Sábado, 8 de Setembro de 2007
Núvens no meu café com leite
 
 
Visto a vida de musica e sons e cores e perfumes e odores.
Mesmo quando estou por cá, uma boa parte de mim, a maior parte do que realmente sou, anda perdida por locais desconhecidos ou então dou comigo no corpo da criança que fui, deitada na terra a olhar a copa das árvores e o céu recortado, ou escondida por de baixo dos lençóis aguardando que o medo passe.
Por isto tudo, nunca me senti normal, o que quer que isso seja. Ou pelo menos igual aos outros e principalmente às outras que isto de ser fêmea tem regras próprias e rígidas. Sempre soubemos ao longo da vida o que era esperado de nós e alguma pagamos o preço da revolta, do dizer não um e outra e outra vez.
Talvez, não, ia arranjar uma desculpa fácil ou uma explicação plausível para algo que não o é, mas dizia eu que este meu estado de dupla personalidade, de ser duas em uma, vem de longe.
Fui fadada com o nome de Maria Luísa. E nunca ninguém assim me chamou, exceptuando o meu Pai quando se zangava comigo, ou quando eu o desiludia, não sei, vive poucos anos com ele e depois, desistiu de ficar por cá aos 51 anos, deixando-me a mim com tudo para lhe dizer e anos de dolorosa e dispendiosa psicanálise . Onde ia eu? Ah! Na tal Luísa , que nunca o foi até ao dia em que começou a trabalhar. Ainda hoje ninguém me trata assim, mas antes por um diminutivo que não tem nada a ver com o nome, e que segundo a minha Mãe sempre, era o nome duma heroína numa história de amor que ela leu quando estava grávida de mim.
Duvido muito. Nem mesmo os livros do Corin Telado ”, creio que era assim que se chamavam, tinham capas com desenhos melosos e historias melosas, e faziam as delicias das Senhoras, criadas e adolescentes que os liam às escondidas, com um medo enorme de sermos apanhadas num tal crime, e os ditos livros hoje serviriam para ensinar Catequese, mas naquela altura, quando eu me deitava na Pedra do Feitiço a olhar a copa das árvores e a sonhar, eram a coisa mais romântica do mundo.
Voltando ao nada, nunca dei por este nome. Quando alguém me chama Luísa é porque é trabalho. A única excepção são os meus sobrinhos do coração, os muitos e muitos amigos dos meus filhos que aninhei dentro de mim e hoje, homens e mulheres, alguns já casados, vivem quentinhos dentro do meu coração.
Portanto, existe a Luísa que não sou eu e a outra, cujo nome, tenho muita pena mas a vergonha impossibilita-me de vos dizer qual, é um nome estúpido mas sou eu.
Porque vim aqui parar nesta conversa suave convosco? Não sei.
Mas os dias estão difíceis e fujo constantemente para lado nenhum, e quando dou por mim, aqui quieta ou em qualquer outro lado, estou a brincar à cabra-cega; mamã dá licença? Quantos passos? Dois à bailarina...dois à caranguejo...
Ah! A saudade é que me veste a mim!
Saudade dos sonhos que tive um dia, e os perdi na Pedra do Feitiço, onde à noite contávamos as estrelas e sonhávamos o que seriamos quando fossemos mulheres e pudéssemos arranjar as sobrancelhas e calçar meias de vidro!


publicado por Luísa Castel-Branco às 00:11
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8 comentários:
De angel a 8 de Setembro de 2007 às 13:58
Porque vim aqui parar nesta conversa suave convosco?

Porque....aqui...nós que a lê-mos...não o fazemos com a intenção...de recriminar...ou apontar o dedo....desdenhar...ou minimizar os seus medos...vimos aqui porque nós a dá a ler parte..de si...e por isso só poderemos...estar agradecidos.

Um bom fim de semana


De dolce_vita a 8 de Setembro de 2007 às 21:16
Olá, Maria Lúisa, Lúisa ou o outro que tão carinhoso deve ser,embora o nome me pareça encaixar bem em quem o possúi,o seu é lindo como a sua dona,acho que ainda somos donas de parte do nosso nome...bem,senti a sua falta,habituei-me a ter necessidade das palavras,porque eu também tenho saudades de olhar deitada na relva a copa das árvores,da mamã dá licença...e ainda dos amores e desamores de Corin Telado...sorrio neste momento ao rever lá longe o esconde-esconde de tais romances...mas acho que nos ajudavam ao sonho...ah mas acordar para a realidade dói tanto...
Não esteja se for possivel tantos dias sem escrever para quem gosta de si
um abraço e seja feliz
RS


De Glória Rocha a 31 de Agosto de 2008 às 16:56
Olá Luísa, entrei no seu blog nem sei bem como, mas chamou-me a atenção um nome e gostaria de lhe perguntar e, se possível, que me respondesse para o meu e-mail: O nome Pedra do Feitiço, a que se refere é, por acaso, em Angola? Uma terra linda e misteriosa, cheia de encantos...tem fotos de lá? Por favor, responda-me, não sabe a importância que isso tem para mim! Obrigada.


De Patrícia a 8 de Setembro de 2007 às 23:12
Acho impressionante a forma como eu enquanto uma miuda de 25 anos entendo e compreendo perfeitamente o que diz, sinto-me fascinada pela sua escrita, muito própria , muito feminina, muito reveladora e intimista. Adoro-a, acho que deve ser maravilhoso estar perto de si, ás vezes não percebemos o valor que sem querer temos.
Escreva mais , muito mais .
Beijinhos


De mulher a 8 de Setembro de 2007 às 23:23
É Fascinante vir aqui ler o que escreve...
Encaixo-me em muitas coisas que diz, talvez por ser mulher ou por também ter esse estado de dupla personalidade... Ora me apetece viver um grande amor ora me apetece estar livre. Vivo uma relação há anos, sou nova e por incrível que pareça não sei se o amo, quando estou com ele não sei o que sinto mas também não consigo estar só...
Ora quero ser uma mulher ora me apetece ficar no meu mundo imaginário . Não sei o que quero. Tenho medo de mudar de fazer a escolha errada. Arrependo-me costantemente dos romances que podia ter tido que possivelmente poderiam ter-me feito mais mulher, mais entendida ... Sei do que gosto : da vida.Mesmo com obstáculos gosto dela. Escrevo-lhe e penso que mesmo assim não estou a conseguir transmitir o que queria, sou sempre assim, nem sempre sei o que quero. Queria saber, acho que ajudava um pouco. É incrivel como nós mulheres conseguimos manter estas dúvidas...Estar presas a algo que não sabemos se é o que queremos ...


De João Cordeiro a 10 de Setembro de 2007 às 17:42
Olá Luisa sonhadora...
Delicio-me a ler os seus textos.
Sobre a infância... bom... deixo-a com este companheiro.

Lembro-me perfeitamente, era um tipo de esquerda.
A revolução dos cravos vermelhos tinha sido ainda há bem pouco tempo atrás e influenciava toda a gente quanto mais a garotada que já tinha idade para discernir o que se tinha passado no nosso recanto à beira-mar plantado.
De esquerda: Sinto-me mal. Sinto-me de esquerda e todos nós sabemos o que um sentimento de esquerda em falso pode fazer pela (in) decência de uma pessoa. Perverte o espírito humano às melhores almas.
O mínimo sentimento de esquerda é causa suficiente para dar entrada nas urgências de qualquer hospital e procurar assistência médica especializada. Não se pense que é fácil ser de esquerda. Não é.
É preciso estar ao lado de mulheres com piolhos, que veneram a sodomia higiénica e descuram na triagem de pêlos nas axilas, homens prestes a entrar em coma alcoólica e afim, mais afim do que alcoólica.
Uma vida dura. É preciso esbanjar todo o orçamento mensal em drogas, leves no caso dos socialistas, pesadas no caso dos comunistas. Esta tarde, refastelado no sofá senti uma ligeira perturbação.
Náusea. Um trago a vómito que me chegou à goela.
O órgão sexual a tresandar a disfunção sexual (nada de anormal). Dirigi-me ao posto médico. No caminho, senti uma leve dor entre as virilhas e uma potencial dormência entre as nádegas.
Voltei para trás. Estava com síndroma de esquerda.

Uns sapatos castanhos muito práticos. De esquerda.
Uma t-shirt por baixo da camisa. De esquerda.
Verga sem força. De esquerda.
Barba por fazer. De esquerda.
Caixa das cigarrilhas vazia. De esquerda.
Ébrio. De esquerda.

Fiz o diagnóstico a tempo.
Não fossem as minhas capacidades curandeiras e a esta hora podia estar de esquerda.
Eu continuo a ser de esquerda, mas agora apenas e só por convicção.
Nessa altura era moda ser-se de esquerda e revolucionário.

Embora, não passávamos de uns chatos a brincar às revoluções.
Éramos uma garotada que amava Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Sigmund Freud.
Deste último, decorávamos frases de efeito da sua intrincada obra e carregávamos, em nossas bolsas tiracolo de couro, alguns dos seus livros como prova da nossa “superioridade intelectual/existencial”, em relação aos não-psiquiatrados.
Eu, por exemplo, levava sempre um livro do Che Guevara, que teve uma vida breve, mas revolucionária.
A maioria “tratava-se” e fazia proselitismo do tratamento.
Éramos os apóstolos mais fanáticos da psicoterapia e da psicanálise.
Para outsiders, os não-psiquiatrados, não passávamos de um “bando de intelectualóides” (que éramos) ou de “psiquiatrados deslumbrados” (que também éramos).
O pouco dinheiro que conseguíamos juntar pagava a cerveja o tabaco e o tratamento de “neuras”, “deprês”, “crises existenciais” e “choques de opinião” com nossos pais. Naquela época, entendíamos que todas as pessoas tinham que “se tratar”, mesmo quem não tinha o que tratar (como assim? Toda a gente tinha alguma coisa para tratar).
Além disso, interpretávamos tudo: gestos, olhares, lapsos, qualquer coisa. Para nós, um charuto nunca era apenas um charuto.
Admito, éramos muito chatos.





De Anónimo a 11 de Setembro de 2007 às 19:17
Há uma frase que diz "somos todos iguais"...mas a verdade é que somos únicos à nossa própria maneira. Em pequenos os sonhos e vontades acumulam-se na saqueta dos berlindes, que com o tempo vai rompendo e perdendo a metade que ainda vemos como reais. Tento definir-me , ver-me como os outros me vêem e desenham na sua mente, mas não consigo. Por vezes sinto-me um ser obscuro, perdido nas minhas deambulações e mundos paralelos...Pergunto-me se serei "normal". No meio deste sufoco que por vezes me apanha o espírito, há sempre uma luz, que mesmo ténue me alumia o caminho. As dúvidas continuam, tento manter o meu ar impenetrável ...que de tão duro parecer, na verdade é o osso mais poroso...digno de ave cavernosa e leve.
Carla *


De vFIRMINA FERRAZ GARCIA a 1 de Agosto de 2009 às 01:45
há muito pouco tempo navego na Net, e quando o faço, vou sempre procurar coisas de Sazaire. Curiosamente, vi o comentário de uma leitora, curiosa por saber se quando se refere a Pedra do Feitiço, é realmente o Posto Administrativo pertencente a S.A. Do Zaire? É que essa Pedra do feitiço, conhaço-a bem, assim como ao Posto do Quelo e do Sumba. Eu cresci, casei e vivi por aquelas bandas, 32 anos.Queira aceitar os meus cumprimentos e os votos das maiores felicidades.


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