Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007
...
Gosto do cheiro da terra molhada. Das gotas de orvalho sobre as folhas e flores, como se fossem pérolas transparentes. Gosto das mutações do azul do céu quando nasce o dia e quando o dia morre. Como se fosse uma tela gigante em que algum Anjo, Arcanjo ou simplesmente uma criança a sonhar, desenhou cores impossíveis de reproduzir.
Gosto das nuvens. Da dança das nuvens que se entrelaçam e formam imagens fantásticas. Se olharmos bem, com os olhos do coração, podemos ver cavalos alados, castelos e carneiros a saltar.
Gosto de todos os verdes que a natureza nos oferece. E são milhares! A maior parte das pessoas passa pelas árvores sem as cumprimentar, sem lhes agradecer a beleza. A maior parte das pessoas acha que uma flor é uma flor e não um acto divino. Uma perfeição que mereceu seguramente longos momentos de reflexão ao Criador.
Os Deuses ou Deus ou apenas o Cosmo, deliciaram-se seguramente a criar os pássaros nas suas tonalidades luxuriantes.
Gosto das pedras. De todas as pedras porque são intemporais e têm histórias por contar.
Gosto do vento porque embala tudo e é a orquestra que conduz uma sonata a quem tudo e todos obedecem. Das cearas às grandes arvores, das saias das senhoras nos passeios de Lisboa, até à roupa no estendal.
Gosto de ouvir a campainha que toca no colégio nas traseiras da minha casa. E as crianças soltam-se e povoam o recreio e os gritos de alegria e os jogos de bola e as meninas com laços.
As crianças são o melhor do mundo. Pessoa tinha razão.
Elas dão-nos sem qualquer esforço, sem o quererem ou saberem, um vislumbre do futuro imenso que têm pela frente, e da limpidez de alma e coração.
Os olhos das crianças não vêem o mundo como nós. E por isso mesmo, só elas, os poetas e os loucos conhecem a verdade.
Gosto de ouvir o latir dos cães pela noite fora.
Recordam-me a minha infância e as ferias passadas no campo, lá onde havia estrelas pregadas no céu como pérolas num vestido de seda, e perfumes tão verdadeiros que ninguém nunca os poderá imitar e muito menos esquecer.
Gosto do cheiro do pão quente. Do café acabado de fazer, do bolo que sai do forno e nós todos agarrados à mesa, as cabeças mal ultrapassando a tábua grande no meio da cozinha e os aromas que se misturam como se fossem um só.
Gosto de histórias felizes. De gente feliz. De fazer os outros felizes.
Gosto de conhecer tanta gente que com tão pouco sabe ser feliz. Porque esses são os detentores de um segredo que vale mais do que o ouro. Porque esses são os verdadeiros heróis.
Gosto de historias de encantar, que começam sempre da mesma forma:”Era uma vez...”
E gosto da chuva. Do cheiro da chuva. Da música da chuva. Dos desenhos que a chuva faz nas vidraças, dos rios que esboça na calçada e que temos a certeza que são tão magníficos como o Tejo e têm caravelas escondidas.
Gosto do silêncio povoado de sons. Do silêncio que as pessoas não ouvem porque estão demasiadamente ocupadas com a necessidade de viver com urgência.
Mesmo em Lisboa, o silêncio da noite é povoado. Há corujas. Os eléctricos roçam os carris como se fossem cavalos à solta. Ao longe ouvem-se vozes e como qualquer criança poderá explicar, são as fadas que brincam sob o luar.
 
 
 
 


publicado por Luísa Castel-Branco às 11:14
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16 comentários:
De aqui_ao_lado a 22 de Agosto de 2007 às 13:39
Olá Luísa , Obrigada pelo que me fez ver e sentir. Gostei muito. Um abraço. Fil


De Anónimo a 22 de Agosto de 2007 às 14:23
Por momentos as suas palavras fizeram-me transportar a coisas que não vivi. Mas através destas palavras eu sonhei que estava lá.
Senti, cheirei, toquei, amei, sorri...mas que magia tem a sua escrita...
Obrigada Luísa

Com amor Zulmira


De dolce_vita a 22 de Agosto de 2007 às 17:52
Olá Luísa
Procurei por si estes dias, hoje aparece com um encanto, em si nato, as palavras sentidas de quem conhece muito bem a vida de todos nós. Conhece porque é um de nós é atenta...a vida não está fora de si mas em si ,em nós. Gosto muito do que escreve ,do amor que deposita nas palavras dos medos, das ansiedades...dos afectos. O seu comentário a uma das leitoras foi como uma âncora. Só quem conhece e sabe do que os outros falam percebe.
Obrigada pelas suas palavras também elas se dirigem a mim
Um abraço


De arco íris a 23 de Agosto de 2007 às 00:53
Adorei!
Por momentos, senti todas estas sensações, não tenho o som dos electricos, não chove, não estou de férias no campo, não estou em Lisboa, mas transmitiu-me paz, fez-me sonhar com momentos perfeitos, em que vemos tudo o que nos rodeia com outros olhos, e encontramos coisas belas às quais nunca demos atenção por andarmos demasiado ocupados.
Um Beijo


De angel a 23 de Agosto de 2007 às 14:11
Gosto..muito do seu post...
Um Bom dia...


De csantana a 23 de Agosto de 2007 às 17:08
Oh..Luisa ainda bem que voltou todos os dias venho aqui.
Gosto imenso de ler o que escreve, adorava escrever assim.

Cidália


De TiBéu ( Isa) a 24 de Agosto de 2007 às 12:55
Olá
Li com muita calma e apreciando paragrafo a paragrafo , senti o cheiro do café, bolo, pão quente, etc. enfim uma sensação espectacular que consegui viver. Adorei o texto, está lindo , não se esperava outra coisa, vindo de quem vem.
Luisa é uma pessoa que eu admiro muito.
Votos de um excelente fim de semana.


De Anónimo a 24 de Agosto de 2007 às 14:20
Gosto de ler palavras soltas. Palavras como estas que deixou fluir no seu último post. Faz-me lembrar o vento, pensamentos soltos que passam por todos, mas que apenas alguns parecem ouvir. Gosto de escrever, de me sentir solta sem entoar um único som. Tenho aprendido a respeitar o silêncio, a acordar com um sorriso e a apreciar a tela de cada dia. Gosto de a ouvir, de "a ler"..., de ver a força das mulheres, vendo em si um exemplo do mesmo. Não canto elogios, gosto apenas de falar do que se constata. Espero que muito para além do sucesso, tenha saúde, seja feliz e que continue a escrever como se o amanhã fosse incerteza. **


De Ermelinda a 24 de Agosto de 2007 às 14:32
Não existem palavras suficientes para lhe dizer que escreve com uma magia que nos faz transportar integralmente para o texto e parecer que estamos dentro dos instantes que descreve e das sensações.
Ainda bem que existem pessoas como a Luísa com um puder de escrita tão singelo e tão profundo.
Muitas felicidades.


De Guida a 24 de Agosto de 2007 às 17:28
Boa tarde, Luísa!
Li o seu nome na página inicial do Sapo e vim a correr visitar o seu blog.
Onde está aquele misto de frieza e brusquidão com que por vezes se apresenta na TV? Estou a brincar, não era nada disso que esperava encontrar - mas, sinceramente, também não esperava esta enorme sensibilidade.
Mais que uma grande profissional (que é, sem dúvida alguma), adivinho em si uma mãe maravilhosa e uma mulher de força excepcional.
Continue, é com exemplos como o seu que as demais mulheres deste país devemos aprender a trazer ao cimo o que temos de melhor e a tentar deixar para trás as agruras que, por vezes a vida se encarrega de nos dar.
Se me permitir, continuarei a visitar esta sua "casinha".
Um beijinho e um sorriso.


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