Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
As horas que não passam

 

As horas passam como gotas de chuva a escorrem na vidraça da janela.

Eu sentada a olhar para o vazio, que há muito que perdi a rua, os carros e tudo.

A noite apareceu de repente e eu não dei por isso. Só a luz amarela dos candeeiros da rua: um, dois, três, derramada sobre o sofá, a carpete e a escorrer pelo chão de madeira.

O silêncio comeu tudo. Este silêncio pesado que abraçou a minha vida como se do fantasma da morte se tratasse. Entrou devagarinho, sorrateiramente pela calada da noite e depois foi-se deixando estar, cada dia um pouco mais até ocupar toda a casa, até ocupar todo o meu corpo.

Não quero olhar para as fotografias que teimosamente ainda não consegui retirar da sala e me mostram outra que já não sou a rir, de braços abertos para a vida, coração leve e desbragado.

Não quero mexer-me. Sei que se esperar mais um pouco vou deixar também de respirar. Sem esforço. Sem que me doa sequer.

O telefone que não toca. A campainha da porta que não se ouve e a luz amarela dos candeeiros que parece brincar com os desenhos do tapete.

Havia um gato preto, gordo, que aparecia na minha minúscula varanda. Ainda lhe dei de comer, tentei afagá-lo mas eriçou o pêlo e esquivou-se. Um dia deixou de aparecer. Tenho a certeza de que o silêncio lhe pesou tanto quanto me pesava a mim no início, quando o meu corpo ainda teimava em mexer-se.

Agora, o verdadeiramente difícil é mover um só músculo. Verter uma última lágrima.

Se ficar aqui até ao fim, quem sentirá a minha falta?

Não tu, seguramente, não tu


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publicado por Luísa Castel-Branco às 13:00
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9 comentários:
De G.S. a 9 de Fevereiro de 2010 às 16:38
Belíssimo, o texto! Uma prosa poética muito sensível!

'O poeta é um grande fingidor...' - nem Pessoa acreditou quando o escreveu!



De sandra a 9 de Fevereiro de 2010 às 22:23
luisa,que tristeza me deu ao ler o que escreveu ,decerto não é real..aproveito para lhe dizer que sempre gostei da sua personalidade..e que ás vezes tbm me sinto assim..mas com toda a certeza há alguem sempre com uma dor maior que a nossa.abraço


De Anónimo a 9 de Fevereiro de 2010 às 22:41
QUERIDA LUÍSA...PERMITA-ME QUE A TRATE ASSIM, MAS AO LER ESTE SEU PEQUENO TEXTO, ACHEI QUE ESTAVA MUITO TRISTE POR DENTRO, NUNCA DEVEMOS PERDER A FÉ EM TUDO O QUE NOS ACONTECE NA VIDA...PORQUE A VIDA ESSA TEMOS QUE A ACEITAR COMO ELA É, POR VEZES BEM INGRATA EM MUITAS COISAS QUE NOS ACONTECE INJUSTAMENTE, EU SEI QUE NÃO É FÁCIL ULTRAPASSARMOS CERTAS COISAS QUE MEXEM TANTO CONNOSCO MAS TEMOS MESMO QUE DAR A VOLTA, E FORÇA QUE EU SEI QUE TEM BASTANTE DENTRO DE SI, PORQUE SE VÊ QUE É UMA MULHER COM UMA GRANDE ALMA...
CUMPRIMENTOS
PAULA


De amigos do concelho de aviz a 10 de Fevereiro de 2010 às 00:17
É em defesa da cultura que convido todos os interessados a participarem nos VIII Jogos Florais de Avis, uma iniciativa dos Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural e cujo regulamento pode ser consultado em: www.aca.com.sapo.pt
Fernando Máximo


De Caravaggio a 10 de Fevereiro de 2010 às 00:29
Parabens pelo blog, está mesmo FAINE. Parabéns


De Marai a 10 de Fevereiro de 2010 às 01:05
Espero que este texto seja uma ficção literária. Se não for, digo que vou sentir a sua falta, descobri o seu blog à pouco tempo e ele faz-me muita companhia.
Marai


De Headhunter Madrid a 10 de Fevereiro de 2010 às 10:38
Parabéns pelo blog e principalmente delo destaque no sapo blogs


De Nuninho a 10 de Fevereiro de 2010 às 11:55
olá, Bom Dia!
Também eu estou nesse mesmo silêncio que tu estas atrevassando!
Fico doido por ouvir o telemovél tocar com noticias que me abrem o coração, se não te impoortares vou fazer uma referência no meu blog, não precisas de te preocupar que vou deixar lá no meu blog, a referência do teu!
Posso fazer?

Bj


De Pelintra a 10 de Fevereiro de 2010 às 14:33
Eh pá! Então? Fume uma passa que isso passa ( a sua filha há-de conhecer um coleguinha mais malandreco ). Bem, até pode piorar mas se não piorar melhora com certeza . Nesse caso, bote um jazzinho ou música brasileira das antigas ou Cesária Évora ou qualquer coisa swingada , uma touca a tapar os rolos e mude a casa toda. Pode bebericar uns uísquezinhos pra pontuar intervalos nas arrumações. Seja "une vielle dame indigne" por uma tarde. Importante - as tarefas domésticas devem ser efectuadas como quem dança.


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