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Luísa Castel-Branco

"A saudade é fechar a porta do quarto do filho que morreu"

Luísa Castel-Branco, 08.04.08

Arrancaram metade de ti, amputaram metade de ti e tu para aqui ficaste, a fingir que vives, a fingir que estás cá mas é mentira.

Encolhes-te quando alguém fala com medo que digam o nome dele, com medo do sacrilégio de alguém seja quem for, até o teu marido, mencionar o nome dele, que ninguém tem esse direito, ninguém.

Morreste no momento em que o teu filho morreu, e não estavas lá, não pudeste pegar-lhe na mão e ampara-lo uma ultima vez.

E amaldiçoas esse momento, esses segundos que o Universo te roubou, porque já perdeste as forças para encontrar respostas para o que aconteceu, e então, revoltas-te contra a tua ausência perto do teu menino naquele momento em que subiu aos céus.

Não que encontres consolo ou acalmia na certeza de que ele lá está lá em cima, perto de Deus, desse Deus com quem cortaste relações para sempre, porque te roubo o maior bem da tua vida, a tua razão de existir.

Os dias correm e sabes pelos outros que os anos passam, que tu não tens a noção, ficaste presa naquele dia, naquele momento, naqueles segundos.

Os outros, acreditam realmente que o tempo tudo cura.
Mas os outros não tiveram o teu menino no ventre, não o pariram, não o embalaram nem lhe limparam as lágrimas.
Para ti, todos os dias são iguais. E passas à porta do quarto dele, onde não autorizas-te ninguém a mudar um simples papel: "Mariana, está na altura" e tu que te fingis surda.

Todas as noites abres a porta de mansinho, entras no quarto dele, e sentas-te na borda da cama.

E choras, choras mesmo quando já não tens lágrimas, em silêncio.

Que interessa o mundo fora daquele quarto?

in Destak 8.04.08

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