Terça-feira, 16 de Março de 2010
Para A.

 

Sei que Deus tem um projecto para mim.
Mas por mais que eu procure não o encontro.

Os dias confundem-se com as noites e cada dia é mais difícil do que o anterior. Sinto-me vazia de forças, lágrimas ou sentimentos.
Pouco a pouco a apatia tomou conta de mim. Qualquer movimento é um esforço desumano.

Qualquer pensamento perde-se no nevoeiro que tomou conta da minha cabeça.
Como se fosse algodão doce, aquele que havia na feira quando eu era pequena.
Os perfumes de outros tempos, de outra vida que tive, esses estão tão presentes como as cores e os sabores.

Como se essa outra vida fosse quase um sonho idílico, sem máculas nem dores.
E ainda que eu saiba que é mentira, que esta tristeza que me veste já existia então, refugio-me nesse sonho por me recusar a viver nesta vida.

Talvez, afinal não haja projecto algum. Talvez nem haja Deus mas apenas aqueles desenhos que me amedrontavam nas aulas de catequese, a culpabilização que é a nossa segunda pele.

Talvez viver se resuma a isto. O cumprimento das obrigações, os anos que passam e nos vestem o rosto de rugas e o coração de decepções.
Talvez aceitar que melhor é impossível devesse ser o suficiente.

Tão logo chego a casa vinda do trabalho, escondo-me na cama.
É o meu casulo. O meu castelo. A minha mortalha também, eu sei.
Aos poucos cortei todos os cordões que me ligavam aos outros. Fechei-me dentro de mim. Não me telefonem, não batam à porta, não falem comigo.

Então, porque continuo a sofrer?

 

in Destak 15 | 03 | 2010  


tags:

publicado por Luísa Castel-Branco às 13:51
link do post | comentar

8 comentários:
De Filipe Almeida a 16 de Março de 2010 às 16:54
Isto é exactamente aquilo que eu sinto. Sem tirar nem por. O mais perfeito espelho da minha vida.

Mas também não tenho resposta à pergunta.


De P a 16 de Março de 2010 às 22:00
Olá
Li o seu texto no autocarro no jornal destak
identifiquei-me com o que escreveu e meteu por escrito como me sinto e tantos outros...
obrigado pelo texto


De Helena A. a 19 de Março de 2010 às 00:37
Melhor deve ser mesmo impossível. Há dias e dias e alguns são negros, em que a vida parece pesada demais para se aguentar, em que tudo é posto em questão. Também os tenho, mas a questão é: quem não os terá? E porque é que continuamos a sofrer? Porque estamos vivos e, como tal, temos que lidar com as decepções, com a doença, com o tal projecto idealizado que afinal era inexistente e com a desorientação de sentido para a vida. Mas depois também há aqueles dias em que o sol brilha, corre uma brisa agradável, alguém nos sorri e retribuimos e aí as coisas já se encaixam menos mal. É preciso levar a vida dia a dia, para aqueles - como nós - que já tiveram desilusões, decepções, doenças. E é preciso acreditar que a vida deve ser celebrada, mesmo que não estejamos tão intactos como era suposto estarmos ou como gostaríamos de estar, quer física quer psicologicamente. Os sentimentos negros ocorrem, mas é preciso superá-los, nem que seja ocasionalmente. Vale a pena estar aqui, temos que acreditar, até porque estamos mesmo de passagem. Tudo de bom. Fico a aguardar outros textos seus.


De sentimentos a 1 de Abril de 2010 às 11:55
Sem palavras...
Só uma. Obrigada. Obrigada pelo mail em resposta ao meu,pela compreensão, pela amizade, pelos conselhos, de uma especialista em coisa nenhuma, mas de certeza que em coisas nenhumas fúteis, porque do resto é mesmo um espectáculo! Não por ser figura pública, nunca liguei muito a isso...mas por ter realmente o dom da palavra, por saber transcrever todos os nossos sentimentos, ao mais intimo pormenor.
Hoje, tal como sempre, gostei de a ver na televisão! Está sempre bem!
Obrigada Luisa, por existir.
Um grande beijinho
Maria


De sentimentos a 21 de Abril de 2010 às 14:33
http://coisasdetodos.blogs.sapo.pt/
Para si Luisa, e para todas as mulheres perdidas que não se encaixam neste universo, tal como eu.
Beijo


De isabel abreu a 29 de Abril de 2010 às 16:25
Em resposta à pergunta,porque continuamos a sofrer, eu penso que o pior que se pode fazer é do tipo não me batam à porta, não telefonem, não falem comigo, embora eu faça exactamente a mesma coisa...sei o que isso é.
Mas, ao menos no meu caso, acho que só é penoso quando não encontramos outras pessoas que se identificam connosco, que sentem o mesmo ou parecido, muitas vezes pelas mesmas razões...então a solução seria justamente conviver com essas pessoas, partilhar os sentimentos...fazer isso acabaria com a solidão que penso é a verdadeira causa do sofrimento, não? Um abraço


De Carina Silva a 9 de Maio de 2010 às 22:16
Sem dúvida,este texto reflecte a minha vida e tudo o que sinto neste momento.


De lena a 9 de Outubro de 2011 às 19:53
dificil nao sentir a identificação comigo propria.........
beijinhos e obrigada por partilhar o que tanto tentamos esconder


Comentar post

.links
.pesquisar neste blog
 
.mais sobre mim
.tags

. todas as tags

.arquivos

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Setembro 2012

. Maio 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Fevereiro 2007

. Dezembro 2006

. Setembro 2006

blogs SAPO
.subscrever feeds