Terça-feira, 18 de Setembro de 2007
Questão de tempo

Todos o diziam: «vais ver que te habituas, pá!», afiançavam os amigos enquanto outros iam mais longe: «é como voltar ao tempo de solteiro. Vais-te divertir à grande!». Donde, devia ser verdade. Mas, por enquanto, a única coisa que sentia era um peso enorme, um peso que lhe fazia um buraco no estômago.

O silêncio da casa, as noites longas sem os ouvir a chamar por ele. Tudo arrumado. Tudo limpo e asséptico, como se ali já não vivesse ninguém e ele fosse apenas um fantasma que não deixava impressões digitais.

Nunca, nem nos piores pesadelos, sonhara que seria um pai de fim-de-semana. Exactamente como fora o seu. Com a diferença abismal de que ele sempre estivera presente, sempre estivera ao lado deles, a partilharem brincadeiras e sonhos.

E agora, porque o amor acabara entre dois adultos, ou só para um deles, não importava, agora tinha à sua frente todos os dias e noites em branco. Ver os filhos de quinze em quinze dias, era nada.

Nada. E sem saber como, a guerra que tinha estalado entre os dois adultos fizera deles os únicos prisioneiros. Ele chegava a casa e ficava a olhar à volta como se estivesse aparvalhado, como se se tivesse enganado na porta e entrado pela casa dum vizinho. Era uma questão de tempo.

Mas enquanto o tempo não vinha, ele sentava-se, noite após noite, no quarto dos miúdos, as lágrimas a correrem pela cara, os olhos perdidos nos desenhos mal colados nas paredes. Podia dizer quantas horas faltavam exactamente para os voltar a beijar. Mas só ali, tão-só como se estivesse nu, podia deixar correr as lágrimas. Fora da porta daquele quarto, colava uma expressão no rosto e dizia em voz alta: «É tudo uma questão de tempo!»

Publicado in DESTAK

P.S.

Obrigado a quem me avisou do erro ortográfico


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publicado por Luísa Castel-Branco às 09:17
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18 comentários:
De João Cordeiro a 18 de Setembro de 2007 às 10:40
Querida Luisa,
Mais um tema que infelizmente nos obriga a pensar…
Isto é um desabafo de quem realmente sofre…
Somos filhos de pais separados e estamos revoltados. Porquê?

Por causa das brigas que vimos, da violência das pessoas umas contra as outras. O pior, porém, é quando nós, os filhos, temos que decidir, em tribunal, com quem ficamos. Nessa altura sentimo-nos muito mal porque gostamos do pai e da mãe e não sabemos com quem ficar.

"E o Natal?", "E as férias?"
São quase sempre um inferno. No dia-a-dia ficamos com saudades do pai ou da mãe com quem não vivemos, e no Natal ainda é pior porque deixamos de ter os pais juntos. Nas férias é mais fácil, apesar de não ser bom, porque podemos dividir o tempo com o pai ou com a mãe.


De AL a 18 de Setembro de 2007 às 11:34
Uma separação física é sempre dolorosa. Infelizmente, há pais que, com o tempo, se habituam ao afastamento e vão esquecendo as suas obrigações.
Felizmente que existem também pais em part-time que desempenham assim melhor os seus papéis do que convivendo todos os dias com os filhos e partilhando com eles um full-time de qualidade duvidosa.





De Margarida C.C.S.P. a 18 de Setembro de 2007 às 18:37
Querida Luísa,

Encontrei o seu Blog por acaso e desde logo fiquei "presa" a ele. Há imensos temas que irei comentar ao longo do tempo. Para já e por falta de tempo, só posso comentar o tema de hoje.

Tudo na nossa vida se resume a uma palavra, TEMPO.

Se estamos deprimidos a culpa é do tempo.
Se o trânsito está caótico, é porque está mau tempo.

Na realidade todos precisamos de...

Tempo para nascer,
Tempo para andar e falar,
Tempo para crescer,
tempo para estudar,
Tempo para olhar os outros,
Tempo para trabalhar,
Tempo para amar,
Tempo para os filhos,
Tempo para nós,
Tempo para ultrapassar as mágoas,
Tempo para os pais,
Tempo para viver.

Concordo em absoluto consigo quando diz
"é tudo uma questão de tempo".

Até breve.



De Luar_Amigo a 18 de Setembro de 2007 às 20:54
Menina Luisa (trato-a assim, pois vejo-a com um ar de menina que parece nunca se perdeu no tempo). Devo dizer que gosto de ver e ou vir atentamente a sua opinião sobre os mais variados assuntos. Era um fiel seguidor do programa em que participava na SIC Mulher, pois sempre achei que tem uma boa dicção e opinião directa, sem as ditas "papas na lingua".
Em relação ao tema deste Post, é uma situação que nos nossos dias tem vindo a ser mais vulgar e, em certas situações, é preferivel que os pais sejam separados e os filhos felizes do que estarem juntos para manter as aparências, mas os filhos não viverem na harmonia desejada....
Desejo que continue a criar Posts alusivos a assuntos como este e não só e, também, dar-lhe os Parabéns pela mulher que é e muitas vezes pela força que possa não ter mas que a transmite aos outros...

Um grande beijinho desta Cidade Invicta.

Jorge Mota


De Viktor a 19 de Setembro de 2007 às 00:35
Cara Luísa,
o sofrimento é parte integrante de quem ama.
Cada um de nós tem diferentes formas de encarar a perca, mesmo que seja apenas momentânea.
O choro reflecte o que lhe vai na alma no momento, as boas recordações, a solidão e a ansiedade que em casos extremos pode mesmo levar as pessoas à depressão.
Todos nós temos uma missão neste mundo, e dentro desta as nossas pequenas missões Kármicas. Assim sendo temos de nos convencer disso e aceitar as coisas como elas são, sós ou solicitando ajuda de terceiros.
Deus nunca nos coloca perante uma situação que não consigamos ultrapassar.
Gostei do cantinho.
Saudações Reikianas - Namasté.


De Menina_Marota a 19 de Setembro de 2007 às 20:19
Este Post, fez-me recuar quase trinta anos, em que eu, ainda uma menina, fiquei sozinha, cinco meses depois de ter casado e, grávida de dois meses...

Acreditei ser o fim do Mundo!

E enquanto, alguns familiares do meu ex-marido (ele tinha "fugido" com outra...), me aconselharam a abortar, porque iria ter um empecilho na minha vida, ficar com um filho nos braços tão nova, eu resolvi enfrentar o Mundo e a Vida (e uma gravidez completamente sozinha) … porque afinal, não foi o fim do Mundo. A minha filha cresceu sem o pai a seu lado. Anos mais tarde, apaixonei-me de novo por alguém, que se tornou, efectivamente, um Pai para a minha filha. Tive outro filho. Desta vez, planeado e com uma gravidez, super acarinhada e amada.

Por coincidência, no meu último post, falo dos meus filhos…

Valeu a pena. Valem a pena.

E, acreditem, sou uma Mulher feliz e realizada, acima de tudo como Mãe. O passado? Não o esqueço, serve-me para cimentar ainda mais, o meu amor à Vida e a lutar por aquilo em que realmente, acredito.

Por isso, só posso dizer, o que o meu coração dita: limpe as lágrimas, cabeça levantada e lute por aquilo em que acredita.

Um abraço carinhoso


De Anónimo a 19 de Setembro de 2007 às 21:24
Cara Luísa, deparei com o seu blog por um feliz acaso, ao pesquisar matéria sobre "O SEGREDO". Já fiz aí um comentário e um outro no tema anterior. Quanto a este tema devo dizer que sou casada, com dois filhos já quase adultos e tive, ao nível sentimental, uma vida deveras atribulada. O amor inicial transformou-se em desilusão, por vezes nem amizade existiu nesta relação conflituosa que me esforcei em manter por causa dos meus filhos. Não quero com isto dizer que eles têm a culpa de alguma coisa, foi uma opção de vida que me votou ao abandono de mim própria, ao anular da minha personalidade para a vida ir correndo dentro de uma certa, não sei se deva assim chamá-la, harmonia. Hoje acordei para mim, aos 43 anos ainda mantenho essa relação mas consegui, passado 24 anos, definir o meu espaço. Acabei a minha licenciatura, sonho da minha adolescência, vou começar um mestrado em tradução. Tento esquecer os dias difíceis vividos e presenciados pelos meus filhos e tenho uma certeza: Muitas vezes é bem melhor que os pais se separem, a qualidade do tempo que se passa com as crianças é o que de melhor lhes damos. As minhas crianças tiveram os pais juntos mas, principalmente a minha filha, sofreram calados ao ver determinadas discussões e outras... Hoje quase não fala com o pai embora vivamos todos juntos. Tem uma grande mágoa e julga os namorados e amigos sempre com a referência negativa do progenitor. Valerá a pena o sacrifício da vivência a dois? É positivo alimentar relacionamentos problemáticos? Acreditem que não, eu continuo aqui apenas porque não tenho familiares próximos, não tenho um emprego com estabilidade, embora trabalhe e muito! Também preciso de continuar a assegurar uma casa aos miúdos que terão que viver aqui até acabarem os cursos e arranjarem emprego. Eu, simplesmente desliguei o botão da vida de casa, represento um papel que já não me cabe por tudo o que referi. Libertem-se enquanto é tempo, enquanto não fazem as crianças sofrer, elas nunca esquecerão as vidas complicadas dos progenitores, não sigam, na totalidade o meu exemplo...


De resurréxit a 20 de Setembro de 2007 às 09:49
Logo no início do texto notei um erro "grosseiro" cuja existência não se coaduna com a imagem de rigor e qualidade que tinha da autora. Por favor, tenha mais cuidado pois, a situação em causa, para além de ser desagradável é um (mau) exemplo para a nova geração de "bloggers" e só mostra que nem tudo vai bem neste "reino" de pseudo-intelectuais...
Peço desculpa mas, não referi que a palavra em questão está inserida no segundo parágrafo, e deveria ser “ASSÉPTICO” e não como foi escrito acéptico. Ainda se fosse acético tinha a ver com o princípio activo da transformação química do vinho para vinagre. Mas que coisa, isto até parece de propósito… Felicidades.


De homem de negro a 20 de Setembro de 2007 às 15:03
Olá...
Este texto foi-me levado por alguém que o deixou em jeito de comentário no meu blog, não pude deixar de sentir as minhas lágrimas a querem saltar do rosto enquanto o lia porque encontrei muito do que vivi quando ocorreu a minha separação...
Com a devida vénia e a indicação de onde foi retirado, tomei a liberdade de o publicar no meu cantinho porque entendo que, muitas vezes, são os outros que escrevem aquilo que nós estamos a sentir e não conseguimos transmitir...
Deixo-lhe um beijo, gosto sempre muito de ler as suas palavras porque tem o condão de me tocar...
A gente vê-se por aí...


De sAndRa a 20 de Setembro de 2007 às 18:07
Fantastico texto!
Espero nunca passar pelo o mesmo, por tamanha dor.
Um beijos


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