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Luísa Castel-Branco

Momentos

Luísa Castel-Branco, 01.07.08
 

Ouviu o som do carro dele e fico especada, presa no sofá.
Reconhecia aquele som onde quer que estivesse, era estúpido, mas verdadeiro.

No meio de tantos barulhos que subiam da rua, estreita e repleta de carros em cima do passeio, ela sempre soubera quando ele chegava a casa, muito antes de entrar no prédio.

Felizmente que os miúdos já estavam a dormir. Era mais fácil assim.

Tanta coisa que ela tinha para lhe dizer! Esperara por aquele momento, em que ele caísse em si, em que percebesse que era ali, no seu lar que devia estar, e não fora de casa como uma galdéria, esperara e desesperara ao longo de mais de seis meses sem conseguir dormir uma noite seguida, sem conseguir passar um dia sem chorar.

Ao princípio odiara-o, mas depois percebera que o amor que lhe tinha era maior do que a raiva. E decidira há muito tempo aceitá-lo de braços abertos, porque, afinal, os homens são todos iguais.

Continuava sentada no sofá, a luz desligada, a televisão apagada, a suster a respiração enquanto aguardava pela chave na porta, o som dos passos dele.

Não saberia dizer quanto tempo ali esteve, até que sentiu a dormência dos braços e das pernas. O tempo passara e nada, nem o elevador a subir, nem a chaves na porta, nem a voz dele: "Ó Manuela".

Foi então que se levantou, abriu a janela e olhou a rua.
E depois de olhar para cada carro, um a um, porque não queria chegar ao fim, não queria saber o que já sabia, não viu o automóvel dele.

Afinal, era apenas mais uma noite de expectativa, mais uma noite em que ia fingir para si mesma que um dia o som seria verdadeiro.


in  Destak 01.07.08