Terça-feira, 9 de Outubro de 2007
Sonhos acumulados

Colocamos os sonhos numa gaveta qualquer, escondidos no fundo do nosso coração ou naquele lugar secreto onde guardamos as memórias em surdina, não as outras que nos podem acorrer de livre vontade. Umas vezes amarfanhados, outras vezes direitinhos e dobrados ao meio, a verdade é que, por cada sonho que a vida ou os outros ou nós mesmos nos roubamos, a gaveta vai enchendo e enchendo cada vez mais. É assim a vida.

Como também acontece, um dia e de repente, a gaveta ou caixa de papelão, rebentar de tão cheia que está, de tão pesada que nos verga os dias e damos por nós num pranto desfeito, se tivermos sorte, ou num silêncio de morte, que cai sobre a nossa existência para não mais se levantar. E o que responder aos outros quando nos interrogam o que se passa. Não há nada para dizer. Nada. Simplesmente esgotámos a reserva que nos tinha sido concebida, por alguma força desconhecida, para enfrentar a realidade.

E ficamos secos, sem chama, sem alento e cumprimos os dias e nada mais. Até que certa manhã, por exemplo, a chuva cai de repente e as cores brilham de forma luxuriante, um dos nossos filhos abraça-nos sem razão alguma, ou encontramos por acaso alguém que conhecemos e que padece de males maiores. Então, olhamo-nos de esguelha no espelho com vergonha das nossas fraquezas, limpamos a gaveta dos sonhos não concretizados e começamos do zero. Uma vez mais.

in Destak 9.10.07



publicado por Luísa Castel-Branco às 23:40
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21 comentários:
De Fernanda a 10 de Outubro de 2007 às 17:26
è mesmo assim..............


De nita1964 a 10 de Outubro de 2007 às 17:42
Pois é tantos sonhos que ficam por realizar, mas cada vez há menos coragem para começar de novo e ficamos quietas á espera que alguém nos ajude a ver que o sol ainda existe e que a vida não é sempre negra


De paulateresa a 10 de Outubro de 2007 às 18:24
boa tarde luisa eu acho que e isso que fazemos quase todos dias comecamos do nada bjs e bem aja por existir uma senhora chamada LUISA CASTEL-BRANCO.


De impressoesdigitais a 10 de Outubro de 2007 às 22:03
Olá Luísa. Permita-me que me dirija assim. Acabei de ler o seu desafio n.º2 e achei que tinha muita razão naquilo que disse. É verdade, nós temos uma tendência terrível para pensarmos nos outros antes de pensarmos em nós. Eu, por exemplo, sou uma mulher de 29 anos e deixo que os meus pais me continuem a tratar como uma menina, sendo incapaz de quebrar a dependência que se gerou entre nós, porque tenho sempre medo de os magoar se tomar uma atitude mais radical, por ser filha única e achar que eles precisam de mim. Assim, estou constantemente a adiar os meus sonhos e constantemente a adiar a minha vida e a deixar de fazer aquilo que realmente gostaria de fazer.


De Inês a 11 de Outubro de 2007 às 01:42
E eu estou à espera dessa chuva...


De João Cordeiro a 11 de Outubro de 2007 às 18:21
Cara Luísa,
coincidência ou não, eu também gosto de escrever sobre sentimentos. Sempre com o que me diz o coração.

As recordações, os sonhos são uma etapa da existência do ser humano.
É bom recordar... recordar é viver... viver é recordar. Levanto-me e abro a janela. Respiro. Ar puro depois de uma noite agitada.
Levanto-me desta cama, onde já não habitas. Respiro.
Abro a janela e a luz entra, luz que me fere os olhos, que quase me cega.
A luz entra juntamente com o vento. O vento; és tu que me acaricia, que tem as tuas mãos, o teu rosto, o teu corpo, o teu toque, a tua pele.
Os meus pensamentos voam até ti, quando ainda éramos, quando ainda acontecíamos, quando eu te via e tu me vias e nos amávamos. Não são noites como esta que desejo. Sim, naquelas noites em que me entregava nos teus braços era tudo o que queria: eras fogo, sol de Verão, luz, noite de lua cheia, eras bênção, olhava-te nos olhos e sorrias, com aquele teu sorriso.
Amava-te com medo e calma, mas tu dizias... que me amavas, que não me querias perder.
Solidão, palavra simples e simultaneamente tão complexa. Cada vez mais presente nas nossas vidas.
Solidão é aquele estado em que tu estás no meio da multidão e ainda te sentes sozinho. Estás com a pessoa amada do lado, mas ainda te sentes desamparado.
Que o teu telemóvel nunca toca e quando toca é engano.
Perceber que ninguém te diz um "bom dia" sincero e ninguém te pergunta como estás.
Olhares para o teu e-mail e notar que só tem spam.
Chegar a casa, ligar a TV e ver que as notícias parecem as mesmas.
Abrires o frigorífico e não comer, porque não há o que comer dentro dele.
Ires almoçar ou jantar num restaurante sentado numa mesa de canto para não ser observado.
Ir ao Colombo fazer compras para se distrair.
Olhar as imagens de uma exposição rapidamente para não passar vergonha em público.
Ir assistir a um filme no cinema, e o mesmo ser daqueles românticos, que te fazem chorar e teres de esperar que toda a gente se vá embora primeiro para que ninguém veja o quanto és sensível.
Ligares para todos os teus amigos e notares que nenhum se encontra em casa, seja à hora que for.
É teres um caderno para ficares escrevendo poemas melancólicos e não ter para quem mostrar ou ler.
Dizeres um "bom dia" e ninguém responder.
Verificares que a tua vida é casa-trabalho-trabalho-casa. Os fins-de-semana a comer e a ver TV.
Os teus amigos pedirem para tu lhe ligares, e quando o fazes, eles estão sempre ocupados.
Será que tudo isso é mesmo solidão?
Ou é uma enfática demonstração, de pessoas que não simpatizam contigo?



Esta é a minha triste e fastidiosa realidade. Triste, não?
E ainda existe gente que morre de inveja de mim. Dá para entender?


Obrigado pelas suas crónicas.



De Patosca a 28 de Outubro de 2007 às 14:01
Não pude deixar de comentar... pensei que eram minhas as suas palavras! Nem eu saberia descrever o meu dia a dia tão bem como está no seu post. Espero sinceramente que seja apenas solidão o que nos acontece porque eu não sei se aguentaria que fosse outra coisa qualquer!


De TiBéu ( Isa) a 11 de Outubro de 2007 às 22:25
Adoro ler os seus textos, não sei porque passo por aqui leio e saiu. Mas hoje vou deixar um bj e dizer que coscordo consigo, pois é mesmo assim. abraço


De Sofia a 12 de Outubro de 2007 às 01:32
Olá Luísa,

Gostei muito deste seu artigo. Conseguiu de uma forma simples traduzir o que foi para mim este ano de 2007...limpei a minha gaveta! Tenho 29 anos, não sei se existem idades certas para "limpar a gaveta", nem sei se aos 29 anos é tarde ou não...para mim foi o momento certo.
Foi o arrumar de histórias antigas, tristezas, alegrias... definir pessoas pela sua importância, definir o meu trabalho e acima de tudo a forma como vejo as coisas. Arrisco mesmo a dizer, que sou hoje uma pessoa melhor do que fui, mas ainda longe do que desejo ser...
Da gaveta saíram os sonhos amarelos (envelhecidos pelo tempo), saíram os que deixaram de fazer sentido, os que estavam esquecidos e amarrotados, saíram nomes de pessoas e encerram-se ciclos.
A minha gaveta ficou vazia! Agora apenas irão ficar os sonhos que conseguir alcançar, e não têm necessariamente de ser grandes feitos...na proporção megalómana que os sonhos actualmente têm, basta passar um dia a sorrir, ajudar um amigo, fazer um bom trabalho, apreciar um cheio...coisas simples e presentes. Ainda vejo o fundo da gaveta, mas aos poucos, tenho a certeza que a vou encher novamente, para voltar a esvaziá-la com a sensação de uma parte de dever cumprido.
Por vezes tenho recaídas, e relembro alguns antigos sonhos - este processo nem sempre é fácil - mas depois volto a mim e penso que acima de tudo, o que importa é viver ao máximo o presente. Estar bem com a vida, comigo mesma...no fundo ser feliz, sem viver na ansiedade das coisas que não fiz ou não tenho. Sou o que sou agora e amanhã logo se vê!
Obrigado por este seu texto.


De Filipa a 12 de Outubro de 2007 às 11:07
"Conheci" o seu blog recentemente, mas desde então, sou uma leitora assídua das suas crónicas. Desta vez, não consegui sair sem comentar. As suas palavras pareciam resposta ao vazio que sinto dentro de mim..os sonhos invadem-me, talvez até em demasia, mas a solidão não me larga..sinto-me só, rodeada de gente.. Tendo em conta os meus 21 anos, não será a melhor forma de viver esta fase da vida...se me sinto assim aos 20, como será aos 30 ou aos 40...
Espero, muito sinceramente, que se dê um "click" na minha vida, porque não tem sido por falta de iniciativa da minha parte que ele não acontece...
Um beijinho muito grande e obrigado pelos momentos de tranquilidade, conforto e companhia que as suas palavras me dão**


De veras a 12 de Outubro de 2007 às 15:01
Ola! Filipa
Li o teu comentário e revi-me nele, apesar de já ter 33 anos!!
A solidão que sinto e o vazio é algo que me consome de segundo a segundo, espero sinceramente que consigas dar a volta à tua vida pois ainda tens muito pela frente.
Qt ao blog não o conheço á muito mas pelo pouco que li nos faz pensar e reflectir na n/ vida.


De vania a 16 de Outubro de 2007 às 19:14
Olá,

so para dizer que tambem eu aos 21 me sentia assim.. mas posso garantir-te que aos 28 a a caminho dos 30, sente-se uma maior consciência do que se quer e é se mais feliz com aquilo que se é e com o mundo..

Se feliz!


De KI a 12 de Outubro de 2007 às 21:45
E as gavetas podem empenar, prefiro guardar os sonhos numa arca e mudá-los como se faz nas diferentes estações com a roupa, é bom reencontrá-los e mais ainda pensá-los de outra forma.

Gosto de a ler. Saudações.


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