colegas de trabalho, outro para os filhos, outro ainda para o marido, a família dela, a família dele, era um rosário que parecia não acabar.

Mas ali sentada, o velho sacristão movia-se com dificuldade junto ao altar, finalmente sozinha podia arrancar os malditos sorrisos e ser ela mesma. Cada um sobrevive como pode, pensava para si. Ela sorria para os outros e chorava para dentro, envergonhada e em silêncio. Mas sabia que chorava porque sentia as lágrimas que ninguém podia ver. Onde estava aquela rapariga que em tempos fora, tão cheia de vida, tão plena de sonhos e certezas? Nesse tempo o seu sorriso era verdadeiro mas depois veio a vida, vieram as contas, as desilusões e pior de tudo, veio a sua imagem no espelho, onde via apenas aquela que falhara o seu próprio futuro.

O tempo terminara, tinha que voltar. Desceu as escadas de pedra, endireitou o casaco gasto e vestiu-se de ser vivo, uma vez mais

 

in 19 | 01 | 2010 Destak


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publicado por Luísa Castel-Branco às 21:42
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9 comentários:
De impulsos a 20 de Janeiro de 2010 às 00:14
Hoje de manhã, como habitualmente, retirei um jornal da pilha que nos é oferecida diariamente na estação do comboio e que nos vai servindo de distracção durante aqueles vinte minutos de viagem.
Passei os olhos pelo título da sua crónica mas deixei-a para o regresso... guardei-a como quem guarda um bom bom para mais tarde. Fui lendo tudo o resto que não precisava de tanta atenção.
No regresso, puxei do jornal e fui direitinha à sua crónica com grande satisfação pois sabia que valeria a pena ler o que lá estava!
E mais uma vez me deliciei com o seu escrito, numa história demasiado real e que é afinal a história de tantas Alices por este país fora.
Embora não me chame Alice, esbocei também o meu sorriso, pois lembrei-me de outros sorrisos que em tempos trazia pendurados num rosto tão triste quanto o desta sua Alice.

Escreva sempre e... faça o favor de ser feliz fazendo-nos felizes também.

Beijo


De Raquel a 20 de Janeiro de 2010 às 21:55
Olá ! Eu li o seu livro "Não digas a ninguém" e confesso que me surpreendeu bastante pela positiva! Adorei a maneira como escreve e ao mesmo tempo critica a sociedade, mas também nos faz pensar sobre a verdadeira amizade. Gostei mesmo muito de ler o livro e no próximo que escrever irá ter mais uma leitora! Beijinhos. Raquel


De BP,X a 21 de Janeiro de 2010 às 02:06
Não sei o que dizer.

Entrei no campo 'comentar' para dizer alguma coisa, mas o quê?

Não sei o que dizer, talvez por que já não sei o que sentir. Enquanto decido o que escrever penso no que me levou até aqui, penso no que me levou até esta letra, tento vencer um conjunto de lágrimas que há muito anseiam por saltar e dar o seu grito de socorro.

Digo, por palavras quase-bonitas e quase-bem-escritas o que sinto.

Sinto vontade de chorar.

Não sei o que digo. Tenho tudo. Família. Amigos. Cultura. Uma vida com tudo, comparada com tantas.

Então, mas porque me sinto assim? Porquê?

Sonho - odeio ter férias por causa disto - estou sempre a sonhar (acordado).

Quero experimentar o teatro, porque o amo em segredo. Vou experimentando a escrita - ainda mais em segredo. Mas o que faço? Estudo Educação. E sonho com tudo isto.

Teatro + Escrever + Educação

Será possível? Quero acreditar que sim. Mas o que fazer para o tornar possível? Vencer os medos, enfrentar os fantasmas e tentar ser feliz.

Que estou a dizer? Eu tenho tudo para ser feliz!

Hoje tive momentos de felicidade - como em todos os dias faço por ter.

Mas então, porque é que esta tristeza se abateu sobre mim?

Quero sentir que alguém por esse mundo fora me dê um centímetro de valor.

Lágrimas de novo. Muitas lágrimas. Embaciam os olhos até cair e depois? Continuo a escrever.

Com a língua aparo as lágrimas. Não quero parar para as limpar. Cheguei onde tinha de ser. Já percebi o que tenho. Quero que alguém de dê valor.

Um dia destes enviei um mail para alguém que não é das áreas que julgo que me realizam, mas que está perto. Queria tanto fazer uma coisa. Mas como?

Parei. Ruí uma unha. Pensei no que queria dizer.

Já não sei

...

Olá Luísa. Descobri hoje o seu blogue. Leio-a no Destak. Li o ALMA todinho. E lembrei-me de si porque tenho o NÃO DIGAS A NINGUÉM a olhar para mim. Ainda nem o comecei. Estou a acabar outro que estava a ler.

...

Não sei bem o que lhe disse. Do que serviu?

As lágrimas pararam.

Escrevi - deu para apagar o desejo mais um pouco.
Sonhei - deu para chorar mais um pouco.
... e pensei - envio este 'comentário' à Luísa?

Talvez, quem sabe. Mas penso o mesmo de quando enviei o mail a RFR. O melhor é não esperar nada.


As férias fazem-me mesmo mal. Em dois dias envio palavras a pessoas que não conheço e que não me conhecem. Não anda a correr nada bem...

Beijinho,
Xavier


De Márcia Magro Gomes a 21 de Janeiro de 2010 às 10:45
Bom dia Luísa....
Começo por lhe dar os Parabéns por este seu livro "Não digas a ninguém", ofereci-o à minha mãe neste último Natal, ela "devorou" o livro em 4 dias, disse-me que era impossível para de o ler de tão bom que era a sua história. Pedi-lhe emprestado e comecei a lê-lo à dois dias e tudo indica que o termino hoje. Estou completamente vibrada no livro, a história está simplesmente fantástica, é envolvente e todas as páginas seguintes deixam sempre mistério no ar, daí a minha dificuldade para parar de o ler, ainda esta noite já eram, 00h.35m e disse para mim mesma, tenho que fechar o livro, pois amanhã espera-me um dia complicado no trabalho, e realmente lá o consegui fechar e posei-o na minha mesa de cabeceira, após ter lido mais umas 6 páginas. Era 01h.45m da manhã e estava cheia de insónias devido à sua história...não parava de me vir à cabeça as personagens e as suas histórias envolventes... Bom espero terminar hoje o livro, sabe que mais, até vou ter pena que ele termine, há muito que um livro não me "prendia" tanto!. Irei comprar a seguir" Alma e os mistérios da vida" e desejo que seja tão envolvente como este...
Tudo de bom para si... e continue a surpreender-nos com histórias maravilhosas.
Beijinhos


De Amiga invisível a 22 de Janeiro de 2010 às 12:12
Olá Luísa,

Um dos meus maiores medos é a solidão!
Enquanto somos novos e bonitos não faltam "satélites" a girar em torno de nós, mas tudo é passageiro! TUDO!
Não nos enganemos pois aquilo que presenciamos hoje vamos ter amanhã!
Tenho um filho pequenino e todos os dias penso que tenho que absorver ao milímetro os momentos, beber as alegrias, alimentar-me deste amor incondicional e sem limites que agora tenho diariamente, mas que um dia, não deixando de ter, vou ter de forma diferente e desapegada!
Soltar as amarras compete-nos!
Deixá-los voar...
E depois, tornamo-nos nessas Alices intemporais que vemos todos os dias e em todos os lugares...
Essas Alices esperam-nos de braços abertos!
Essas Alices somos nós.....Amanhã!

Abraço

Amiga invisível


De anonimo a 22 de Janeiro de 2010 às 21:54
Existem milhares de Alices espalhadas por este mundo fora, talvez mais até do que aquelas que possamos imaginar.
Todos temos um pouco da Alice.
Eu conheço uma Alice muito especial, a qual eu espero que seja muito feliz.
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Existem milhares de Alices espalhadas por este mundo fora, talvez mais até do que aquelas que possamos imaginar. <BR>Todos temos um pouco da Alice. <BR>Eu conheço uma Alice muito especial, a qual eu espero que seja muito feliz. <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Parabens</A> Luísa


De Anónimo a 27 de Janeiro de 2010 às 15:39
Cara Luísa,

Só para dizer que estou a gostar imenso do seu último livro.
Deveras surpresa com tal história!!
De si só conhecia a enorme capacidade de comunicar, mas com esta escrita, fiquei fã.
Parabéns.
Bem haja


De Carla Nogueira a 27 de Janeiro de 2010 às 22:10
Gostei!
Infelizmente nos dias que correm existem muitas Alices como esta.


De Sorriso a 29 de Janeiro de 2010 às 15:42
O meu nome não é Alice, mas hoje sinto-me como ela.
Adorei o texto que retrata tão bem algumas mulheres portuguesas. Mulheres cheias de força sempre com um sorriso nos lábios para não preocuparem os outros e esquecendo-se delas próprias
Ao ler o texto percebo que tenho de fazer algo por mim quanto mais não seja sentar-me no banco de uma igreja e pensar no que está errado em mim para melhora a minha vida.
Sorriso



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