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Luísa Castel-Branco

Pai, que saudades!

Luísa Castel-Branco, 05.06.08

Ontem meti férias. Sentia-me exausta e ao mesmo tempo leve, de uma forma que não conhecia há muito.

"Alma e os Mistérios da Vida" . Na noite anterior, por incrível que possa parecer, após tanto tempo à beira de um ataque de nervos, senti-me estranhamente calma no lançado do meu livro.

Mas, sabia estar rodeada de pessoa de quem gosto, a quem respeito. Pessoas que convidei exactamente por estas razões e por mais nenhumas.

Quando a apresentação terminou, ALMA voou e partiu. Senti-o tão nitidamente como se ela tivesse uma presença física e não apenas personagem de um romance.

Ontem, quando dei um dia de férias a mim mesma, o pensamento soltou-se e vagueou, numa espécie de sonolência bendita.

E, de repente dei comigo, vi-me tão claramente como se estivesse a acontecer ou fosse um filme a rodar na frente dos meus olhos.

A manhã tinha acordado há poucas horas. Estou no Seminário de Alfragide e velei o corpo do meu pai a noite toda, sem conseguir aproximar-me do caixão, fiquei cá fora, sentada na ante sala, como uma ladra que foi apanhada e aguarda julgamento.

Sei que sai a porta e estava sozinha cá fora, a imensidão do espaço a perder de vista. Alfragide ainda é quase província, não a dos meus treze anos, mas não há hiper-mercado, nem habitações até perder de vista.

Estou sozinha. Não há vento e o calor anuncia um dia de canícula. O azul do céu é estupidamente limpo, claro.

De repente, vinda de lado nenhum uma ave passa rasando o meu corpo. Coisa pequena, levanta voo e sobe, sobe até eu a perder de vista, engolida pelo azul do céu e um lugar infinito que eu já não abranjo.

-A Alma do meu pai levantou voou e partiu.

Foi isso que senti e ali, naquele momento despedi-me dele para sempre, não que eu não soubesse já que ele viveria comigo dia após dia, como uma sombra ou um nó na garganta que não desaparece.

E ontem, quando estava a olhar o azul e a usufruir do silêncio, voltei aquele local, aquele preciso momento.

E chorei de saudade.Chorei de pena que ele aqui não estivesse para pegar no meu primeiro romance e olhar para mim, com aqueles olhos frios e ao mesmo tempo tímidos, seco de gestos e palavras.Como eu o queria aqui!

O meu pai morreu com 51 anos, O que é de todo imperdoável. Nunca lhe disse o quanto o amava, porque eu era uma mulher casada e mãe de três filhos mas tão estúpida, tão incrivelmente imatura!

Por causa do que nunca lhe disse, por esse sentimento que nunca me abandonou, o resto da vida eu tomei como obrigação minha não guardar para amanhã o que tenho que dizer a quem amo.

Porque pior que errar é a ausência das palavras, é o remorso do que se não se disse e não se fez.

Ah! Estou a escrever e choro novamente.

O amor não morre e a saudade também não.

Para ti meu Pai, onde quer que estejas, eu te envio a minha "Alma e os Mistérios da Vida".

Com eterna saudade e eterno amor.

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