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Luísa Castel-Branco

A natureza humana

Luísa Castel-Branco, 04.09.08

 

Porque é que as pessoas não ficam felizes com a felicidade dos outros?
Durante anos, ela tinha sido feliz.
Estupidamente feliz, daquela forma que não tem história, e é feita de coisas sem importância.
Eram apenas um casal feliz, com dois filhos saudáveis, sem dinheiro para grandes coisas mas o indispensável não faltava e os dias corriam tão suaves, tão doces.
E ao longo desses mais de dez anos, as amigas sempre a tinham avisado dos terríveis fantasmas que assolavam os casais, do destino que a todas estava reservado.
E era como se ela de alguma forma as irritasse, por não ter lágrimas para partilhar nem segredos.
Agora, sentada sozinha no escuro da sala, com a chuva de Verão a cair ritmada, pensava que tudo o que elas tão caridosamente tinham previsto acontecera.
O marido um dia, sem qualquer aviso, ou ela não os tinha visto, pura e simplesmente, entrou em casa, pousou a pasta no chão e disse: “Preciso de espaço”.
E antes que ela conseguisse reagir, deu um beijo rápido nas crianças e voltou a sair.
Afinal, ele precisava de muito mais do que espaço.
Precisava daquela nova mulher com quem vivia, daquela nova vida, dos novos amigos, enfim, tinha passado uma esponja sobre a doce vida que tinham partilhado.
As amigas, que souberam ela não podia dizer como porque não fora capaz de coordenar ideias quanto mais pedir ajuda, vieram todas, aos montes, como carpideiras, chorosas e prontas a contarem-lhe detalhes que ela não queria ouvir, que lhe doíam como facadas.
Depois, desapareceram de mansinho, e pouco a pouco ela deixou de ser convidada para jantares e festas até ficar reduzida ao seu pequeno apartamento, aos dois filhos e às recordações.
Quando a encontravam, olhavam-na com comiseração estampada no rosto, a coitadita dela, como é que ia a vida, enfim, conversas de nada, vazias, desumanas.
Ali sentada, a contar as horas até os filhos voltarem para casa, não lhe saia da cabeça o mesmo pensamento.
Ninguém gosta de gente feliz, mas ninguém quer estar ao lado de gente infeliz.
 
 

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