Quarta-feira, 2 de Junho de 2010
O silêncio da vida
OPINIÃO

No início, é a capacidade de sonhar que se desvanece, devagarinho, quase sem darmos por isso. Depois, deixamos de ter expectativas, porque doem de mais, cada uma parece conduzir a mais um desengano, mais alguém que nos deixa magoados, perdidos perante a realidade. Depois, pouco a pouco, um pedacinho de cada vez, o silêncio instala-se dentro de nós, toma conta da alma e do coração, larga amarras e não parece que um dia parta.

Então submergimos nos dias, nas rotinas. Fazemos o que é esperado, sem levantar a voz, sem queixumes ou argumentações. Para quê? Não vale a pena.
E é quando chegamos aqui, a este momento exacto em que descobrimos com surpresa que nada parece valer a pena, que enco-lhemos como uma flor murcha, sentimos sem saber como, que definhamos por dentro, dia após dia.

Os outros dirão que ganhámos maturidade, que somos agora pessoas muito mais cordatas e pacificadoras. E nós acenamos com a cabeça, colamos o sorriso na cara e dentro de nós uma vozinha grita que não, que agora estamos a morrer e dantes vivíamos. Mas a vida é isto mesmo. Se calhar, o mesmo acontece àquele que trabalha ao nosso lado, à vizinha do terceiro andar, à amiga de toda a vida.

Mas evitamos falar do assunto, como se ao transformarmos este mal-estar em palavras, ele se tornasse muito mais real, muito mais concreto. É mais fácil assim. Sentamos à mesa e ouvimos os filhos falarem, tão cheios de certezas, tão seguros de si. E vêem-nos à memória o tempo em que também tínhamos certezas, o tempo em que não nos rendíamos, ah! Foi há tão pouco e parece ter sido noutra vida!

 

in Destak 31 | 05 | 2010



publicado por Luísa Castel-Branco às 11:44
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4 comentários:
De sentimentos a 2 de Junho de 2010 às 14:11
Olá Luisa.
Bem, mais uma vez não posso deixar de a felicitar pelo dom das palavras. Pela capacidade de saber transcrever todos os meus sentimentos e pensamentos, medos e esperanças. E este texto transmite-o mais uma vez...mesmo em cheio no que sinto agora, neste momento, neste minuto. Engraçado como é a vida. Assim como transcreve os meus estados de espirito tenho a certeza de que o faz com muitas mais, muitas mais pessoas, homens e mulheres que todos os dias visitam aqui o seu coração, e se enquadram perfeitamente nesta linguagem espiritual.
Um bem haja por tudo, gostava muito de a conhecer e poder um dia dar-lhe um abraço forte.
Um beijinho. Maria


De joão almeida a 3 de Junho de 2010 às 14:52
Luisa a forma como escreve faz-me recordar momentos não muito longiquos da minha juventude.
Quando somos jovens temos o Mundo na palma da mão, depois vamos sendo encostados, encaixotados como se esse mundo não precisasse de nós. Luisa, o que seria do mundo sem a experiencia e o saber acumulado dos mais velhos, por mim falo, nunca me resignarei a ser um objecto ou uma jarra. O sangue que me corre dentro das veias, será sempre um sangue de lutador pela e para a vida.
Adoro a sua escrita, um bem haja.
joão almeida


De Lorenzo M. a 11 de Junho de 2010 às 12:48
Depois, por mero acaso, entramos num restaurante e descobrimos um pedaço de vida que nos volta a encher com a ideia de que ainda existem pessoas fabulosas e humanas...

Ass: Carneiro-com-ascendente-em-Sagitário-que-comete-o-crime-de-pedir-bife.


De Margarida Teixeira a 17 de Agosto de 2010 às 18:58
Já não lia as suas palavras à muito tempo... normalmente venho aqui quando estou mais triste, introspectiva, quando quero esperar menos da vida! Sempre que leio o que escreve identifico-me com algo que diz, umas vezes mais que outras, mas sempre! Admiro-a muito, a coragem que tem de partilhar o que lhe vai na alma com tanta gente que sente o que a Luísa sente e que precisa de saber que não é única nos sentimentos de desilusão, desencanto e tristeza...
Bem haja


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