Terça-feira, 11 de Novembro de 2008
A dor maior do mundo
 
 

Nunca imaginara que existisse uma dor tão forte, tão pungente, tão violenta que lhe cortava o corpo, como facas espetadas.

Era como se todo o oxigénio tivesse sido sugado ao Universo e ela tentava sofregamente respirar, mas não conseguia e na verdade, também não o queria.

Aquilo que ela realmente desejava era fechar os olhos para sempre, deixar de existir como o seu filho, partir para o mesmo local onde ele agora estava e, por isso, o simples acto de abrir os olhos todas as manhãs era uma violentação.

Que fazia ela aqui, quando a melhor parte de si tinha-lhe sido roubada, de repente, sem sentido?

A casa continha o perfume dele, entre as paredes escondidas as gargalhadas dele, e os seus olhos doces, castanhos, estavam pintados por todo o lado, como um véu que cobria tudo o que restava do que fora a sua vida.

Ah! Porque não fora ela a partir? Porque estava condenada a viver, se cada dia era como uma pena pesada, se cada dia era um dia que tinha sido roubado ao seu amado filho!

Ah! Onde estava o seu Deus? Onde estava a tal paz que a Fé lhe devia transmitir mas nada, não sentia nada a não ser revolta, raiva, uma fúria que lhe dava vontade de arrancar os cabelos mas não tinha forças, não existia já e para ali ficava, no quarto dele, a porta fechada ao mundo, ela a mexer nos apontamentos dele, a letra tão desigual, tão viva!

O que restara dele eram essas pequenas coisas. A camisola enrolada na cadeira, o computador fechado, os livros abertos. A realidade era aquilo? Aquele quarto que nunca mais seria habitado?

Ela morria todos os dias um pedacinho, e era isso o futuro.
Porque não morrer de uma só vez?

 

in Destak 11 | 11 | 2008  



publicado por Luísa Castel-Branco às 10:13
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