Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007
Sem titulo. Sem nada.
Queria que esta noite tivesse 365 dias,
Tenho medo de adormecer porque amanhã vou ter que acordar e contar os minutos um a um, até entrar a porta daquele quarto do hospital e ver ceifar a vida a alguém, que vai continuar vivo.
Como se diz a um ser humano que tem menos de seis meses de vida e que até ao momento do seu último suspiro a aguarda um sofrimento atroz?
Como vou olhar o seu rosto? Que palavras idiotas e sem sentido posso eu dizer perante o inevitável?
“Mas com 75 anos é óbvio que já viveu a vida e não é normal os familiares não estarem preparados.”
Ouvi isto hoje de alguém e pensei para mim mesma se o amor tem limite de validade como um iogurte, um prato esquecido no frigorifico, um casaco velho perdido no fundo do baú,
Não, não é assim! É horrível e dói e dói tanto que eu não queria que o dia de amanhã chegasse porque pior do que ver a sombra da morte pousar nos ombros de alguém, é dizer-lhe os dias que pode esperar voltar a ver o céu estrelado, o cheiro à chuva ou tão-somente tocar ao de leve nos objectos que a rodeiam e são afinal o resumo de toda uma vida.
Não devia ser assim, digo para mim mesma, e revolto-me com a realidade, com a mortalidade ou antes, com o facto de não nos ser permitido partir no nosso leito, com um sorriso nos lábios enquanto sonhamos com campos dourados de trigo e o vento a lamber-nos o cabelo e quiçá, os nossos filhos de mãos dadas.
Não sei.
Cada um deveria poder partir assim, envolto nas suas melhores memórias e sem sofrimento.
Nem revolta. Porque quando amanhã as palavras saírem da boca do bom doutor; quimioterapia, e mais isto e aquilo, só poso imaginar a revolta de quem viveu lutando uma vida inteira e vai partir a lutar.
Se a morte é a única coisa segura na nossa vida, devíamos poder escolher como deixamos este tempo passado neste universo e partimos para o outro, seja lá ele o que for.
O ponteiro do relógio continua a mover-se. Tic-tac. Tic- tac.
A noite escorre e a minha cobardia vai-me tolhendo o corpo cada vez mais.
Não devia ser assim.
 
 
 
 
 
 


publicado por Luísa Castel-Branco às 02:53
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25 comentários:
De João Cordeiro a 13 de Setembro de 2007 às 11:28
Querida Luísa ,
Li este seu post ” com uma lágrima a escorrer-me pelos sulcos de um rosto já de um homem de 48 anos. Sim, o homem também chora.
Não devia ser assim.
Quem de nós não se sente cobarde numa situação como a que tão linearmente descreve?
Quem de nós nunca observou a mão gélida da morte, tocar o ombro de alguém?
Realmente não devia ser assim…
Este pequeno trecho que transcrevo é real, e faz parte do meu livro “Ano Louco”.

“… É também outro menino, o menino feito homem, aquele que mira Natacha disposta em posição fetal sobre as portas metálicas de um frigorífico, transformado em cama de operações, sustentado por dois cavaletes de madeira; é outro menino o menino feito homem, aquele que recorda o rosto de sua tia quando ela o pegava ao colo e o acarinhava contra o seu peito.
Eu amava a minha tia. Era a minha predilecta. Hoje nada posso fazer.
Marcou-me de tal forma que ainda hoje e passados já alguns anos, sinto remorsos por a não ter apoiado.
Natacha foi-me trazida por um tal Eduardo ontem à noite. Eduardo é advogado de um sem número de refugiados de leste que acorrem ao país. É mais uma. Eduardo está apaixonado por ela. Consigo ler o amor dos dois nos olhos mortiços de Natacha.
Os olhos dela são os olhos de minha tia. Os mesmos olhos que me olharam, certo dia, uma última vez. Os olhos que por si choraram, os mesmos que ele fitou uma última vez antes da locomotiva a colherem.
Os olhos que ele olhou uma última vez, quando já o comboio travara e o corpo esfacelado, se separara em tantos bocados quantos os que os braços conseguiam abarcar. Eu, sozinho agarrando em cada membro de minha tia e o corpo de Natacha ali corrompido: frágil e precário cortado pela zona dos rins.
São sem duvida corpos diferentes em vidas distantes, mas os olhos são os mesmos de outrora.
Um violino passou pelo consultório e deixou uma música tão deprimente quanto insuportável no espaço.
Começo a chorar. É novamente o menino João, aquele que se deixa abraçar pelo corpo morto da sua querida tia M. Do Carmo.
Bem-Haja tia e que Deus te tenha atribuído um pedacinho de Céu...”

Um beijo sonhador
JC




De Anónimo a 13 de Setembro de 2007 às 12:29
Boa Tarde,
O seu texto de hoje assenta-me como uma luva!
Ao meu querido pai com 72 anos foi diagnosticado cancro do pulmão .
Todos os meus amigos ou não têm já pais, ou só têm um dos pais e eu achava-me uma privilegiada , apesar dos meus 44 anos uma menina ainda com o colo dos pais para me aconchegar. Criei talvez a ilusão de que "talvez fossem imortais".
Agora olho para o meu pai que desconhece a dimensão da doença, por opção nossa, (minha e da minha mãe ) e também penso - não merecia partir com tal sofrimento, aliás ninguém merece.
Pode ter ficado chocada pelo facto de eu ter dito que ele desconhece a dimensão da doença, acontece que quando foi detectado o nódulo, e apenas com a hipótese que poderia ter que ser operado, ( já fez em 44 anos 20 operações) ele deixou de comer de rir de falar, quase de se levantar, deprimiu-se totalmente, daí que em concordância com a médica, "ocultamos" a gravidade do problema, foi medicado, anda vigiado, e em consultas e todos os dias tem dito:
- Hoje, sinto-me melhor! Isto vai lá !
Para mim não há dúvida que a força de vontade aliada à vontade de viver são duas grande aliadas.
Meu querido pai, para mim com um prazo de validade inesgotável!

Beijinho Fátima L.


De artesã a 13 de Setembro de 2007 às 12:39
É sempre difícil aceitar a aproximação da morte, principalmente daqueles que nos são queridos, não faz mal se estiveres zangada com Deus ou com outra entidade, por vezes parece que tudo é irreal e terrivelmente errado nesse momento e, no entanto, pode não ser bem assim. Sabes, muitas vezes nem é preciso palavras, basta estarmos junto dessa pessoa, para que ela sinta que não está sozinha. E vais conseguir ser a ajuda preciosa da qual ela necessita.


De foscamonio a 13 de Setembro de 2007 às 15:25
É mesmo assim, Luísa, encurta-se-nos o prazo de validade para aqui nos mantermos, os que passam do prazo e sobrevivem tornam-se, naturalmente, azedos. O que não é o seu caso a doçura que nos transmite está longe de se estragar.


De Lua de Sol a 13 de Setembro de 2007 às 15:46
Como concordo consigo!
O que interessa se já viveu 75, 59 ou 78? Há quem viva 100 e até nessa perspectiva ainda lhe restaria viver quase uma geração. O que importa é que amamos e que é amado e que lhe vamos sentir a falta e que vai fazer falta. Às vezes, ainda vou mais longe, e tenho pensamentos egoístas, menos bonitos, que se prendem com a revolta perante o que custa a compreender. Pensamentos como aquele em que perguntamos porque Deus levou a nossa mãe ou a nossa avó que amávamos tanto, que se sentia bem connosco neste plano, que ainda tinha vigor físico e mental, que nos faz tanta falta, que tanto nos ajudava e porque não leva fulano que é só, que diz não ter interesses na vida e que já viveu até mais?! É feio, mas é humano...
Quanto a doenças dessas... são o pior. Ninguém com uma doença assim terá paz para morrer. Mesmo que tenha "sorte" em não sofrer muitas dores (físicas). Como é que alguém pode sentir tranquilidade a contar os dias que faltam? A saber quase a hora da partida? É como ter uma espada sobre a cabeça e outra no coração... Restam-lhe dias tristes, de tortura, embora possa viver alguns momentos de esquecimento em que se deixe embrenhar pelo amor e felicidade...
Sentenças de morte. Crónicas de uma morte anunciada... Ninguém merece. Ninguém.
Um abraço


De cuidandodemim a 13 de Setembro de 2007 às 15:53
Tenho 25 anos e sou enfermeira há 4 anos... Tenho ainda tanto para aprender acerca da vida e da morte... Li o seu texto atentamente e senti a sua dor... São tantos os sentimentos que nos invadem e sentimos a cada segundo que nunca ninguém deveria ter de senti-los na vida... É uma dor que nos rasga a alma... Mas há que ser forte e concentrar as nossas forças na tentativa de proporcionar a melhor qualidade de vida possível a essa pessoa. Para isso temos de cuidar primeiro de nós próprios e aceitarmos o que a vida nos reservou. É realmente difícil de o fazer e cada pessoa tem o seu método. Uns apegam-se a Deus, outros aos homens, às recordações dos momentos bons que passaram juntos... Mas lembre-se do sorriso e seja forte... Essa pessoa precisa de si mais do que nunca! Esteja com ela, apoie-a, dê-lhe o melhor de si, faça-a sentir o melhor possível neste momento. Mais tarde poderá olhar para trás e sentir que fez o que devia e sentir-se-á em paz com isso...


De Manuela a 14 de Setembro de 2007 às 11:57
Olá vim até aqui pelo Sapo e só queria dizer que gostei do seu texto, e salientar que a morte é mais uma etapa que temos de cumprir.
Tdos nós temos de passar por ela, mesmo que nos esqueçamos ela existe no dia a dia e minuto a minuto.
Essa pessoa a quem se refere, precisa mais do que nunca da sua presença, do seu carinho, das suas palavras, para que se vá com naturalidade e leveza de espírito.
Não se esqueça que existem pessoas que ajudam nestas alturas a suportar esta dor de perda.
Não me conheçe mas eu pelo menos conheço sua face.
Senti que devia dar uma palavra de conforto, pois quem vê morrer alguém também precisa que lhe falem.
Abraço

Manuela


De yaleo a 14 de Setembro de 2007 às 13:14
Muitos parabéns pelo destaque na página do sapo.
Tem um blog muito bom, eu adorei lê-la, não conhecia e estou fascinada com os seus textos.
Cumprimentos


De Loirinha a 14 de Setembro de 2007 às 13:32
Boa tarde...
A minha tia também está bastante mal, aliás ela nem um mês tem e so há pouco entrou no hospital... O cancro... que doença...
Existem doenças que, infelizmente, não têm cura... Mas não fique de rastos, porque essa pessoa ainda está viva... e enquanto está, você tem de ser forte por si e por ela... Dê o apoio que ela necessita... Relemebre-lhe as coisas boas que ela passou... E, acima de tudo, pense no quanto a Ama.

*


De Maria a 14 de Setembro de 2007 às 16:55
Olá Luisa,
Há já algum tempo que sou leitora assídua deste seu cantinho. Nunca comentei porque achei que nada do eu dissesse iria alem do que tão bem escreve e descreve. Porém este post tocou-me de uma forma tão forte que, para além das lágrimas que não consegui evitar, senti necessidade de “falar” de uma dor imensa, que nao acaba nunca, causada pela mesma situação.
Fez no passado dia 1, sete meses que me roubou o meu menino (sobrinho e afilhado) com 24 anos apenas, depois de nos ter martirizado durante 2 anos.
Ele partiu, criança ainda, mas com tanto sofrimento...
E como é duro a nossa impotencia perante esse monstro, conviver dia a dia com ele e saber que nada podemos fazer.
Beijinho,
Maria


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