Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007
Desculpem-me!
 
A porta das urgências abre e fecha, fecha e abre num vaivém constante. Tenho os olhos fixos na porta de vidro como se esperasse, não sei, que desaparecesse e com ela o banco de pedra onde estou uma vez mais sentada, o hospital, tudo.
O mesmo banco, o mesmo hospital, a mesma dor a apertar-me o coração. Um ano depois, dois anos depois, há três foi a minha vez mas noutro hospital, noutras portas que abriam com certeza da mesma forma mas que eu não conseguia ver.
A vida é isto eu sei, desculpem-me. Desculpem-me estar para aqui a desabafar, quando tantos têm escrito sobre a tristeza dos meus textos.
Mas tenho medo de hospitais. Tenho medo daquela porta que abre e fecha e não sei se foi a ultima vez que vi quem ali entrou e já não saiu hoje.
A canícula aperta. O banco de pedra ferve. Ao meu lado um homem faz palavras cruzadas. Uma criança incrivelmente gorda pergunta-lhe:”Como te chamas?” e ele nem levanta os olhos do jornal. Do outro lado, a mãe, incrivelmente gorda;”Vanessa, vem para aqui!”. Podia ser outro sítio qualquer, porque há gentes por todo o lado, gente a conversar, a fumar, crianças que correm:”Vanessa eu já te avisei!” mas de repente chega uma ambulância, ou alguém chora alto no átrio do hospital.
Será isto o limbo? Serão as portas de vidro que não param nunca a primeira paragem para o lado de lá?
As lágrimas caiem-me pelo rosto. Eu sei que é a vida. Eu sei que é normal a partir de uma certa idade temos que nos habituar à ideia de que as pessoas partem, eu sei tudo isso, mas as lágrimas são teimosas e correm-me pelo rosto.
A última vez que me sentei neste banco de pedra não voltei a ver quem passou as portas.
Ah! Esta fase da vida em que os outros precisam de nós, em que é chegado o momento de dar a mão e apoiar quem parte, mas onde está a força? Onde está a Fé? Quem me toma a mim nos braços e me tapa os olhos e os ouvidos e diz:”Já passou!” e o hospital desaparece, a dor no meu peito também, e a morte, este viver diário a assistir à alma a apartar-se do corpo, termina?
Sou egoísta. Eu sei, desculpem-me mas estou cansada.
Os dias são uma sequência de portas de vidro que se fecham e abrem sem parar, sem dar sossego e eu apenas vislumbro rostos em sofrimento, e não sei como aprender a dizer adeus.
“Eu vou sentar-me aqui ao pé da Dona Luísa” diz uma senhora aconchegando-se no banco de pedra, entre mim e o homem das palavras cruzadas, e antes que eu tenha tempo para limpar as lágrimas”Gosto tanto de ver a sua filha! E a senhora quando volta à televisão? O meu marido também teve um enfarte porque fuma como a senhora e...”
Colo um sorriso estúpido na cara, e deixo de a ouvir, recolho-me dentro de mim e sorrio como uma boneca de plástico.
Queria ser transparente, mas não sou. Mentira, sou. Sou apenas a senhora da televisão que tem uma filha na televisão.
E ali ao meu lado, sem o écran pelo meio, ela nem repara nas minhas lágrimas.
As pessoas são simpáticas comigo. Não fiz nada que merecesse o carinho que me demonstram:”A Dona Luísa também não deixou de fumar, pois não?”
Ah! As malditas portas de vidro e eu que quero fugir e não tenho para onde!
 
 


publicado por Luísa Castel-Branco às 19:15
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22 comentários:
De Sergio Alex a 24 de Agosto de 2007 às 19:32
Olá

Descobri o blog da Luísa hoje e gostei.

Felicidades


De isabel araujo a 24 de Agosto de 2007 às 23:43
Sra. Luisa realmente tem razão hospitais nem vê-los mas a vida é ter que passar por eles, porque se não fosse o hospital a sra. e outros como a sra. não eram a vida, estamos todos neste "barco" sejam ricos, pobres, senhores da televisão ou não, interessa é ter quem nos aconchegue nos momentos mais tristes das nossa vidas, vamos agradecer aos hospitais a ajudam que dão em salvar vidas e a quem ainda tem amor para dar, tenha coragem à sempre um anjo a olhar por nós. Boa noite Sra. Luisa de uma mulher que gosta da vida e tem medo da morte.


De csantana a 29 de Agosto de 2007 às 17:13

Entendi o que escreveu, Luisa sou igualzinha escrevia o mesmo se soubesse escrever assim como a Luisa,

Eu sei que os Hospitais nos salvam a vida, mas entendi perfeitamente o que escreveu mesmo não sendo comigo eu choro mal vejo alguém em sofrimento.
Aqui á uns anos andei sem dormir só me vinha a ideia o rosto das pessoas que vi entrar no Banco de S. José
As maiores Felicidades escreva sempre, faz bem a quem lê porque e a vida de alguém normal.


De dolce_vita a 25 de Agosto de 2007 às 00:06
Luísa
Mais uma vez nos afaga as dores com as suas próprias dores. Ah ! essas portas...que se abrem e fecham, portas de vidro, nem sempre brilhantes, são como a vida de tantos que as cruzam, dos que vertem lágrimas, dos que calam o grito, dos que apertam a dor num peito já desfeito...dos momentos solitários num banco frio de pedra num hospital qualquer. Cruzamos olhares perdidos, mortiços com os iguais a nós. Também já me sentei nesses bancos, já cruzei as portas de vidro que fecham...e abrem...já apertei as mãos e deixei que se agarrassem às minhas, já me despedi das dores de outros tornando-as minhas...em silêncio inconfessável carpi mágoas e lágrimas...e sempre as mesmas portas, abrem e fecham.
Sinto as suas palavras como as usurpasse de si.
estamos todos , minha amiga nesse vaivém de portas de vidro que se abrem e fecham.
Um abraço e mais uma vez obrigada por "falar", "dizer"o que tantos de nós temos empedernido no peito com vontade de explodir.
Seja feliz!


De arco íris a 25 de Agosto de 2007 às 00:47
O mesmo hospital.
As mesmas portas de vidro que abrem e fecham sem parar.
A mesma sensação, a minha mãe há 5 dias teve um avc, pede a bengala e os chinelos para se lavantar.
O mesmo cigarro que não vejo razão para apagar.
Mas não tenho uma filha na televisão.
Tenho um filho com depressão, crises de panico que o impedem de se realizar profissionalmente porque ninguém entende e a vida não está programada para pessoas como ele.
Mas eu preciso de transmitir esperança e segurança, anestesio o sofrimento, a dor, o medo.
E mantenho o sorriso.

Obrigada Luísa pela sua deliciosa escrita.
Escreva o que lhe vai na alma, na sua, na minha, na de outros.
Mas por favor, não desanime.
Amanhã é outro dia!


De Tica a 25 de Agosto de 2007 às 10:47
Um beijinho emocionado por me ter tocado daí-aqui.
Tica


De Sonha... a 25 de Agosto de 2007 às 14:07
As portas que abrem e fecham todos os dias!.. É difícil acreditar para alguém da minha idade que todos os dias morrem pessoas, que a todas as horas e minutos aquelas portas abrem para não mais abrirem para a pessoa que entrou!... Amo a minha vida, só quero sonhar e sorrir, obviamente ser FELIZ. Odeio pensar que um dia serei eu e aquelas portas e que entro para não mais sair. É um pensamento assustador que causa pânico, mas como todas as coisas temos de tentar "passar por cima"! E continuar a Sonhar a Sorrir e a SER muitoo feliz!


De limiana a 25 de Agosto de 2007 às 15:26
Olá Luisa Castel-Branco.

Gostei imenso da sua crónica...mas como a Srª, existem casos ainda piores...não deve desanimar....Por exemplo eu! Tive um cancro, fiz uma mastectomia e na altura tinha uma filha de 7 e outra de 10 anos! A vida continua, sou feliz à minha maneira...porque adoro viver...
Beijinhos e façam o favor de serem felizes (já ouvi esta fraze em algures...)
Maria
limi_ana@hotmail.com


De pi10 a 25 de Agosto de 2007 às 15:37
Olá ,
Descobri hoje por acaso este blog e achei-o , de facto, muito triste. Mas é assim a vida ...
Também a mim aconteceu de passar por fases depressivas. Para além dos medicamentos propostos pelo meu médico, que cumpri ao pé da letra (eu gosto pouco das dependências medicamentosas), utilizo um truque ensinado por uma amiga minha. Simples e grátis : Fazer grandes caminhadas. Trata-se de andar a pé, em sitio plano, que não sou masoquista. A única regra é que no mínimo se deve andar 1 hora e de preferência depressa. A consequência é que a tristeza diminui, posso até dizer que se fica um pouco eufórica quando à partida não se ia triste. Isto tem uma explicação cientifica . De facto, o cérebro produz anfetaminas naturais para ajudar o corpo a suportar o esforço físico , isto ao fim de um certo tempo de exercício continuo. Por isso é necessário caminhar pelo menos uma hora. Pessoalmente quando é a titulo paliativo, prefiro caminhar sozinha para pensar em paz no que me preocupa, mas também é agradável fazê-lo acompanhada de uma boa amiga que conversando nos ajude a analisar mais objectivamente as situações.
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Olá , <BR>Descobri hoje por acaso este blog e achei-o , de facto, muito triste. Mas é assim a vida ... <BR>Também a mim aconteceu de passar por fases depressivas. Para além dos medicamentos propostos pelo meu médico, que cumpri ao pé da letra (eu gosto pouco das dependências medicamentosas), utilizo um truque ensinado por uma amiga minha. Simples e grátis : Fazer grandes caminhadas. Trata-se de andar a pé, em sitio plano, que não sou masoquista. A única regra é que no mínimo se deve andar 1 hora e de preferência depressa. A consequência é que a tristeza diminui, posso até dizer que se fica um pouco eufórica quando à partida não se ia triste. Isto tem uma explicação cientifica . De facto, o cérebro produz anfetaminas naturais para ajudar o corpo a suportar o esforço físico , isto ao fim de um certo tempo de exercício continuo. Por isso é necessário caminhar pelo menos uma hora. Pessoalmente quando é a titulo paliativo, prefiro caminhar sozinha para pensar em paz no que me preocupa, mas também é agradável fazê-lo acompanhada de uma boa amiga que conversando nos ajude a analisar mais objectivamente as situações. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Quiz</A> aqui contribuir com a minha experiencia de mulher no sair da dor porque penso que depois de se ir ao fundo à única saída é voltar ao de-cima. Sei também que as experiencias difíceis , quando ultrapassadas, nos fazem mais fortes para o futuro. <BR>Pequeno detalhe : não vivo em Portugal e quando vou de férias não vejo televisão, por isso não sei quem é nem quem é a sua filha, e desculpe, não me parece que isso tenha qualquer importância . Qualquer que seja a sua notoriedade é evidente que esta a precisar de ajuda para sair dessa depressão. <BR>O meu teclado não é o que convém para escrever em português, por isso me faltam certas letras acentuadas e para além disso já sai há tanto tempo do pais que perdi parte das minhas qualidades ortográficas . <BR>Até já


De paulavi a 25 de Agosto de 2007 às 15:44
Olá, Luísa!
Gosto muito de si, mas não gosto de erros ortográficos. Quando vejo um, todo o conteúdo seguinte do texto não é absorvido à primeira, pois passo a procurar outros erros. Digamos que é culpa da minha professora do 1º Ciclo... Não é "as lágrimas CAIEM-ME", mas sim "as lágrimas CAEM-ME".
Beijinhos.


De Anónimo a 25 de Agosto de 2007 às 16:12
olá Luisa, estava eu a navegar na net quando tomei conhecimento do seu blog.
Sou uma mulher mais ou menos da sua idade e infelizmente já tive também oportunidade(antes não tivesse) de estar junto ás portas de vidro esperando alguém, uma notícia, um recado.È deveras asfixiante. Até que um dia me levaram alguém que me tem feito muita falta, e já lá vão 12 anos. A partir daí comecei a dar muito mais valor à vida, mas ás vezes esqueço-me.....
Permita-me que lhe dê um conselho, viva a vida, aproveite enquanto pode.E, vá escrevendo para nós, eu também gosto muito de escrever, mas falta-me o tempo e ás vezes a paciência..até já pensei em criar um blog.
um beijinho
fernanda


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