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Luísa Castel-Branco

A vida

Luísa Castel-Branco, 02.09.08
 

Há pequenas mágoas que nunca se esquecem. Coisas ridículas, seguramente, porque basta ver as notícias, pensar em tanta gente que bem perto de nós está pior.

Mas a injustiça, a palavra que não foi dita, o gesto que não chegou, enfim, há uma imensidão de pequenas mágoas que se instalam dentro de nós e aí ficam, assentam arraiais e não desaparecem.

Talvez seja mais fácil esquecer uma discussão, uma troca acalorada de palavras em que deitamos cá para fora o que nos dói. Mas quanto a estas pequenas feridas, não encontramos palavras para as escorraçar e por isso minam-nos como feridas que não se vêem.

A injustiça é uma das armas mais poderosas nesta coisa a que chamamos a nossa vida, os nossos dias. Apanha-nos de surpresa, porque a verdadeira dor só é provocada por quem amamos, ou alguém a quem respeitamos, mas sempre com uma surpresa que nos tolhe, nos impede de agir.

E depois, se traduzirmos por palavras o que sentimos, e confidenciarmos a alguém este espinho instalado dentro do coração, ninguém o compreende exactamente porque é coisa pequena, sem importância. Para os outros.

Quantos de nós transportamos uma vida inteira a memória dessa mágoa, que nos aparece nos momentos mais disparatados, como uma voz escondida algures e que por maldade se presenteia em nos avivar a memória?

O bom senso da meia-idade, de que tanto se fala, essa fase da vida em que aprendemos a escolher criteriosamente o que nos incomoda, e por conseguinte vivemos em paz com o mundo, não é mais do que o momento da vida em que deixamos pura e simplesmente de ter expectativas sobre os outros.

Desistimos dos sonhos e olhamos tudo com limpidez terrível. Baixamos os ombros e continuamos em frente. Porque, afinal, apenas a juventude é abençoada com a inocência e a ideia fantástica de que tudo é possível.


 in Destak 02 | 09 | 2008

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