Terça-feira, 2 de Outubro de 2007
É Tudo Mentira!

Quando eu era mais pequenina, acreditava que as estrelas me ouviam, quando eu espreitava pela janela e olhava para a noite escura. Falava com elas de mansinho, devagar e baixinho para que ninguém me pudesse ouvir, e tinha a certeza de que elas, a brilharem lá em cima, percebiam tudo o que eu dizia.

Mas agora, que já tenho dez anos, não acredito nas estrelas. Se elas fossem boazinhas, se elas me ouvissem de verdade, eu não precisava de estar aqui escondida por debaixo dos cobertores, a cantar uma música dentro da minha cabeça para ver se o medo foge.

Também já não acredito em fadas, nem anjos-da-guarda como me ensinou a professora na escola.

É tudo mentira. Se eles existissem, e as estrelas fossem minhas amigas eu não estava aqui. Mas estou.

E todas as noites fico agachada no meu quarto, com medo de ouvir os passos a chegarem à porta. Fico a tremer só de pensar nisso e não quero dormir porque posso não ouvir os sapatos dele e só acordar quando ele mete as mãos dentro dos meus lençóis. À minha Mãe não posso dizer nada porque ela está sempre a dizer para eu a largar, ela está sempre cansada e não fala porque também tem medo dele. Mas se as estrelas não me ouvem, as fadas e os anjos-da-guarda não existem, então a quem hei-de eu pedir ajuda?

Os adultos são todos mentirosos. Cheiram a álcool ou a suor e quando têm um sorriso na cara é porque vão fazer-me alguma coisa. Só a professora Alice é diferente. Só ela me faz festas na cabeça, dá-me chocolates às vezes e diz todos os dias a mesma coisa: «pobre menina.» Devia ser esse o meu nome.

in Destak 2.10.07



publicado por Luísa Castel-Branco às 10:57
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13 comentários:
De Inês a 2 de Outubro de 2007 às 15:39
É uma tenebrosa realidade.
Mas é preciso ter consciência de que é um problema que está em TODO o lado e, sobretudo, não traz sempre o cheiro do álcool e do suor...


De Patrícia a 2 de Outubro de 2007 às 21:21
Uma triste realidade ,mas muito bem tratada aqui neste seu texto ,tal como nos tem sempre brindado.
Muitos beijinhos e coninuaçao deste excelente trabalho.


De Carla a 2 de Outubro de 2007 às 22:58
Fantástico texto.
Triste realidade.
Pudera eu dar a mão a todas as/os "pobres meninas/os" que pela noite fora rezam ás estrelas e aos anjos...*


De Carlos Fragata a 3 de Outubro de 2007 às 00:04
Marcas indeléveis... com suor ou com perfumes caros, a ferida tem a mesma profundidade.


De Alfa a 3 de Outubro de 2007 às 02:07
Lindo! Gosto da sua escrita e da sua personalidade. Era e sou fã dos seus programas.Voltarei.


De Luisa a 3 de Outubro de 2007 às 12:58
Olá Luisa, fiquei arrepiada enquanto lia este texto, com tão poucas palavras e que diz tanta coisa. Esta realidade, que não é só de hoje, deixa-me revoltada, enojada. Não consigo conceber na minha pessoa, haver seres humanos capazes de tamanha crueldade, mas infelizmente há muitos, demais. Esta incapacidade que sentimos por não pudermos ajudar e salvar todas as crianças vitimas destes mais tratos que lhes arruina a vida. E, como mãe, não consigo entender com existem mães que calam estas barbaridades, não sou ninguém para julgar ou condenar essas mães, mas desculpem... não posso aceitar nem entender. Que Deus protega os meus filhos e todas as crianças do mundo.
Beijinhos
Luisa


De Luar_Amigo a 3 de Outubro de 2007 às 12:59
Pois eu ainda acredito nas estrelas, nas fadas... Enfim, prefiro continuar a acreditar no mundo da fantasia para que não se perca a criança que há em mim.... Mas, sem perder a noção da realidade da vida.

Beijokas :)


De João Cordeiro a 3 de Outubro de 2007 às 14:35
Cara Luísa,

uma triste realidade contada de forma absolutamente genial.
Sabemos que esses “sorrisos” irão sempre existir quase sempre de forma camuflada.
Mais uma vez a li no Destak e agradecer-lhe a maneira singular como retrata, e chama a atenção, para situações delicadas que vivemos no dia-a-dia.


De paulamartins3@sapo.pt a 5 de Outubro de 2007 às 16:35
boa t arde luisa eu tenho 46 e identificome kom tudo ke leio seu ou vezo na televisao tenho varios recortes seus do destak gostava de ter o seu imail desculpe ainda nao disse o meu nome / PAULA TERESA a idade ja sabe moro no PORTO sou casada so tenho 1 fiha mas ja tou aposentada por questoes de saude mas komo diria a LUISA nada e perfeito e para a frente e ke e caminho bjussssssssssss


De nanda a 5 de Outubro de 2007 às 21:35
Cara Luísa, depois de uma curta ausência, na preparação de uma candidatura ao meu ambicionado mestrado, volto a "bisbilhotar" o seu cantinho. Este artigo é duro pela verdade que encerra. Verdade que muitos continuam a negar embora, muitas vezes, conviva lado a lado com eles. Não tolero quem faz sofrer, quem nega a realidade e nada faz para a reverter. Só consigo lembrar o poeta e fazer minhas as suas palavras: "mas as crianças Senhor porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?".
É preciso combater a indiferença, olhar para um lado negro que nos entristece e nada nos enriquece... Até logo


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