Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010
Diz-me a verdade, mesmo que mintas

 

Jura que vamos sentarmo-nos lá fora no jardim, o frio a lamber-nos o corpo, eu aninho-me em ti e ouvimos as estrelas e olhamos o silêncio cortado pelo vento nas folhas dos pinheiros.

Diz-me a verdade, mesmo que mintas.

Promete-me que no futuro, estaremos sós os dois, aqui nesta casa, as nossas impressões digitais coladas pelas paredes, fechamos todas as luzes e apenas as labaredas da lareira vão inundar a casa, tons quentes no frio da noite mágica.

Diz-me a verdade, ainda que me mintas.

Diz-me que vamos voltar atrás quando andarmos para a frente, e de novo saborear os nossos corpos, já lá vai tanto tempo que já não tenho o sal da tua pele na minha memória. Não sei se vamos retomar à paixão de há tantos anos atrás ou à acalmia do amor sereno mas tanto me faz, o que quero mesmo a voltar atrás nesse futuro e quando entrar a porta do quarto saborear de antemão o prazer das tuas mãos a tecerem rendas na minha pele.

Diz-me a verdade, nem que me tenhas que mentir, e pintar o céu de outra cor qualquer, e dar-me asas para voar, que eu não aguento mais, aqui sufoco, aqui morro todos os dias mais um pouco.

Diz-me a verdade mesmo que me mintas e eu levar-te-ei nos meus braços quando levantar voo daqui sem sairmos os dois do sofá, da carpete, da cama.

Mas diz-me a verdade. Diz-me toda a verdade coberta pelas mais doces mentiras, essas promessas de futuro, de acalmia, de passeios na praia quando o frio aperta e as gaivotas baixam ao areal.

Diz-me a verdade e promete-me uma noite de sono. Mente e diz-me que vou dormir como um bebé virgem de medos, sem estes terrores nocturnos, sem este acordar diário a teu lado na cama, e contudo, tão só como o primeiro ser do universo.

Diz-me a verdade que não me importo que seja mentira. Já não faz diferença alguma, na verdade o que  te peço é que me mintas, mas desta vez não me dês uma das tuas mentiras que me fazem chorar, que me fazem sangrar e me roubam dias de vida.

Não.

Diz-me a verdade da mentira que vamos viver. Diz-me depressa que eu não sei quanto tempo mais consigo respirar aqui!



publicado por Luísa Castel-Branco às 17:47
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3 comentários:
De sandra a 10 de Dezembro de 2010 às 16:40
Olá Luísa.Quando lançou o livro Alma, foi ao programa do Manuel Luís Goucha, ouvi o Manel falar com muito entusiasmo do livro e como sei que ele é uma pessoa genuína, fiquei muito curiosa...Como deve calcular, o dinheiro não chega para tudo. Andei sempre a verificar o preço, sempre na esperança de um dia destes encontrar o livro em promoção. Eis que chegou esse dia, por acaso na Worten, e pensei: é agora! (Bendito dia!). Alma, é simplesmente, um livro maravilhoso! Eu ri e chorei a lê-lo! Obrigada por me ter proporcionado uma das melhores leituras da minha vida!!!! Beijinho e bem haja!


De ines.pires a 16 de Dezembro de 2010 às 12:45
Parabéns ,...

Este texto , foi dos textos mais graciosos que alguma vez decifrei . tenho 14 anos e tanto honro ler como redigir , . . . Depois de me terem falado do recente livro , revelei uma autêntica curiosidade face a todo o seu trabalho, deste modo fiz pesquisa e encontrei este , cujo título me despertou um grande interesse .

:) um beijinho , ines cardoso


De Margarida a 5 de Abril de 2011 às 14:24
Que bonito. Não tenho palavras para exprimir o que sinto ao ler "Diz-me a verdade, mesmo que mintas".

Bem-haja, Luisa.


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