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Luísa Castel-Branco

Palavra mágica: Mãe

Luísa Castel-Branco, 21.05.08

Dirigiu-se uma vez mais para a clínica. O ritual era sempre o mesmo. E, mês após mês, quando fazia a análise e descobria que não tinha engravidado, não conseguia deixar de se esconder e chorar baixinho.

Estava um dia lindo. O sol começava a aquecer as ruas, e havia o bulício normal das primeiras horas da manhã.
Mesmo ao lado da clínica, por coincidência, havia um jardim-de-infância.

E sempre que ela chegava, lá estavam os carros a pararem em segunda fila, as mães aceleradas a subirem a calçada, com os pequeninos numa mão e os cestos na outra.

A ironia da situação não a deixava indiferente. E, a maior parte das vezes, ia um pouco mais cedo só para ficar parada na rua a vê-los entrar no pátio da escola, aos gritos, a correrem, cheios de vida.

Vida. Palavra mágica.

Para uma mulher, a maternidade era algo tão natural, tão... simples. Pelo menos era assim que ela pensara até ao dia em que descobrira que com ela o caso era diferente.

E quando pela primeira vez foi à consulta, e entrou na sala repleta de mulheres de rosto ansioso e esgotado, percebeu que, afinal, ser mãe não era para todas.

Mas recusava-se a desistir. O marido começava a dar sinais de saturação. Para ser verdadeira, era bem mais do que isso.

Havia nele um afastamento cada vez maior. Dela, do projecto de ter aquele filho tão desejado. Quiçá deles mesmos e do seu casamento.

A ela, o que a alimentava eram aqueles dias em que se dirigia à clínica, e ficava parada na rua, encostada à parede de um prédio e sonhava acordada o dia em que seria ela a passar aquela porta, com o seu filho pela mão e o cesto de verga.


in Destak 20.05
 

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