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Luísa Castel-Branco

Recordar coisas simples

Luísa Castel-Branco, 22.04.08

Gosto do rasgo branco nos céus, quando os aviões deixam pegadas, como se fossem sinais de luz branca.

Gosto do vento, mesmo quando tenho medo, quando uiva de tal forma que parece que o demo desceu à terra.

Gosto da chuva. Do cheiro da chuva. Do sabor da chuva. Do perfume a terra molhada, a roupa a secar. E do aroma da madeira a estalar na lareira, azevinho a perfumar a casa.

Gosto da luz da cidade, quando o dia nasce e se reflecte nos telhados, ou quando o sol se põe e uma estranha cor, meio rosa, meio cinza, aflui vinda não se sabe de onde e abraça os telhados, a calçada e desagua no rio.

O que vou recordar, no momento em que me despedir desta vida? Isto tudo? Ah! Tenho por certo que não.
Seguramente que partirei a sentir o odor dos meus filhos quando nasceram, do primeiro ao último sorriso. Do primeiro ao último beijo. Aqui sentada a olhar o céu que escurece, uma mistura de sons, perfumes e paladares marcam-me como dedadas.

A vida é pouco mais que isto. Quedar-me imóvel como se pertencesse à paisagem, e o amanhã não fosse importante porque não existe. Só o aqui e o agora.

Com os anos, a visão que temos do mundo vai-se transformando, primeiro num alvoroço e depois, quando a idade começa a pesar, de forma lenta mas enexorável.

Os pensamentos entrelaçam-se numa languidez que nos entorpece o corpo, com as memórias de outros tempos, recordações que ficaram. Dou comigo muitas vezes a imaginar como será essa última etapa da minha vida. E espero conservar esse bem inestimável, a memória dos dias felizes, dos risos e do perfume do meu lar.

É quanto basta.

in Destak 22.04

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