Quarta-feira, 6 de Abril de 2011
As minhas personagens fugiram e eu para aqui fiquei

Está um vento forte mas quente. Sai para o jardim e fui regar as flores e o cheiro da terra molhada, juntamente com o vento e aquele perfume a quentura banharam-me os sentidos.

Desde que vim viver para aqui e cada vez mais raramente ligo a musica. É quase uma ofensa porque o cantar dos pássaros é tão grande e tão alto que qualquer outra melodia parece desnecessária.

Vivo numa bolha. Não sei nunca o dia da semana ou do mês, e é com espanto que ligo o computador e vejo quanto tempo passou.

Esta reclusão  sabe-me bem. Sem vozes humanas, sem qualquer espécie de ruído, é fácil flutuar.

Contudo, os tres meses que por razões de saude fui obrigada a passar em casa roubaram-me a estabilidade que tanto demorei a conseguir.

Coisas da vida. Nada de importante, nada de grave mas o resultado foi um buraco que tenho cá dentro e não consigo preencher.

Claro que me sobra os magnificos tons de verde, os meus passaros e as minhas cadelas, mas a escrita está bloqueada.

Não sou daquele tipo de escritores que se sentam em frente à folha branca e ali ficam até escreverem. Nem consigo disciplinar-me para a uma hora certa, ou durante horas certas estar em frente ao computador.

O meu editor diz me que cada um tem a sua forma diferente de viver a escrita e a minha é assaz diferente.

Mas quando se inicia esta nova fase da vida aos 50 anos, aprendemos a respeitar a ordem das coisas, por mais estranha que ela seja.

Escrevo dentro da minha cabeça muito antes de chegar ao papel. Tenho que estar ocupada para que as personagens me visitem, e não pensem que isto é uma forma de expressão, porque se passa assim mesmo. Sou visitada durante a noite, enquanto durmo e quando acordo tenho bem fresco na memória coisas que aconteceram e que ainda não escrevi. Depois durante o dia tenho que me ocupar. Ocupar as mãos, o corpo, não em conversas com outros porque isso afugenta as minhas personagens. Não a lidar com os problemas do dia a dia, não nesta fase.

É por isso que é tão complicado este nascimento do livro. A trama está lá mas não é o momento de ir para o computador.

E contudo, quem pode fugir dos problemas do dia a dia? Conjuga-los com esta evasão é impossível.

Quando  finalmente tudo se conjuga, os longos dialogos na miinha cabeça, os sonhos , noite após noite e a visualização de locais ou momentos que nunca vivi, é então chegado o momento de ir para o computador e entrar num outro mundo, numa realidade paralela que passa a ser muito mais verdadeira do que esta onde vivo.

Infelizmente, neste momento as minhas personagens fugiram. Tenho mais de cem paginas escritas do novo romance e é agora que decidem desaparecer!

Deram-se mal com a clausura forçada e o medo, sim, o medo, não vale a pena fingir.

Espero-as em desassossego e sei que assim não voltam.

Vão aparecer sorrateiramente quando eu menos esperar.

Até lá, até a escrita neste blog é difícil.

Mistérios sobre mistérios. É exactamente por isso que escrever é um algo de tão fantástico e se torna insuportável viver sem essa parte de mim.



publicado por Luísa Castel-Branco às 09:43
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6 comentários:
De Admirador Incondicional a 6 de Abril de 2011 às 11:59
Luísa Pedra do Feitiço:
Estava eu a pesquisar no Google informações técnicas dos fosfatos de Pedra do Feitiço, quando aparece você numa das suas crónicas que mencionava essa localidade.
Li com interesse a sua recordação da juventude com aquela sensualidade que existe subjacente a quem nasceu em África (eu incluído). Fiquei excitado por saber que o seu sangue pulsa de modo especial quando se relaciona com aquelas terras.
Faz tempo que não a vejo na TV e foi bom saber que está no activo. Outra coisa que me agradou foi a sua foto no topo da página do blog. Que bela mulher você é...
Como gostaria de lhe pedir um autógrafo, de preferência sem gente à volta. E de conversar sobre os fait-divers da vida, num ambiente de feitiço, sentados numa pedra.
Torne isso possível, se quiser... Faça que sim num sorriso.
Admirador incondicional.





De Sara a 6 de Abril de 2011 às 17:47
Parabéns pelo destaque!
:)


De Mr Anger a 7 de Abril de 2011 às 02:50
Parabéns,

Com tanta coisa por dizer (e que não quer deixar apenas no efémero do seu pensamento) tenho esperança (genuína) que qualquer dia comece a morder os calcanhares de sucesso/fama de uma Rita Ferro :)


Mr Anger



De Ivete a 7 de Abril de 2011 às 03:52
As minhas também fugiram!
Apesar de não ter nenhum livro publicado(talvez nunca chegue a fazê-lo), tenho tres começados.Mas os personagens me abandonaram...Será que voltarão?

Gostei muito da tua escrita, que não conhecia!

Um grande abraço


De Rita a 29 de Abril de 2011 às 15:04
Adoro a sua escrita, é real, entranha-se completamente. Perco-me nas suas linhas e vivo-as como se da minha vida se tratasse, pois muitas das palavras são aquilo que sinto mas não consigo transmitir. Muitos parabéns pela mulher que é, e continue com o bom trabalho.


De Ana Nunes a 3 de Maio de 2011 às 19:49
Não vinha já a sua escrita mas a Alma já morava há muito tempo em minha casa abandonada na prateleira onde a deixei quando chegou ca a casa. Ontem casualmente o meu olhar demourou-se nela e já a noite ia alta quando a larguei e so quando a ultima pagina apareceu. Adorei adorei adorei. Obrigado esta partilha.


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