Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007
Uma mão cheia de nada , outra de coisa nenhuma *
E se a vida não for isto?
E se o que estou a viver agora for apenas um sonho, um pesadelo, uma mescla disto e de tudo o mais?
E se eu for uma pedra, uma árvore ou uma mulher sentada na ombreira duma porta qualquer, os olhos perdidos no fio do horizonte, os lábios gretados e o rosto tão marcado como um tecido velho e rasgado?
A mulher olha sem ver. E tanto pode ter na sua frente um deserto árido e áspero, como uma outra porta mesmo encostada ao rosto, sem lhe deixar sequer estender as pernas.
Não tem idade e sonha dia e noite com a minha vida e por isso mesmo vive aparvalhada, sem perceber o que se passa, ao que veio e o que vai ser dela.
Se isto não for realmente a vida, então assim eu compreendo esta sensação permanente, este mal-estar que dói dentro de mim, este atordoado na minha cabeça, com tantas vozes a falarem ao mesmo tempo, tanta gente que eu não conheço, tantos sítios que vejo e que não posso saber porque nunca lá estive.
Eu estou aqui e agora mas não estou nunca aqui e agora.
Metade de mim ficou presa no passado e a outra metade anda perdida no futuro. No futuro da mulher sem idade agachada na soleira da porta a olhar o nada.
Mas nunca estou a viver o hoje.
E é terrível! É tão triste não saber saborear aquilo que vem com os dias, o sol, as trovadas secas e a música da chuva.
É tão triste este viver sem viver e estar sempre com um pé no que foi e outro no que podia vir a ser.
Às vezes, já nem é uma tristeza, é antes um vazio que gela os ossos, gela tudo o que me rodeia onde quer que esteja porque é como se eu trouxesse comigo o vazio do Universo, o buraco negro do Cosmos.
A mulher que se calhar sou eu, sentada na soleira da porta, com a saia a comer o pó da terra, não tem olhos, afinal.
Tem dois buracos negros e em vez de lábios tem uma prega caída, uma em baixo, uma em cima.
Foram os bichos que lhe devoraram as carnes, de tanto estar queda e imóvel, tomaram-na por morta, por uma pedra ou uma árvore.
 
 *Titulo de livro de contos de Irene Lisboa, 1955


publicado por Luísa Castel-Branco às 03:30
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8 comentários:
De Anónimo a 8 de Outubro de 2007 às 11:12
Sofrer por antecipação , vivermos em função daquilo que iremos ser e não aquilo que somos, torna-nos em almas penadas em vida. Por isso, permita-me que lhe envie um poema de uma mulher que conseguiu traduzir por palavras, a dor que nos vai na alma!

Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi noutra vida...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida de um lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

FLORBELA ESPANCA


VENTOS DO ORIENTE


De João Cordeiro a 8 de Outubro de 2007 às 14:43
Cara Luísa, mais um texto arrepiante.
Não conhecia, nem li este livro de Irene Lisboa.
De facto por vezes transfomamo-nos em seres amorfos.

"Agora esgueirar o passo e sair daquela zona de sombra. Mais à frente, do lado oposto, há sol e os velhos colaram-se aos bancos como bonecos inertes.
Uns olham o mar, outros os pés. A morte não gosta de sol, talvez seja por essa mesma razão que todos eles se pregam naqueles bancos velhos carcomidos pela humidade e salmoura.
O dia acordou com cheiros de inverno, o Sol, tímido, apenas se faz notar por entre a folhagem húmida da minha floresta. Cruzei a noite, que se vestiu de mim, na plácida tranquilidade do seu silêncio. Espero agora pelos sons do dia.
O cansaço massacra o corpo, mas os espírito sempre desperto não cede, força-me a estar acordado, mesmo quando estou a dormir. Durante o dia o homem onde vivo, labuta, incessantemente, de noite, a alma que nele habita, deixa o seu corpo dormir, fazendo-o estar acordado para sonhar.
Encontro a paz, no silêncio das manhãs frias de Outono, nos dias chuvosos de Inverno, ou, na calmaria das noites de Primavera. "

Linkei o seu blog, espero que não se importe.

Obrigado
JC


De Patrícia a 8 de Outubro de 2007 às 20:10
É uma grande inspiração.
Bjinhos


De Helena a 8 de Outubro de 2007 às 22:27
Por vezes vemos a vida a caminhar diante de nós. Figuras que são sombras que se assemelham à nossa figura e à passagem pelas mts ombreiras onde ficamos, demasiadas vezes paradas, percebemos que nada para quando nós paramos, nada termina quando o mundo termina para nós, os outros não deixam de respirar, nem falar, nem sorrir, nem sonhar... só nós, as que sentem, a quem lhe dói a alma tantas vezes por razão nenhuma, ficam paradas perante a vida por pensar, erradamente, que por vezes mais vale "mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma".
Na maioria dos casos caminhar e entrar no sonho de uma vida preenchida, apenas porque merecemos sentir uma vida completa, não era assim tão fácil, era talvez arriscado e no fundo é a isso que tudo se resume: ao risco. Valerá a pena ou voltarei aqui, a este lugar onde estou entre mim mesma e me vejo passar sem me reconhecer?
Um grande beijinho para si!
Espero que a Luisa, nem ninguém, em momento algum, reconsidere que a hipotese de deixar de dar passos seja opção a tomar!


De paulamartins3@sapo.pt a 9 de Outubro de 2007 às 15:42
paulateresa---nao sei que dizer mais uma vez obrigada sao poucas as mulheres que que digam o que lhe vai na alma .bjs


De açoriana a 9 de Outubro de 2007 às 21:40
é uma nostalgia,o texto, é bonito é triste, é um tudo e um nada. é como um dia, penso que o ser humano se sente um nada. talvez como me sinto hoje, so me faz juntar a mão um cigarro para aumentar a nostalgia.
e olhe obrigado por eu estar agora aqui a divagar qualquer coisa


De Cassinda a 11 de Outubro de 2007 às 14:44
Gostei imenso! até estou comovida :')

Continue! ;)


De Sandra Vieira a 12 de Outubro de 2007 às 22:54
Às vezes sinto que não vivo tanto quanto devia, que não aproveito tanto quanto devia!!!
Às vezes sinto-me meio desorientada como se a minha vida estivesse a ser vivida, mas sem eu estar a tirar partido dela.
às vezes, deixo escapar o momento (tal como diz no desafio nº2, ARRANJO DESCULPAS, para me convencer "Vá lá, rapariga, fica para a próxima!". e, se a próxima não vem??? Por exemplo, e pode-lhe parecer um exemplo estúpido (mas talvez não). Sou jornalista de formação, mas dei formação na área de informática durante dois anos num centro de formação em Lisboa. E um belo sábado, chego eu ao meu trabalho, e lá está a Luísa Castel-Branco. A grande comunicadora de "Emoções Fortes", "noites Interactivas" (se a memória não me falha, com o Cláudio Ramos) que sempre me deliciou e que me inspirou a seguir o curso que segui... E por receio! Por não sabia se o patrão mal-disposto estava! E o que vão pensar as colegas?! E será que vou chatear a senhora?! Retraí-me! E não fui falar consigo!
Lá se foi a oportunidade!!! E será que há uma segunda oportunidade?!
Um grande beijo!


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