Terça-feira, 11 de Setembro de 2007
Sorriso perdido
 

 

Saiu de casa a correr, atrasada para apanhar o autocarro, a mala a abarrotar e a bater-lhe no peito, o suor a escorrer pelo rosto, a empapar-lhe o cabelo. A chuva miúda tinha transformado as pedras da calçada em tecido mole, e ela a fazer força nos sapatos para não cair, ao mesmo tempo que acelerava os passos, o coração a bater forte.

Eram oito horas de um dia cinzento, peganhento e quente, e ela já estava exausta. Levantara-se, arranjara os miúdos, pegou neles, nas lancheiras, nos casacos e correram para o autocarro. Depois de os deixar na escola, ali estava ela, em pé, a tentar segurar-se na pega do segundo autocarro, entalada entre gente desconhecida, a pensar que ia chegar atrasada ao trabalho, no que havia de fazer para o jantar, na roupa para passar, que aquela chuva miudinha não deixava secar nada.

Foi aí, entre um abanão e uma pisadela e lá à frente duas mulheres que discutiam, foi aí que deu por ter perdido o sorriso. Pensou para si mesma que teria ficado pelo caminho, com as pressas. Ou na cozinha, ou no quarto, talvez na mesa-de-cabeceira, junto à imagem da Virgem. Logo, quando chegasse a casa, tinha que o procurar. E assim, despedida do seu sorriso, foi trabalhar, cumpriu o ritual dos seus dias.

Quando entrou a porta, recordou-se do seu sorriso, e ainda deu uma volta rápida à procura. Mas o tempo urgia para tanta coisa, que desistiu. Anos mais tarde, quando o marido a deixou, ela recordou aquele dia, e o cheiro da chuva e sentiu que fora ai que tudo começara. Quando perdera para sempre o sorriso.

 

Publicado in DESTAK


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publicado por Luísa Castel-Branco às 11:05
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13 comentários:
De mil sorrisos a 11 de Setembro de 2007 às 11:21
Belíssimo texto. Na correria do nosso dia-a-dia perdemos coisas que dificilmente conseguimos recuperar. O mais grave de tudo é que muitas vezes nem damos conta de que as perdemos... Quando perdemos a capacidade de sorrir tudo fica mais negro e triste, irremediavelmente perdido. Sei que é complicado porque, muitas vezes, o difícil é ter motivos para mantê-lo...
Mil Sorrisos
:o)))))))))))))))))


De Social mas Light a 11 de Setembro de 2007 às 14:14
Boa tarde,
Que magnifico retrato do quotidiano. Acho que todos temos a tendência para perder o sorriso, mas temos que combater essa trsiteza.
Sempre que sorrimos ficamos mais bonitos, mais atrativos e faz-nos bem (confesso que já li isto, mas não me lembro a quê que faz bem).
E devemos-nos lembrar que sempre que perdemos o sorriso, pode haver alguém a semea-lo e eventualmente a dá-lo a quem nos está próximo.
Smile, always smile.
Tenham um boa semana


De Ana a 11 de Setembro de 2007 às 14:46
Luísa, o seu texto fez-me lembrar este que escrevi...
Era Agosto novamente e Mariana sabia o que se aproximava, sentia o coração apertado e uma leve sensação de tontura cada vez que se lembrava que aquele era o seu último dia de trabalho antes das férias. Para a maior parte dos mortais esse era um dia para festejar, para cantarolar e para sair de cima dos ombros o peso da rotina estabelecida, mas para Mariana férias não era sinal de descanso.
Todos os anos por esta altura ela e a sua família, (marido, os três filhos, os sogros e os cunhados solteiros), alugavam uma casa em Ferragudo, durante três semanas. Nesse período, Mariana não parava um segundo. Levantava-se às oito da manhã, preparava o pequeno-almoço para todos, vestia as crianças e dirigia-se à praia. Como se não bastasse tinha de aturar as acusações da sogra, a indiferença do sogro, os disparates e bebedeiras do cunhado, as neuroses da cunhada, a apatia do marido, o desconsolo de se sentir só. Cada dia era uma aventura, e para se evadir um pouco da sociabilidade familiar, Mariana refugiava-se na cozinha, onde cozinhava e lavava loiça sem parar. Por outro lado não tinha grandes opções, uma vez que as mulheres da família eram pouco dadas às lides domésticas e aos dotes culinários, preferindo ficar a beber o seu aperitivo na sala e cortar na casaca da vida alheia, comentando as novidades do jet set das revistas sociais.
Á mesa, as refeições eram sempre um verdadeiro desafio, as conversas amenas e alegres acabavam geralmente em confusão e em maus entendidos, em palavras que se diziam sem se querer. O tópico de assunto preferido era a divisão das despesas das compras, pondo-se em causa o que tinha sido comprado, a qualidade e as marcas dos produtos, se o camarão era de 1ª ou 2ª, se era de S. Tomé ou do Senegal, discutindo-se o talão do supermercado ao pormenor.
O som elevado da televisão era a banda sonora constante, o que misturado com as vozes ruidosas dos seus habitantes, tornava o ambiente insuportável. As crianças, essas eram um doce, mas ao longo do dia iam ficando mais cansadas, mais rabugentas, investidas de uma energia que se recarregava indefinidamente. Era vê-las pular sem parar, trepar pelos armários, espalhar pimenta pelo chão, gritar convulsivamente, querendo chamar a atenção: «Mãe! Mãe! olha o mano, está tirar-me a boneca! Mãe… quero um gelado! Eu quero!!! Mãe, compra-me a barbie do supermercado…»
Á noite, por vezes, conseguia ter a casa só para si. Alegando uma poderosa dor de cabeça, que frequentemente era bem verdadeira, deixa-vos ir passear pela praia, ou até ao Casino da Praia da Rocha. Nesses breves momentos, depois de deitar as crianças, sabia-lhe bem sentir o silêncio da casa, fechar os olhos e poder respirar fundo, sem ver ninguém por perto, mas esse instante durava sempre tão pouco…
A meio da noite, o silêncio era geralmente interrompido pela entrada abrupta do cunhado solteiro, que costumava chegar sempre um pouco “entornado”, depois de percorrer ritualmente as raves e festas das localidades próximas. Fazia sempre algum alarido quando entrava, por não reconhecer bem os cantos à casa, tropeçando nas cadeiras, vomitando até no sofá da sala, onde dormia.
A tudo isto Mariana assistia, contando os dias numa contagem decrescente que nunca mais acabava. O marido, pouco afectuoso, vivia num mundo à parte, satisfazendo-se com partidas de cartas com o pai, partidas de futebol e a playstation que tinha trazido com ele. Quando chegava à hora de deitar, já não havia beijos, nem palavras de ternura, nem mesmo sexo, até porque com a família dele toda ali em peso, não havia nenhum afrodisíaco que fizesse funcionar a química do amor.
Chegada a Lisboa, no dia 31 de Agosto, após uma fila de duas horas na ponte 25 de Abril e de uma viagem em marcha lenta de mais de 4 horas, Mariana voltava feliz, pois sabia que tinha cumprido o seu papel de boa esposa e de boa mãe. Tinha uma família, que amava e a quem se dedicava de corpo e alma, e que em breve voltaria ao seu ritmo e rotina normal. Ela voltaria ao trabalho no escritório, o marido voltaria às vendas de material hospitalar, e os filhos iriam de novo para o colégio. Não haveria tempo para dúvidas, nem desilusões, tudo se encaixaria novamente, nessa paz suportada pelos horários e pelos hábitos enraizados.


De angel a 11 de Setembro de 2007 às 15:26
Lembro-me tão bem...por acaso ia para o meu antigo trabalho...e tinha sempre que apanhar o comboio...e a primeira coisa que fazia era arranjar o primeiro jornal disponível que encontrasse....e nesse dia....o meu dia estava tal e qual..como o descrito..(retirando alguns apartes)...e quando cheguei ao meu destino....relembrei-me
do meu sorriso...e até hoje não o esqueço...faz-me bem....

Um grande Sorriso...uma óptima semana


De rouxinoldebernardim.blogspot.com a 11 de Setembro de 2007 às 17:20
Excelente crónica com refinada sensibilidade e humanismo. Capacidade para sorrir é precisa neste dia-a-dia conturbado em que vivemos. Sentir que já não somos capazes de sorrir é o fim... é o nevoeiro mais fúnebre da existência!

Quantos quereriam ter motivos para sorrir e ... já não têm...


De jonnywolf a 11 de Setembro de 2007 às 17:49
Já tinha lido no DESTAK... e achei lindo como sempre.

Respondo-lhe com este pequeno texto:

O sorrir é bom e ele sabia que com o seu sorriso afastaria a negrume solidão.
Incrível. Mas, apetece-me sorrir.
Lembrei-me da última sexta-feira.
As minhas rinites presentes como estigmas.
Na realidade estou-me nas tintas para o nariz. Era bom era conseguir dobrar-me. Puta da hérnia discal. Mas não me enfiam a faca nas costas, isso é que não.
Ah, a sensação que tenho é de que, um dia, o corpo começa a rebentar por todos os lados e é a decadência a partir daí.
Dói aqui, dói ali, não se pode pegar em pesos, não se pode comer molho picante, não se pode beber álcool, não se devia tomar café nem fumar nem comer fritos nem fazer noitadas. Hérnia discal, hérnia no diafragma, hérnia no esófago, hérnia nos neurónios...
Essa é que é a pior, a consciência da PDI.
Daqui adiante, a choradeira, a miséria, a neurose, a pré-andropausa, o self-coitadinho, a sensação de que já só serve para deitar para o lixo, mais choradeira.
Um tipo quando tá assim é uma animação, não é?


De Patrícia a 11 de Setembro de 2007 às 19:02
Simplesmente encantador . Estou ansiosa para ler um livro seu ou assistir a um programa seu ;)
Muitos beijinhos


De anaazenha a 11 de Setembro de 2007 às 21:30
todos os dias luto para q nunca o meu sorriso se perca! mas nem sempre é fácil, a vida é mesmo isto, correria, perdemos afectos, perdemos amigos. mas quando volto ao fim do dia tenho sempre um sorriso da minha pequena Júlia, quando em deito tenho sempre um abraço do meu querido Paulo, só isto espero que me preserve o meu sorriso para sempre.
belo texto, mais um que ficava bem num livro!


De umdiadepoisdooutro a 12 de Setembro de 2007 às 12:18
Bom dia,
que texto lindíssimo e tão profundo.
Já há algum tempo que leio avidamente os seus posts mas não tenho tido coragem para comentar, talvez por eu própria ser uma novata nestas andanças dos blogs.
Como todos os que li até hoje, deixou-me emocionada e pensativa.
Quantas vezes não me tenho também esquecido do meu sorriso, perdido algures na desilusão dos dias mais difíceis.
Vou passar a colocar o meu sorriso na lista das coisas que mentalmente verifico se tenho comigo antes de sair de casa: filho com respectivo casaco, boné chucha e brinquedo inseparável, chaves do carro e de casa e agora também a ferramenta mais importante para um dia bem sucedido - um enorme SORRISO.
Será a partir de hoje o meu talismã, para enfrentar todas as situações.
Obrigado por mo lembrar.
Felicidades.


De Filipe Rodrigues a 12 de Setembro de 2007 às 16:55
Nunca devemos de perder o nosso sorriso, nem por um minuto... foi um prazer conhece-la, e um obrigado pelas boas gargalhadas que demos.

melhores cumprimentos;

Filipe Rodrigues


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