Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
Rosinha

Eu e a Rosa, como viemos a descobrir, tínhamos muitas coisas em comum.

A enorme diferença entre mim e esta querida amiga que hoje faleceu, é contudo gigante.

Rosa Lobato Faria era uma escritora de renome, uma letrista de renome, uma actriz reconhecida. Estou longe de ter as suas qualificações.

Mas, quando a conheci pessoalmente e conforme o tempo foi passando, descobri as nossas semelhanças.

Tal como eu, a Rosa era tida como arrogante. E tal como eu era sempre vista como alguém que vivia e tinha vivido sempre muito bem na vida, com um olhar conservador sobre o mundo.

E nada podia estar mais errado do que pensar isto desta “mulher coragem”!

A Rosa que disse claramente em entrevistas que andou a vender enciclopédias de porta em porta para ganhar dinheiro para poder sustentar os filhos. A querida Rosinha que era dos seres humanos mais revoltados contra a injustiça e mais intervenientes que alguma vez conheci.

A imagem que passava dela, a imagem que o publico recebia como verdadeira não era forçada, nem desejada.

E a Rosinha nunca se coibiu de dizer isso mesmo. De ser o mais politicamente incorrecta que se pode imaginar e abraçava a vida com uma energia que nunca consegui compreender onde a ia buscar.

Revi-me nela porque a imagem que muita gente tem de mim é em tudo igual, e em tudo igualmente errada.

A Rosinha ia apresentar o meu próximo livro, aquele que ainda estou no inicio. Porque a admirava do fundo do coração e a respeitava da mesma forma, mas principalmente porque ela tivera a amabilidade de gostar da minha escrita.

Que estupidez que acabei de escrever! A Rosa Lobato Faria era pessoa para se calar com alguma delicadeza, embora o seu rosto denunciasse o que lhe ia na alma, mas não era pessoa para ser amável na apreciação de um livro!

Ah! Que enormes saudades que vou ter desta grande mulher! E como me parece tão natural que ela tenha partido tão pouco tempo, não sei quanto mas talvez menos de um ano, após a partida do marido, o seu grande amor e um dos homens mais fascinantes que alguma vez conheci!

A Rosinha foi amada tão profundamente! Mas era essa a forma que também ela tinha de amar.

Até amanhã minha amiga.

 



publicado por Luísa Castel-Branco às 17:59
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