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Luísa Castel-Branco

Partilhar a dor

Luísa Castel-Branco, 12.02.08

Fui ao Hospital da Cuf visitar uma amiga que está nos cuidados intensivos. Quando saí e me encaminhei para o elevador, colocou-se a meu lado um senhor, de 70 anos talvez, alto e com um rosto de estrangeiro. Quando entrámos no elevador, perguntou-me se falava inglês. Disse-lhe que sim e por poucos segundos ficámos calados. Logo de seguida, ele diz-me que vive no Algarve e que a mulher estava ali nos cuidados intensivos porque tinha tido um AVC.

«Foi muito forte. Ela tem o cérebro cheio de sangue e os médicos queriam operar mas eu disse que não. Nunca se sabe o que pode acontecer quando se mexe no cérebro de um ser humano». Respondi-lhe que tinha tido um AVC aos 49 anos. «Mas a minha mulher tem 86. Não é justo condená-la a acabar a vida agarrada a uma cama, sem ser ela mesma».

Saímos a porta do elevador. Ele parou, olhou para mim e perguntou: «Não concorda?» Respondi-lhe que sim, que já tinha pedido à minha família que se acaso eu tivesse outro AVC e fosse de consequências tão graves assim, que não tentassem manter-me viva a todo o custo

«Preciso de apanhar ar. Estou muito cansado. As filhas da minha mulher chegam amanhã e vão ajudar-me mas há dias que não saio da beira dela, estou sempre a conversar com ela.» Afinal, tinha bem mais de 70 anos. Os ombros foram descaindo com a conversa e os olhos foram ficando mais vazios. «Foi um prazer falar consigo. Adeus.»

Começou a descer a caminho da rua. Nunca estamos preparados para dizer Adeus. Aquele homem estava só, e precisou de falar. Como se ao pôr as palavras cá fora a dor ficasse mais pequenina.

in Destak 12.02.08

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