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Luísa Castel-Branco

Os Domingos

Luísa Castel-Branco, 13.05.08

O pior de tudo era mesmo os domingos. Não sabia explicar porquê, mas ao sábado ainda conseguia passar o dia ocupada, eram as compras da semana, um filme na televisão, enfim, não custava tanto.

Mas os domingos eram terríveis. A solidão doía mais. Ia ao café e por todo o lado famílias, crianças a correrem, namorados de mão dada. E ela tentava preencher o dia. Tentava limpar a casa já limpa, sentar-se em frente ao televisor, ler um livro, mas nada resultava. Da rua chegavam até à sua janela risos e conversas. Portas que abriam e fechavam, um corrupio que só acalmava com a noite, menos no Verão, que as gentes ficavam por ali, na cavaqueira, sem pressas. Acordava à mesma hora de todos os dias, como se fosse trabalhar.

Mas não. Não havia trabalho, o telefone não tocava nunca e o dia escorria mais devagar que o pingar de uma torneira. Lembrava-se então de outros domingos. Quando ela e o marido saíam para passear, ele a ler o jornal na esplanada e ela uma revista. Ela a cozinhar para ele, ele sempre tinha gostado da sua comida: «Tens dedo para a cozinha, Manuela, sim senhor!» Ele que gostava pouco de conversar, ainda menos de saídas nocturnas e sentia-se bem em casa, naquele lar confortável.

E hoje, que era domingo, o sol aquecera a cidade de repente e na rua os carros enchiam-se de famílias a debandarem para as praias, a ela só lhe vinha à cabeça o quanto ele detestava o calor, a praia e as enchentes e ela, em mais de vinte anos não se recordava de ter pisado a areia uma vez. E agora, que havia sempre gente boa com informações frescas para lhe depositar no colo, agora ele gostava de praia, e até de sair à noite.

E, mesmo tendo já passado dois anos desde o dia em que ela chegara a casa e antes de despir o casaco ele dissera com uma voz tão normal: «Manuela eu vou-me embora» e ela com o casaco meio a cair e ele já porta fora, ela continuava sem perceber. Apenas tinha uma certeza: Os domingos eram o pior.

 

in Destak 13.05

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